Saltar para o conteúdo principal
 
03/01/2012 - 16h00

Marcelo Gleiser investiga apocalipse na versão da ciência e da religião

da Livraria da Folha
Texto baseado em informações fornecidas pela editora da obra.

O título "O Fim da Terra e do Céu: O Apocalipse na Ciência e na Religião" (Companhia de Bolso, 2011), do físico Marcelo Gleiser, faz uma viagem pelas visões da ciência e da religião sobre o fim do mundo.

Monte sua estante com livros de Marcelo Gleiser
Autor de '2012' alerta sobre guerra mundial; ouça
Se o mundo "acabar", corra para o lago Titicaca
Visite nossa página no Facebook

Reprodução
Físico investiga o imaginária humano em torno da ideia de fim do mundo
Físico investiga o imaginária humano em torno da ideia de fim do mundo

O livro investiga o imaginário humano em torno do fim da espécie e passeia por referências da literatura, da arte e do cinema que tecem hipóteses sobrenaturais e científicas para a extinção do ser humano.

Siga a Livraria da Folha no Twitter
Siga a Livraria da Folha no Twitter

Uma das obras mais famosas do autor, o título acaba de ser reeditado em formato de bolso pela Companhia das Letras. O momento é mais do que propício, uma vez que existem previsões para um possível fim do mundo em 2012.

A obra recebeu o Jabuti de melhor livro de ciências exatas, tecnologia e informática em 2002.

Considerado o físico mais famoso do país, Gleiser é autor ainda de "A Dança do Universo", também laureado com o Jabuti, "Poeira das Estrelas" e "Micro Macro".

Leia o trecho inicial de "O Fim da Terra e do Céu".

*

1. Os céus estão caindo

Eu sou o Tempo, o grande destruidor.
Bhagavad Gita, 11.32

Nós somos criaturas limitadas pelo tempo. Nossa vida tem um princípio e um fim, um período finito de tempo que nos apressamos a dividir em segmentos iguais - anos, meses, dias - na vã esperança de que, por meio dessa contagem, possamos, de fato, controlar sua passagem. Mas, desdenhando nossos esforços, o tempo sempre vence no final: nós envelhecemos e, sem saber quando ou como, morremos. Esse fato, que muitos desprezam como óbvio, outros como demasiado perturbador e outros, ainda, como muito deprimente, é um dos aspectos mais fundamentais de nossa existência. E, como espero convencer o leitor neste livro, também um dos mais maravilhosos. É ele que dá significado ao que é ser humano.

A morte faz com que nos apeguemos à vida com todas as nossas forças, inspirando nossa constante busca por algo que transcenda a passagem do tempo. Nós criamos incessantemente, ou um quadro, ou uma família, ou um teorema matemático, ou uma nova receita, de modo que algo permaneça no mundo após nossa partida, algo que vá além da simples memória de nossa existência na mente de amigos e parentes: memórias se esvanecem de geração em geração. Há alguns anos, quando explorava cantos empoeirados e esquecidos do sótão de meus pais, encontrei os álbuns de fotografias de meus avós paternos, recheados de memórias amareladas de parentes, amigos e de suas festas, momentos congelados de um passado já distante. "São todos fantasmas agora", disse meu irmão Rogério, em seu estilo peculiarmente sarcástico. Admirando as fotos, me perguntei o quanto daquelas experiências, sorrisos, lágrimas e sabedoria, o quanto das tantas histórias e aventuras de meus avós está ainda vivo na mente de seus bisnetos. Sentindo-me como o elo perdido em uma corrente que une quatro gerações, fechei os álbuns com a triste sensação de haver perdido parte de minha própria história, agora enterrada em fotos de pessoas que não consigo reconhecer. Quem afirmou que ter filhos é uma forma garantida de imortalidade?

Luciana Whitaker/Folha Imagem
Cientista Marcelo Gleiser, físico mais famoso do Brasil, volta à lista dos mais vendidos com seu novo livro "Criação Imperfeita"
Marcelo Gleiser, físico mais famoso do país, tem obra sobre o fim do mundo reeditada em formato de bolso

Mas será verdade? Perto dos álbuns encontrei uma enorme caixa de papelão. Ela escondia dezenas de cartas que meus avós trocaram entre si, com parentes na Ucrânia e na Rússia, com meus pais quando meu pai estava estudando em Boston no início da década de 1950. Mal podendo conter a emoção, pedi a uma amiga do Departamento de Linguística, especialista em idiomas eslavos e da Europa Central, que me ajudasse a traduzi-las. Essa era a minha chance de reconstruir a vida de meus antepassados, valendo-me daqueles depoimentos que sobreviveram à passagem do tempo. De posse da tradução das cartas, vi a emoção inicial rapidamente transformar-se em desapontamento. Elas não traziam nada de especial, somente detalhes desinteressantes da vida diária de meus avós: um primo que estava gripado; outro que ia estudar na universidade em Moscou; a árvore que caíra na casa do vizinho - "Imagine que horror se fosse na nossa!"; meu pai que passara nos exames de qualificação em Harvard; meu irmão mais velho, então com três anos, que já era capaz de falar inglês apenas dois meses depois de chegar aos Estados Unidos etc. Nenhuma revelação existencial profunda, nenhum segredo de família, nada! Apenas fatos da vida deles, seus problemas e desafios menores, os mais complexos misteriosamente ausentes... Nada que pudesse nos ajudar a compreender melhor a vida deles, nada para nós.

Em meio à minha decepção, me dou conta do quanto nós, os vivos, somos egoístas. Eu não estava tentando conhecer melhor os meus parentes; as fotos e as cartas poderiam ter me auxiliado nisso. O que eu realmente procurava era me conhecer melhor por meio deles. Queria que eles me ajudassem a responder perguntas que não posso responder, a escolher quando estou confuso, que eles apoiassem os caminhos que tomei na vida. Afinal, sua história é a minha história, sua vida é parte da minha: onde eu cresci, como eram meus pais, as tradições da família. Mas essas pequenas verdades não são suficientes; não devemos esperar que nosso passado venha a definir por completo o nosso futuro. A vida e as lições dos parentes já falecidos podem nos guiar e apoiar em muitos momentos, mas somos nós os únicos responsáveis por nossas escolhas. E, mesmo quando estamos rodeados por aqueles que amamos, mesmo quando tudo está indo relativamente bem, podemos nos sentir profundamente sós.

Nós buscamos significado, ajuda, companheirismo. Precisamos de algo além de lembranças e sonhos: precisamos de esperança. Talvez, se fôssemos capazes de transcender as limitações de nossa curta vida, de existir em uma realidade sobrenatural, pudéssemos até suspender a passagem do tempo. E, quem sabe, se conseguíssemos de alguma forma ludibriar o tempo, não poderíamos nos reunir mais uma vez com aqueles que já deixaram este mundo? Quando suspendemos a passagem do tempo, quando nos tornamos imortais como os deuses, a vida e a morte passam a coexistir, e os mortos podem então caminhar ao lado dos vivos. Para isso nós criamos o infinito e o eterno, dedicando-nos de corpo e alma à nossa fé, qualquer que ela seja. A fé consola e justifica. Inspira a todos nós: o pintor, o professor, o cientista, o padre, o advogado, o porteiro. Como escreveu o norte-americano Saul Bellow: "Somos todos atraídos para a mesma cratera do espírito - para sabermos quem somos e por que somos, para descobrirmos nossa missão, para buscar a graça".

São muitas as nossas criações que vislumbram o eterno. Neste livro, iremos examinar algumas de nossas respostas às limitações temporais de nossa existência, especialmente aquelas unidas por um elo comum: o fascínio e terror pelo que ocorre nos céus. Devido à natureza sagrada atribuída aos céus por diversas culturas e religiões, os fenômenos celestes eram (e, várias vezes, ainda são) vistos como mensagens vindas dos deuses, que poderiam ser tanto boas como más. Em muitos casos, os sinais do Fim, ou a punição divina, vêm dos céus, seja através de objetos celestes jogados pelos deuses sobre nossas casas e terras, seja através de uma misteriosa escuridão em pleno dia ou de dilúvios que afogam todos menos alguns privilegiados. Em textos apocalípticos mais extremos, objetos caindo dos céus anunciam o fim de toda a vida na Terra, o fim dos fins, que trará a paz eterna aos virtuosos e o sofrimento eterno aos pecadores.

A ciência, desde as suas origens, também inspirou-se nos céus e em seus mistérios. De Platão a Einstein, muitos dos maiores filósofos e cientistas de todos os tempos dedicaram-se ao estudo dos céus, não apenas por razões práticas, mas numa tentativa de elevar a mente humana para aproximá-la da do Criador, o "Grande Organizador Cósmico". Eles acreditavam que o conhecimento do mundo natural levaria a humanidade a uma esfera moral superior; com isso, a busca por esse conhecimento tornou-se um projeto apaixonado, que merecia a devoção de uma vida inteira. Grande parte das superstições e dos medos causados por misteriosos fenômenos celestes foi anestesiada pelo acúmulo do conhecimento científico. Mas mesmo com todo esse progresso, ou, talvez, devido a ele, vários outros desafios e mistérios apareceram e continuarão a aparecer. Um cientista pode considerar essa permanência do desconhecido como uma consequência da inextinguível criatividade da Natureza - ou, mais cinicamente, como uma expressão das limitações da razão humana. Já uma pessoa religiosa pode atribuí-la à natureza infinita de Deus. Ao explorar, neste livro, nossa relação com os céus por meio da fé e da razão, veremos que a ciência e a religião são duas faces diferentes, porém complementares, de nossa luta contra o tempo. Neste capítulo inicial, tratarei da questão apocalíptica, examinando as narrativas do "Fim do Mundo" segundo várias religiões, do druidismo ao cristianismo. Juntas, tais narrativas representam um conjunto de imagens que eu chamo de "arquétipos do Fim" e que irão reaparecer neste livro.

*

"O Fim da Terra e do Céu: O Apocalipse na Ciência e na Religião"
Autora: Marcelo Gleiser
Editora: Companhia de Bolso
Páginas: 384
Quanto: R$ 22,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

 
Voltar ao topo da página