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26/04/2012 - 20h30

Autora de 'Pulmão de Aço' conta que foi vítima de pessoas mal-intencionadas

da Livraria da Folha

Vítima da poliomielite e paralisada do pescoço para baixo, Eliana Zagui conta que foi vítima de pessoas mal-intencionadas no decorrer dos anos que passou em uma cama de hospital. Em "Pulmão de Aço", seu livro de memórias, relata que a carência afetiva e a ingenuidade a torna uma vítima fácil para todo o tipo de desonestidade. Não só ela, mas também seus colegas de quarto.

Assista ao depoimento de autora internada há 36 anos
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Leia um trecho do livro no qual a autora conta algumas de suas experiências desagradáveis.

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Divulgação
Eliana Zagui vive internada na UTI desde que foi vítima de poliomielite
Eliana Zagui vive internada na UTI desde que foi vítima de poliomielite

Viver isolados do mundo nos deixa despreparados para muitas situações e nos torna ingênuos. Alvos em potencial de pessoas mal-intencionadas.

Por carência afetiva, desde pequenos nos apegamos com muita rapidez a quem quer que nos dispense um pouco de atenção. Não importa se médico, enfermeira, funcionário ou visitante. Bastava uma palavra de carinho para enxergarmos aquela pessoa como o nosso pai, mãe, protetor, alguém da família que nunca tivemos.

Nem sempre as pessoas de nosso convívio foram desprendidas e abnegadas, como Tia Lu, Tio Fernando, dr. Giovani. Algumas visitas e alguns funcionários eram extremamente instáveis ou impacientes. Outros simplesmente nos roubavam. Nada tínhamos de muito valor, mas de vez em quando conseguíamos juntar alguns trocados para um lanche. Várias vezes esse dinheiro e os presentinhos que ganhávamos sumiram.

Uma ex-auxiliar, posteriormente afastada pela direção do HC, tinha problemas com bebida. Quando estava sóbria, era maravilhosa. Quando bebia, aprontava. Pertences meu e de Paulo começaram a desaparecer invariavelmente durante o turno dela. Pegava coisas inimagináveis de Paulo, bobeirinhas minhas, como xampu, condicionador de cabelo, minhas calcinhas, uma cueca do Pedro, nosso dicionário Aurélio.

Tínhamos pena. Era totalmente infeliz. Às vezes sentava se numa cadeira à cabeceira da minha cama, sacava uma garrafinha de bebida e se punha a chorar, enquanto discorria sobre seus problemas pessoais. Morreu jovem, de infarto, pouco depois de ter sido dispensada do hospital.

Quando a desonestidade se misturava ao caráter completamente insensível de algumas pessoas, as decepções eram colossais. Paulo conta:

Quando tinha uns 20 anos, meu sonho era ter um videogame. Eu e Pedrinho falávamos disso o dia todo. Como não tínhamos dinheiro nem sabíamos fazer algo que nos rendesse uns trocados, resolvemos organizar uma vaquinha entre amigos, médicos e funcionários. Não tínhamos conta em banco, claro, e o Tio Fernando sugeriu que trocássemos o dinheiro obtido por dólar. Pacientemente, ele se encarregou de fazer o câmbio. Juntávamos um pouquinho e dávamos para ele trocar. As notas ficavam numa carteira, a qual eu não largava. Dormia com ela sob o travesseiro. Meses depois - muitos meses depois, é verdade - de começarmos nossa arrecadação, já tínhamos 300 dólares. Dinheiro suficiente para comprar um modelo de última geração. Não nos aguentávamos de felicidade. Eu me agarrava àquela carteira até conseguir uma boa alma que pudesse nos comprar o aparelho, de preferência durante uma viagem ao exterior. Certo dia, me descuidei apenas por alguns minutos. Esqueci de levá la comigo quando me tiraram da cama para trocar os lençóis. Assim que me colocaram de volta e consegui enfiar minha mão em baixo do travesseiro, soltei um grito de desespero: a carteira tinha desaparecido. Começamos a berrar. Uma das atendentes fez cara de surpresa e achou a carteira no chão. Sem os dólares. Choramos por semanas seguidas. O dinheiro não reapareceu.

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"Pulmão de Aço"
Autor: Eliana Zagui
Editora: Belaletra
Páginas: 240
Quanto: R$ 31,00 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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