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06/03/2015 - 15h30

Historiador dá voz a brasileiras e brasileiros que entraram na prostituição internacional

da Livraria da Folha

Escrito pelo historiador José Carlos Sebe B. Meihy, "Prostituição à Brasileira" apresenta as experiências de cinco brasileiras e brasileiros que entraram na prostituição internacional. O autor dá voz aos protagonistas do tráfico de pessoas e do turismo sexual e da indústria do sexo.

Professor titular aposentado do departamento de história da USP, Sebe criou uma metodologia de condução de história oral. Ele também é autor de "História Oral" e "Guia Prático de História Oral"

Abaixo, assista ao depoimento de Sebe e leia trecho de "Prostituição à Brasileira".

Assista ao vídeo

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Apresentação

Divulgação
Experiências vindos de dentro do mundo que trata o sexo como negócio
Experiências de dentro do mundo que trata o sexo como negócio

O que faz um livro sobre brasileiros que vivem da prostituição no exterior valer a pena? Bastaria contar suas historias em linhas escandalosas? Como ir além das avaliações estatísticas, crônicas policiais, questões de direito internacional e trabalhista ou critica moral? Por que e para quem expor narrativas intimas de tipos sempre situados no limite da transgressão, envolvidos em polemicas infindáveis? Como inscrever o tópico em debates que valham por fundir aspectos da sociedade globalizada e de indivíduos singulares, em particular os vulneráveis? Com essas perguntas, busquei dar sentido a tantos casos que há cerca de 15 anos me comovem, desafiando a registros difíceis e analises incomodas.

A abordagem da prostituição nos dias de hoje se insinua por caminhos tortuosos e controversos. Considerando a multiplicidade de alternativas analíticas, no entanto, foi necessário eleger aspectos que permitiram alguma sondagem capaz de explicações que superem a constatação do problema e suas indefinições. Diante da suposta perenidade da prostituição, assume-se o risco de proceder a um alinhavo histórico como ponto de partida para o entendimento de dramas repontados no formidável aparato da globalização. A longa duração da pratica da prostituição exercida em todos os tempos e espaços remete ao pensamento sobre a matéria em suas matrizes conceituais e na consequente internacionalização do processo. Assim, mais do que elencar fatos, números e situações, cabe propor uma possível gênese conceitual do tratamento dado ao tema em momentos da constituição do perfil histórico desses tipos sociais. Como chave para o entendimento dos argumentos que se firmaram depois da definição do mundo moderno, fiam-se alguns juízos articulados como discurso a respeito do papel de mulheres e homens que se valem do sexo como atividade distintiva. Tais marcas legadas de outros tempos históricos servem de elos referenciais atentos a realidade atual e nela a participação brasileira. Certamente, não se pretende esgotar o assunto, mas integrar o debate com exemplos nossos. O objetivo central deste livro se apoia na vontade de mostrar o outro lado da historia, isto e, a percepção de pessoas que se envolvem na imensa maquina que usa o sexo como negocio.

Com o exame histórico do tema prostituição, e possível assinalar uma linha divisória entre dois tempos: antes e depois da expansão ultramarina do século XVI. As naus que permitiram as grandes navegações em busca de alternativas econômicas facilitaram articulações do mundo, impondo contatos irreversíveis, violentos e de dominação. Com as chamadas "descobertas", vincularam-se as partes ate então não integradas em linhas de comunicação, comercio, trocas culturais, definindo-se mecanismos de predomínio. Manifestações explicitas de poder se impuseram por armas, lutas, extermínios e injunção legal. Houve também alusões sutis, praticas vigoradas a surdina dos tempos e infiltradas na aparente mansidão dos costumes que definiram culturas e desempenhos nacionais. Na moldura dessas transformações e que a analise da prostituição ganha sentido como traço de permanência que carrega heranças conceituais projetadas.

Identificada na Antiguidade oriental e ocidental e na Idade Media como ilhas de experiências isoladas, a prostituição ganhou feições universais quando se estabeleceram as rotas do mundo moderno, integradas gradativamente pelo estabelecimento do sistema colonial. Diga-se, alias, que o uso do corpo como fator capitalista de colonização também teve inicio sob essas condições. A ampliação do mundo pela perspectiva europeia demandava mudanças radicais no comportamento humano, e então, como nunca, o uso do sexo se impôs como alternativa para a formulação de novos moldes familiares e de variações morais. A prostituição ganhava novos mapas e se inscrevia como pratica marginal, em oposição a formação das famílias e ao ordenamento de classe social. Não faltaram preceitos religiosos que por leituras bíblicas definiam prostituição como pecado.

Em processos de conquista, os territórios "novos" se mostraram suscetíveis aos fluxos migratórios e a formação de redes, caracterizadas pelo envio de mulheres as colônias, mesmo que fossem as "erradas". Em contrapartida, as "nativas" eram usadas, na maioria das vezes, indiscriminadamente e também, de maneira abusiva, as negras escravas. Vale notar, por exemplo, que as terras da América valeriam como forma de purificação das prostitutas portuguesas. A oportunidade de "remissão dos pecados" dessas mocas se impunha como solução para a sociedade colonizada tida como terra "de todos os pecados". Em razão da inviabilidade da proposta dos religiosos católicos, pode-se dizer que o processo de colonização abrigou vasta bastardia, derivada da necessidade de povoar a terra. Importa assinalar a prostituição em escala internacional como decorrência de uma relação colonial continuada que, em parte, explica a sempre crescente e progressiva rede de trafico de pessoas.

Dois procedimentos foram assumidos como hipóteses analíticas para a compreensão da prostituição contemporânea, em particular a que inscreve pessoas vulneráveis: a constatação dos números da prostituição contemporânea e a retomada histórica que, num assomo rápido, permite o entendimento de conceitos semeados no pretérito longínquo, projetados nos dias de hoje.

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PROSTITUIÇÃO À BRASILEIRA
AUTOR José Carlos Sebe B. Meihy
EDITORA Contexto
QUANTO R$ 37,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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