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26/08/2015 - 11h05

Liliane Prata escreve romance cosmopolita sobre ética e superação; leia trecho

da Livraria da Folha

Débora estava prestes a viver o dia mais feliz de sua vida. Tudo estava pronto para o casamento dos sonhos com Felipe: o apartamento estava arrumado, a lua de mel seria na Grécia e até um novo emprego na redação de uma revista feminina esperava por ela na volta da viagem.

Porém, a nova etapa vira fumaça assim que Débora decide surpreender Felipe, que precisou ficar até mais tarde no trabalho, e o flagra com a irmã do sócio em uma situação extremamente comprometedora.

Divulgação
Em livro, autora questiona se é aceitável vingar uma suposta traição com outra ou se o que realmente importa é perdoar
Em livro, autora questiona se é aceitável vingar uma suposta traição com outra ou se o que realmente importa é perdoar

Desorientada, Débora decide ir embora sem anunciar sua presença. Agora, ela precisa decidir o que fazer: armar um escândalo e terminar tudo ou esquecer o que viu e ser feliz para sempre?

Em "Eu Odeio te Amar", Liliane Prata apresenta um romance cosmopolita que traz ferramentas tecnológicas como Tinder e Whatsapp e questiona: é aceitável vingar uma suposta traição com outra? Ou o que realmente importa é perdoar em nome de uma história já vivida em um relacionamento feliz?

Nascida em Minas Gerais, Liliane Prata é formada em jornalismo pela UFMG e em filosofia pela USP. Atualmente é editora da revista "Claudia". Por oito anos, foi colunista da revista "Capricho", onde trabalhou também como editora-assistente por três anos.

Assina os livros "O Diário de Débora", "Uma Bebida e um Amor Sem Gelo, por Favor" e "O Mundo de Muriel".

Abaixo, leia um trecho de "Eu Odeio te Amar".

*

10 de maio, sábado

Aqui estou eu, deitada na cama, no dia do meu casamento. São 8 horas da manhã, mas estou acordada desde as 5h30. E comecei a chorar no minuto em que abri os olhos.

À minha frente, pendurado em um cabide no meu guarda-roupa, embaixo de uma capa preta, o vestido de noiva mais perfeito que eu poderia imaginar. Olho para ele, fecho os olhos e sinto que vou voltar a chorar. Olho de novo. Gostaria de dizer que estou chorando de alegria, como eu estava até ontem à noite. Como eu estava, aliás, desde que eu e o Felipe voltamos a namorar. Não se passou um dia sem que eu me desse conta do quanto eu amava e era amada. Mas, agora, nem sei dizer direito o que estou sentindo. Acho que é muita tristeza mesmo, misturada a um turbilhão de sentimentos.

Primeiro, foi incredulidade. Eu não queria acreditar que aquilo estava acontecendo. Depois, foi um ódio profundo - do Felipe, da vida, de tudo. Agora, estou meio sem reação. Olho para o vestido, me sentindo oca por dentro, tão oca que não tenho mais como preencher saia rodada nenhuma.

Pego o celular e só vejo agora as mensagens que minhas amigas me mandaram de madrugada. A da Bia:

Amigaaa, tô tão animada para o dia da noiva que parece que o casamento é meuuuu!

A da Lu:

O que você tá sentindo? Mas conta assim, em detalhes?

A da Catarina foram sequências megaempolgadas de figurinhas, a da Sofia foi uma foto dela com o vestido que ela vai usar, pois é uma das madrinhas. Ou era, sei lá. Se ainda tiver casamento hoje. Não sei de mais nada.

Levo um susto com o toque do celular: é o Felipe. Ponho no silencioso. Não se passam nem dois minutos e minha mãe bate na porta do meu quarto:

- Filha, já acordou? É o Felipe no telefone!

Respiro fundo. O que eu respondo? Não quero falar com ele, definitivamente. Mas já é hora de envolver minha mãe nisso? Ontem mesmo ela estava toda animada experimentando pela terceira vez o vestido dela! Sério, ainda não acredito que isso esteja acontecendo. É um pesadelo, só pode ser.

- Débora? É hoje, filha! Seu grande dia chegou! Preparei um café da manhã superespecial pra gente, levanta!

- Tô dormindo ainda, mãe - respondo, fazendo uma voz de sono. - Fala pra ele que depois eu ligo.

"Tô dormindo ainda". Ótimo. Bateu direitinho com o horário. Aparentemente, todo mundo à minha volta está perfeitamente desperto, mas ainda são 8 da manhã, e não 10 ou 11. Bateu com a desculpa que dei ontem para me trancar no meu quarto bem cedo, pouco antes das 9 da noite: "Vou dormir cedo, mãe, quero acordar bem descansada amanhã", eu tinha dito. E bateu até com ontem à tarde, quando eu disse para o Felipe que não ia tomar um café com ele porque estava com muito, muito sono, depois de passar o dia inteiro para lá e para cá
resolvendo os últimos detalhes do nosso apartamento. Ele e minha mãe entenderam, mas deu para ver que eles estranharam essa minha súbita falta de energia. Melhor pensar em outra desculpa da próxima vez que perguntarem o que eu tenho, senão minha mãe vai entrar com um bule de café e uma tigela de açaí aqui no meu quarto.

Fecho os olhos e me lembro de quinta-feira à tarde, quando peguei meu vestido, morrendo de ansiedade. Tinha sonhado que ele estava todo errado, torto no meu corpo! Cheguei até meio surtada no ateliê, peguei o vestido tremendo. Quando vesti... ele estava perfeito, nem mais um único microajuste a ser feito. Era como se eu estivesse pegando um recém-nascido no colo. Coloquei o vestido no banco de trás do carro e vim dirigindo para casa. No caminho, desviei só para passar em frente ao prédio em que a gente ia (vai?) morar depois da festa (festa?). Ai, sério, de tanto pensar se vai ou não ter casamento hoje, minha cabeça começa a doer. Pelo menos, quando minha mãe, o Felipe, ou qualquer outra pessoa vier me procurar, vou ter uma desculpa verdadeira: dor de cabeça.

De volta para casa, com o vestido pendurado na porta do guarda-roupa, eu ainda era uma pessoa extremamente feliz. Mas nem pude ficar muito tempo contemplando aquela capa preta que guardava minha roupa tão desejada: precisava arrumar a mala para a viagem de
lua de mel e depois ir correndo para o banho porque, mais tarde, eu ia sair para jantar com o Felipe. Eu estava em uma alegria eufórica! Aliás, eu estava nessa alegria eufórica desde que os preparativos para o casamento tinham começado. Sabe quando o dia é curto para tudo o que a gente tem que fazer, mas, ao mesmo tempo, a gente tem energia infinita? Parece que o dia ganha várias horas extras e tudo, tudo cabe ao longo dele. Mas, na verdade, não é o dia que ficou mais longo: é a gente que está alegre, e alegria, todo mundo sabe, é o motor que faz a gente dar conta de tudo: trabalhar muito, planejar uma viagem, tomar conta de um bebê... Não que eu já tenha cuidado de um bebê, claro. Aliás, se tem uma coisa em que não quero pensar agora é em bebê: até hoje não me acostumei a ideia de que vai ser muito, muito difícil eu realizar meu sonho de ser mãe um dia - foi o que eu descobri na última consulta na minha ginecologista, quando ela leu o resultado dos exames. Na sequência, ela já foi sugerindo uma série de tratamentos que eu posso fazer no futuro e tal, mas ouvir tudo aquilo foi um baque. Bom, mas essa não é a questão agora: nem sei se vou me casar, que dirá ser mãe...

Enfim, na quinta à tardinha eu estava alegre, de banho tomado, fazendo escova no cabelo e me lembrando de minuto em minuto daquela nova e desejada presença no meu quarto: o vestido de noiva. Às 8 em ponto, o Felipe me mandou mensagem para eu descer. Eu estava terminando de me maquiar, só faltava o blush. Acabei, passei perfume, calcei meus sapatos, dei um beijo na minha mãe e outro na minha irmã, a Bárbara, e desci. Sem fazer ideia, claro, de que aquele seria meu último jantar feliz com o Felipe.

Foi uma noite deliciosa, do início ao fim, e meus olhos se enchem d'água só de lembrar daquele fim, no nosso apartamento... Quando nos encontramos, dei um superbeijo nele, que estava lindo de camisa branca, barba feita, cabelo cheiroso (mas chega, não vou entrar mais
em detalhes, porque não estou a fim de elogiar um cara que, neste momento, mais odeio do que amo, o que, em outras palavras, significa admitir que, sim, apesar de tudo, ainda o amo. Como eu poderia deixar de amá-lo de uma hora para outra? Não consigo. Queria conseguir, mas não consigo. Até porque, ao contrário dele, não tenho duas caras...) Fomos a um bistrô que eu adoro, e lembro bem daquele nosso primeiro jantar lá mesmo: a gente já estava junto havia algumas semanas, mas só ia a bares e festas, geralmente aniversário de alguém, além da casa um do outro. No bistrozinho baratinho que a gente descobriu e ama até hoje, comendo quiche, e olhando no olho, me dei conta mais uma vez de como eu amava aquele homem. Aquele homem que eu conheci quando ele nem tinha barba direito, que adorava bater bola na rua...

Anteontem, mal a gente se sentou, pedimos um vinho tinto, que combinava com o friozinho da noite. Estava um céu estrelado lá fora e lembro de ter falado que adoraria se, na nossa noite de núpcias, o céu estivesse daquele jeito: limpo, cheio de estrelas, para a gente ficar
abraçado olhando lá fora. Aliás, eu ainda estava toda feliz com a ideia de passar a noite de núpcias em um hotel cinco estrelas, quando soube que o padrinho do Lipe preparou com a mulher a maior surpresa: eles reservaram uma suíte num hotel dos SONHOS. A ideia era passar a noite lá e viajar no dia seguinte, depois do almoço... Ai, meu Deus, eu tinha me esquecido dessa parte: a nossa lua de mel. Ela iria mesmo acontecer?

A gente brindou à nova vida e fez um trato: relaxar naquela noite, depois das semanas meio (ou bem) corridas que antecederam o casório. Porque nesse finalzinho muitos casais piram, principalmente a noiva. Foi até por causa disso que combinamos de não fazer festa de despedida de solteiro: a ideia inicial era só que cada um fizesse uma festinha com os amigos mais próximos, mas sabe como são os amigos - imprevisíveis. Vai que os dele arranjavam uma stripper, e as minhas amigas, um stripper! Melhor desencanar de despedidas antes de dar confusão, não é? Porque eu não sou uma louca barraqueira, mas, digamos, nunca fui a
menos ciumenta das criaturas. Sou superfiel, o que, aliás, não é nenhum esforço, até porque estou (estava?) com o cara dos meus sonhos. Já o Felipe... Pensava exatamente como eu em relação à fidelidade. Pelo menos, era o que eu achava. E não é que eu achava do nada: era o que ele dizia quando a gente conversava sobre isso. O duas-caras.

Como você pôde, Lipe? Sério, como você pôde?

[...]

*

EU ODEIO TE AMAR
AUTOR Liliane Prata
EDITORA Gutenberg
QUANTO R$ 31,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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