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02/09/2014 - 14h33

Depressão limita a capacidade de dar ou receber afeição

da Livraria da Folha

Quem nunca enfrentou a depressão tem dificuldade em compreendê-la. Não raro, encontramos pessoas que consideram essa doença uma mera frescura. Andrew Solomon lidou com o problema e narra a sua batalha em "O Demônio do Meio-Dia".

"A depressão se alimenta do próprio ar, crescendo apesar de seu desligamento da terra que a alimenta", escreve Solomon no livro. "Ela só pode ser descrita com metáforas e alegorias".

Divulgação
"O Demônio do Meio-Dia" é uma referência sobre a depressão, para leigos e especialistas
"O Demônio do Meio-Dia" é uma referência sobre a depressão

"Quando ela chega, destrói o indivíduo e finalmente ofusca sua capacidade de dar ou receber afeição".

Além do seu testemunho e de outros que passaram por essa experiência, o autor debate medicações disponíveis, psicanálise e tratamentos alternativos.

Ele divide a depressão em leve e severa. "A depressão leve é um algo gradual e permanente, que mina as pessoas como a ferrugem enfraquece o ferro", diz.

"A depressão severa é a matéria dos colapsos nervosos. Se imaginarmos uma alma de ferro que se desgasta de dor e enferruja com a depressão leve, então a depressão severa é o colapso assustador de uma estrutura inteira".

Eleito um dos cem melhores livros da década de 2000 pelo jornal "The Times", vencedor do National Book Award e finalista do Pullitzer, "O Demônio do Meio-Dia" foi publicado em 24 línguas.

O jornalista Andrew Solomon é formado em literatura na Universidade Yale e doutor em psicologia pela Universidade de Cambridge. "Longe da Árvore", sobre o universo da diversidade em famílias com filhos marcados pela excepcionalidade, recebeu o National Book Critics Circle Award.

Abaixo, leia um trecho de "O Demônio do Meio-Dia".

*

[...]

Tendo acabado de sair de uma depressão severa, na qual eu dificilmente acolhia os problemas de outras pessoas, me senti cúmplice daquela árvore. Minha depressão havia tomado conta de mim como aquela trepadeira dominara o carvalho. Ela me sugou, uma coisa que se embrulhara à minha volta, feia e mais viva do que eu. Com vida própria, pouco a pouco asfixiara toda a minha vida. No pior estágio de uma depressão severa, eu tinha estados de espírito que não reconhecia como meus; pertenciam à depressão, tão certamente quanto as folhas naqueles altos ramos da árvore pertenciam à trepadeira. Quando tentei pensar claramente sobre isso, senti que minha mente estava emparedada, não podia se expandir em nenhuma direção. Eu sabia que o sol estava nascendo e se pondo, mas pouco de sua luz chegava a mim. Sentia-me afundando sob algo mais forte do que eu. Primeiro, não conseguia usar os tornozelos, depois não conseguia controlar os joelhos e em seguida minha cintura começou a se vergar sob o peso do esforço, e então os ombros se viraram para dentro. No final, eu estava comprimido e fetal, esvaziado por essa coisa que me esmagava sem me abraçar. Suas gavinhas ameaçavam pulverizar minha cabeça, minha coragem e meu estômago, quebrar-me os ossos e ressecar meu corpo. Ela continuava a se empanturrar de mim quando já parecia não ter sobrado nada para alimentá-la.

Eu não era suficientemente forte para parar de respirar. Sabia que jamais poderia matar essa trepadeira da depressão. Assim, tudo que eu queria era que ela me deixasse morrer. Mas ela se apoderara de minha energia. Eu precisaria me matar, ela não me mataria. Se meu tronco estava apodrecendo, essa coisa que se alimentava dele estava agora forte demais para deixá-lo cair. Ela se tornara um apoio alternativo para o que destruíra. no canto mais apertado da cama, rachado e atormentado por essa coisa que ninguém parecia ver, eu rezava para um Deus no qual nunca acreditara inteiramente e pedia libertação. Teria ficado feliz com uma morte dolorosa, embora estivesse letárgico demais até para conceber o suicídio. Cada segundo de vida me feria. Porque essa coisa drenara tudo que fluía de mim, eu não podia sequer chorar. Até a minha boca estava ressecada. Eu pensava que, quando nos sentimos muito mal, as lágrimas jorrassem, mas a pior dor possível é a dor árida da violação total que chega depois de todas as lágrimas já terem se exaurido. A dor que veda cada espaço através do qual você antes entrava em contato com o mundo, ou o mundo com você. Essa é a presença da depressão severa.

[...]

*

O DEMÔNIO DO MEIO-DIA
AUTOR Andrew Solomon
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 30,30 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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