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19/12/2011 - 15h00

"É pior do que se pensa", diz autor sobre crise econômica

da Livraria da Folha

O jornalista Michael Lewis, cronista de Wall Street, buscou as causas da crise econômica mundial nos Estados Unidos e na Europa. Acostumado a contar histórias por meio de pessoas famosas e desconhecidas, Lewis se espantou ao constatar que nem mesmo especialistas no assunto saibam estimar corretamente a severidade da crise.

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Autor conversa com políticos, financistas visionários e acadêmicos notáveis
Autor conversa com políticos, financistas e acadêmicos notáveis

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"Bumerangue: Uma Viagem pela Economia do Novo Terceiro Mundo" reúne entrevistas com primeiros-ministros, ministros de Estado, financistas, manifestantes, monges, acadêmicos e bombeiros, traçando um panorama preocupante da economia.

Lewis também é autor de "Pânico: A História da Insanidade Financeira Moderna", a trajetória das catástrofes financeiras mais notáveis que correram o mundo recentemente, e "A Jogada do Século", livro que explica como a corrupção e estupidez empurraram a economia mundial para a beira do precipício.

Abaixo, leia um trecho do exemplar

*

É PIOR DO QUE SE PENSA

Este livro começou por acaso enquanto eu trabalhava em outra obra, sobre Wall Street e o desastre financeiro americano de 2008. Eu havia me interessado por um pequeno grupo de investidores que fizeram suas fortunas com o colapso do mercado hipotecário subprime. Em 2004, os maiores bancos de investimentos de Wall Street haviam criado o instrumento de sua própria destruição, o swap de crédito (credit default swap - CDS) sobre o título hipotecário subprime. O swap de crédito permitia aos investidores apostar contra o preço de determinado título - vendê-lo "a descoberto". Era uma apólice de seguro, mas com um detalhe: o comprador não precisava possuir o ativo segurado.

Nenhuma seguradora pode, legalmente, lhe vender um seguro contra incêndio para a casa de outra pessoa, mas os mercados financeiros podem e lhe venderão um seguro contra inadimplência referente aos investimentos de outra pessoa.

Centenas de investidores aplicaram no mercado de swaps de crédito - uma porção de gente achou, mesmo que por acaso, que o boom imobiliário americano alimentado pelo crédito fácil era insustentável -, mas apenas uns 15 mergulharam fundo e apostaram forte que grande parte das finanças americanas entraria em colapso. A maioria desses investidores administrava hedge funds em Londres ou Nova York. Quase todos costumavam evitar os jornalistas. Mas sobre aquele tópico, naquele momento, mostraram-se surpreendentemente acessíveis. Todos haviam experimentado a sensação estranha e isoladora de serem os homens racionais num mundo irracional e, quando falavam de sua experiência, soavam como alguém que estivesse em silêncio num barquinho observando o Titanic colidir com o iceberg.

Algumas daquelas pessoas não tinham inclinação para a solidão e o silêncio. Nesse grupo estava Kyle Bass, o gestor de um hedge fund chamado Hayman Capital, de Dallas. Bass era texano, beirava os 40 e passara os primeiros anos de sua carreira (sete deles no banco de investimentos Bear Stearns) vendendo títulos para empresas de Wall Street. No!nal de 2006, pegou metade dos US$ 10 milhões que acumulara, levantou mais US$ 500 milhões com outras pessoas, criou seu hedge fund e apostou forte contra o mercado de títulos hipotecários subprime. Depois foi até Nova York alertar seus velhos amigos de que estavam do lado errado de um monte de apostas furadas. Os corretores do Bear Stearns não deram a mínima ao que ele tinha a dizer. "Você se preocupa com a gestão do seu risco. Eu me preocupo com a do nosso", um deles respondeu.

No final de 2008, quando fui a Dallas ver Bass, o mercado de títulos hipotecários -subprime havia desmoronado, levando consigo o Bear Stearns. Ele agora estava rico e, nos círculos de investimentos, um tanto famoso. Mas sua mente já estava mais à frente da ruína dos títulos hipotecários subprime. Tendo realizado seus lucros, um interesse novo o absorvia: os governos. O governo dos Estados Unidos estava, na época, ocupado assumindo em sua própria contabilidade os empréstimos subprime contraídos pelo Bear Stearns e por outros bancos de Wall Street. O Federal Reserve acabaria absorvendo o risco, de uma forma ou de outra, associado a quase US$ 2 trilhões em papéis duvidosos. Suas medidas foram semelhantes às de outros governos do mundo rico e desenvolvido: os empréstimos podres concedidos por financistas com altos salários trabalhando no setor privado estavam sendo absorvidos pelos tesouros nacionais e bancos centrais por toda parte.

Na opinião de Kyle Bass, a crise financeira não havia terminado.

Estava simplesmente sendo abafada pela fé pública nos governos ocidentais ricos. Passei um dia ouvindo-o discutir com seus colegas, quase exultantes, aonde aquilo poderia levar. Não estavam mais falando sobre o colapso de uns poucos títulos. Estavam falando sobre o colapso de países.

E eles tinham uma tese de investimento novinha em folha.

Desde 2002, algo como um falso boom vinha ocorrendo em grande parte do mundo rico e desenvolvido. O que parecia ser crescimento econômico era alimentado por pessoas contraindo empréstimos que dificilmente conseguiriam saldar: de acordo com seus cálculos aproximados, o endividamento mundial, público e privado, havia mais do que dobrado desde 2002, passando de US$ 84 trilhões para US$ 195 trilhões. "Jamais tivemos esse tipo de acúmulo de dívidas na história mundial", disse Bass. Os grandes bancos que concederam boa parte do crédito não estavam mais sendo tratados como empresas privadas, mas como extensões de seus governos locais, convencidos de que seriam socorridos em caso de crise.

A dívida pública dos países ricos já atingira o que pareciam ser níveis perigosamente altos e, em reação à crise, vinha crescendo depressa. Mas a dívida pública daqueles países já não era a dívida pública oficial. Em termos práticos, incluía as dívidas do sistema bancário de cada país, que, no caso de outra crise, seriam transferidas para o governo. "A primeira coisa que tentamos descobrir", contou Bass, "foi o tamanho daqueles sistemas bancários, sobretudo em relação às receitas dos governos. Levamos uns quatro meses para coletar os dados. Ninguém dispunha deles."

As cifras alcançaram totais espantosos: a Irlanda, por exemplo, com seus grandes e crescentes déficits anuais, havia acumulado dívidas mais de 25 vezes maiores que sua arrecadação fiscal anual. Espanha e França haviam acumulado dívidas mais de 10 vezes superiores à sua arrecadação anual. Historicamente, esses níveis de endividamento público haviam levado ao calote governamental.

A respeito disso, Bass comentou: "Eis a única saída que vejo para esses países: começarem a acumular superávits orçamentários reais. E isso acontecerá no dia de São Nunca."

Mesmo assim, ele se perguntava se algo lhe escapara. "Fui atrás de alguém que conhecesse a história dos calotes governamentais", ele disse. Encontrou o maior expert no assunto, um professor de Harvard chamado Kenneth Rogo, que, por acaso, estava preparando, com a colega Carmen Reinhart, um livro sobre a história dos colapsos financeiros nacionais: Oito séculos de delírios financeiros - Desta vez é diferente. "Mostramos os números a Rogo", contou Bass, "e ele simplesmente os olhou, depois reclinou-se em sua cadeira e disse: 'Não consigo acreditar que a coisa esteja tão ruim.' E eu retruquei: 'Espere aí. Você é o maior especialista do mundo em balanços governamentais. Lecionou em Princeton com Bem Bernanke. Apresentou Larry Summers à segunda esposa dele. Se você não está por dentro disso, quem está?'"

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"Bumerangue: Uma Viagem pela Economia do Novo Terceiro Mundo"
Autor: Michael Lewis
Editora: Gmt Sextante
Páginas: 224
Quanto: R$ 21,25 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

 
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