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15/12/2014 - 15h22

Coletânea editada por Tony Bellotto traz histórias noir ambientadas no Rio

da Livraria da Folha

Divulgação
Livro reúne contos de personagens e histórias tipicamente cariocas
Livro reúne contos de personagens e histórias tipicamente cariocas

Seguindo os moldes da série de sucesso nos Estados Unidos, que reúne contos policiais de grandes escritores, "Rio Noir" é o primeiro noir brasileiro da coleção e tem como cenário diversos bairros do Rio de Janeiro.

Apresentando uma perspectiva contemporânea e urbana da cidade maravilhosa, a obra traz personagens e histórias tipicamente cariocas: de classe média cosmopolita, população de comunidades carentes e ricos encastelados.

Editado por Tony Bellotto, "Rio Noir" inclui textos de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Luiz Eduardo Soares, MV Bill, Guilherme Fiuza, Arthur Dapieve, Victoria Saramago, Arnaldo Bloch, Adriana Lisboa, Alexandre Fraga, Marcelo Ferroni, Flávio Carneiro, Raphael Montes e Luis Fernando Verissimo.

Leia abaixo um trecho do livro.

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As imagens do Rio de Janeiro são conhecidas: construções entrincheiradas entre praias de areia branca, mar azul, lagoas de água doce e florestas exuberantes que se estendem por sinuosas montanhas de pedra; o Pão de Açúcar conectado ao solo por bondinhos em hipnótico vai e vem; asas-deltas cruzando os céus em voo sem destino; o Cristo Redentor de braços abertos a abençoar um povo alegre, miscigenado e cordial, sempre disposto a cair no samba ou a abrir um sorriso hospitaleiro aos turistas que transitam pelas ruas a admirar belas mulheres requebrando nuas sobre carros alegóricos nos desfiles de carnaval... Opa!

Este não é um guia turísticos. A cidade que se descortina no livro que o leitor tem em mãos é um outro Rio.

Ainda que nas páginas deste Rio noir as famosas paisagens estejam presentes, o que se revela aqui é um mundo de vultos, sangue, intriga, violência, desvãos e mistério (e também de humor, é claro, como só poderia ser num empreendimento em que cariocas estejam envolvidos).

Há muito o Rio deixou de ser uma idílica cidade de encantos turísticos, e as cenas de crimes protagonizadas por traficantes selvagens, policiais violentos e políticos corruptos atestam o fato com assustadora regularidade em noticiários por todo o planeta. Nos dias de hoje, a imagem da cidade de lindas praias, mulheres sensuais, gays animados e malandros simpáticos está inapelavelmente atrelada a tiroteios e disputas sangrentas entre facções criminosas. A cidade partida, fraturada entre uma classe média cosmopolita e uma população desassistida em comunidades miseráveis, tornou-se o retrato mais expressivo de um país de enorme desigualdade social e gritante violência.

O que não deixa de ser muito excitante quando se trata de matéria bruta para histórias de crime!

A conclusão é paradoxal e um pouco chocante, admito, mas existirá cidade mais paradoxal do que o Rio de Janeiro?

Capital do Brasil de 1763 a 1960 - e de todo o Império português durante as guerras napoleônicas -, símbolo internacional do país, principal destino turístico do hemisfério sul, cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016, detentora de altíssimos índices de violência e miséria, a cidade do Rio é muito mais do que mostram imagens de cartões-portais, tabelas de indicadores socioeconômicos e notícias chocantes em páginas de jornais.

A cidade é antes de tudo um enigma em busca de uma decifração.

Talvez eu soe tendencioso ao afirmar que ninguém melhor para decifrar enigmas do que escritores de histórias policiais. Mas por que histórias policiais?, pergunta-se George Pelecanos, escritor norte-americano. Porque, entre outras funções, a ficção noir permite explorar aspectos sociais, forças e fragilidades humanas que compõem o dia a dia de qualquer grande cidade.

Foi com o intuito de tentar decifrar esse enigma que convidei Luiz Alfredo Garcia-Roza, Luiz Eduardo Soares, MV Bill, Guilherme Fiuza, Arthur Dapieve, Victoria Saramago, Arnaldo Bloch, Adriana Lisboa, Alexandre Fraga, Marcelo Ferroni, Flávio Carneiro, Raphael Montes e Luis Fernando Verissimo a partilharem comigo a feitura do livro que o leitor agora manuseia (não sem algum risco de manchar as mãos de sangue, advirto!).

Escolher esses autores foi como escalar o Pão de Açúcar pelo simples prazer de, depois de esgueirar-me verticalmente pela pedra bruta, vislumbrar um horizonte a perder de vista. Aqui se reúnem escritoras e escritores que transitam com desenvoltura por atividades díspares como ficção de diferentes matizes, jornalismo de variadas tendências, edição de livros, humor, horror, filosofia, segurança pública, psicanálise, rock, rap, ativismo cultural, participação social, política e magistério. Mesmo aqueles que nunca tinham se exercitado pela ficção noir se animaram a contar histórias que, de formas e sinuosidades distintas, montam um quebra-cabeça que ousa desafiar os limites do gênero. Se conseguimos decifrar algum enigma com os dramas de nossos proxenetas, cartomantes, coronéis, policiais, traficantes, socialites, favelados, estelionatários, turistas, corretores, detetives, jornalistas, políticos, assassinos, editores, bandidos, viajantes, golpistas, escritores, amantes e cidadãos comuns, não sei. Com certeza adicionamos uma grande sombra à paisagem ensolarada da cidade maravilhosa.

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RIO NOIR
AUTOR Vários
EDITORA Casa da Palavra
QUANTO R$ 32,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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