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09/12/2015 - 15h01

Em 'A Outra História da Lava-Jato', autor questiona destino de José Jorge

da Livraria da Folha

Depois de escrever "A Outra História do Mensalão", o jornalista Paulo Moreira Leite publica "A Outra História da Lava-Jato", também pela Geração Editorial.

Divulgação
Em 416 páginas e com muito criticismo, jornalista retrata as conexões nem sempre evidentes entre política e justiça
Em 416 páginas e com muito criticismo, jornalista retrata as conexões nem sempre evidentes entre política e justiça

Em 416 páginas e com o criticismo que marcou seus 40 anos de carreira, ele retrata as conexões nem sempre evidentes entre política e justiça, definindo a investigação sobre corrupção na Petrobrás como uma apuração necessária sobre uma empresa que, com os anos, virou motivo de orgulho para muitos brasileiros.

O livro apresenta uma introdução de 60 páginas e 45 artigos escritos no calor dos acontecimentos. Na contracapa, a edição traz uma curta recomendação do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal: "É ler para crer".

Em "A Outra História do Mensalão", o jornalista argumenta que os acusados já estavam condenados antes mesmo de o julgamento ter início. O livro apresenta 37 capítulos com os artigos escritos durante os quatro meses e 53 sessões no STF. Segundo o autor, o STF chegou a ignorar definições explícitas da Lei Maior, como o artigo que assegura ao Congresso a prerrogativa de definir o mandato de parlamentares eleitos.

Abaixo, confira um trecho do livro sobre José Jorge.

*

O destino de José Jorge, ministro do TCU, relator de cinco Denúncias contra diretores da Petrobras, é alvo de justas preocupações por parte da CPI.

Ele já foi convidado para dar depoimento, mas não disse nem sim nem não e, a qualquer momento, pode ser convocado pelos parlamentares para falar e, neste caso, será obrigado a comparecer. A requisição do senador Antônio Carlos Rodrigues, de São Paulo, está pronta para ser debatida e votada.

O TCU, não custa lembrar, não é um poder autônomo. É um órgão auxiliar do Legislativo, a quem presta assessoria jurídica. José Jorge chegou ao tribunal por indicação de Fernando Henrique Cardoso e, antes disso, foi ministro das Minas e Energia durante o reinado tucano. Na condição de ministro, presidiu o Conselho Administrativo da Petrobras e ocupava o posto quando ocorreram dois desastres na empresa.

O primeiro foi uma ruinosa troca de ações com uma subsidiária da Repsol, na Argentina. Prejuízo estimado: US$ 2,5 bilhões. O segundo foi o naufrágio da P‑36, plataforma oceânica responsável por 6% do petróleo do pais. Prejuízo estimado: US$ 1 bilhão por ano.

Referindo‑se aquele período em que José Jorge era o mandachuva na área de energia brasileira, a revista Veja fez uma observação curiosa, sem dar nomes, mas reveladora do que se passava na maior empresa brasileira: "Um urubu pousou no ombro da Petrobras e nada consegue espantá‑lo".

Você já fez as contas: estamos falando de um prejuízo que, em teoria foi produzido pela compra de Pasadena. Detalhe: Pasadena existe, refina petróleo e pode dar lucro. Se a economia norte‑americana mantiver o ritmo deste ano, o prejuízo anunciado na compra pode virar lucro. Quanto à plataforma naufragada, hoje serve de moradia para lagostas, peixes coloridos e outros animais estranhos que habitam o fundo do mar. Irreversível, a troca de ações fez a alegria de mão única de quem empurrou o mico para os cofres brasileiros.

Não se deve colocar o carro na frente dos bois e incriminar José Jorge por aquilo que ocorreu sob sua gestão. Todos são inocentes até que se prove o contrário, certo? Mas, com todos estes números no currículo, José Jorge conseguiu ser o relator de cinco "missões investigativas" realizadas para apurar a denúncia de Pasadena. Vamos ser simpáticos.

Imagine se, um dia, quando deixar o governo, o atual ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, vai parar no TCU. De repente, surge uma denúncia sobre a Repsol, ou sobre a plataforma, José Jorge fica na berlinda e Lobão vai para o ataque. Pode? Claro que não. O conflito de interesses seria óbvio demais para ser ignorado.

Estamos falando de um personagem múltiplo que, às vezes faz o papel de raposa e, em outras, de galinha e, quem sabe, daquele urubu sugerido pela Veja. Como imaginar que possa ter isenção para examinar, julgar e condenar?

E nesse jogo de sombras que a oposição procura manter o interesse sobre a denúncia contra a Petrobras. O Congresso fez duas CPIs para investigar o caso e nenhuma delas trouxe qualquer novidade substancial - apenas confirmou aquilo que era possível perceber depois dos primeiros depoimentos.

Essa é a utilidade do factóide da semana, em torno das reuniões dos dirigentes da Petrobras que antecederam seus depoimentos. Só o puro interesse político‑eleitoral pode tentar transformar uma banalidade em escândalo, distorção assinalada hoje pelo mestre Jânio de Freitas. Ele escreveu:

Não pesquisam nada, não estudam nada, apenas ciscam pedaços de publicações para fazer escândalo. Com tantos meses de falatório sobre Petrobras e seus dirigentes, o que saiu de seguro (e não é muito) a respeito foi só por denúncias à imprensa. Mas a Petrobras sangra, enquanto serve de pasto eleitoral.

Não custa recordar que a oposição só não participou da CPI do Senado porque não quis, preferindo fazer o teatrinho da denúncia. Mas foi até o STF garantir outra CPI, a segunda, para tratar do mesmo assunto, que nada apurou nem demonstrou de relevante. Quer convencer os brasileiros, agora, que a CPI nada descobriu porque os diretores combinaram as respostas. Não da para acreditar na pura ingenuidade de tantos políticos veteranos. Ou contavam com a disposição dos acusados para se autoincriminarem, ainda que estes sempre tenham afirmado que as denúncias eram falsas. Ou já sabiam de antemão que nada havia para ser descoberto e que o importante era manter o clima inquisitório - de grande utilidade na campanha eleitoral.

O ponto é este. Chamados a depor, os acusados compareceram a CPI e prestaram todos os depoimentos necessários. Se algum ponto relevante ficou para ser esclarecido, ninguém lembrou de perguntar.

Os depoentes receberam orientação de advogados e assessores, o que é natural em virtude de provocações, frases de efeito e acrobacias perante câmeras de TV; são o trunfo de cada parlamentar‑inquisidor, treinado em jogar para a plateia que tudo acompanha de casa. Se não fossem prestar este serviço, por que seriam contratados, muitas vezes a peso de ouro?

Invertendo o sinal: alguém acha que os deputados e senadores da oposição buscam informações num convento de freiras? Preparam perguntas e montam cenários lendo poemas barrocos? Seria este um mundo sem promessas obscuras, negócios prometidos, recompensas insinuadas?

A questão real, sabemos todos, é outra.

Mesmo reunindo o PSDB, tradicional adversário do PT, e dois ex‑ministros de Lula que agora frequentam outro palanque, a oposição não consegue ser uma ameaça ao governo. Suas intenções de voto, somadas, nunca estiveram tão baixas, lembra Mauricio Puls, no artigo "Sem rumo", publicado na Folha de S.Paulo no último sábado. Este é o combustível do dia. O resto é teatro.

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A OUTRA HISTÓRIA DA LAVA-JATO
AUTOR Paulo Moreira Leite
EDITORA Geração Editorial
QUANTO R$ 33,90 (preço promocional *)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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