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07/01/2016 - 11h24

Manifesto póstumo de Charb fala sobre liberdade de expressão; leia trecho

da Livraria da Folha

Divulgação
Charb reflete sobre sua preocupação em ver a luta antirracista ser substituída por uma luta pela promoção de uma religião
Charb reflete sobre a preocupação em ver a luta antirracista ser substituída por uma luta para promover uma religião

Em "Carta aos Escroques da Islamofobia que Fazem o Jogo dos Racistas", Charb - um dos principais nomes que fizeram a fama da revista "Charlie Hebdo" - reflete sobre sua preocupação em ver a luta antirracista ser substituída por uma luta pela proteção e a promoção de uma religião.

Para ele, o termo islamofobia sugere que é mais grave detestar o islamismo, ou seja, uma corrente de pensamento perfeitamente criticável, do que os muçulmanos. E, se criticar uma religião não é um crime, discriminar alguém por causa da sua afiliação religiosa, sem sombra de dúvidas, é algo condenável.

Cartunista e jornalista francês, Charb foi morto por jihadistas no atentado contra a redação da revista, que aconteceu no dia 7 de janeiro de 2015. O livro, portanto, é uma espécie de carta de despedida que desfaz a ambiguidade por trás do termo islamofobia e reforça a vocação provocadora do jornalismo exercido sem amarras ideológicas.

Abaixo, leia um trecho de "Carta aos Escroques da Islamofobia que Fazem o Jogo dos Racistas".

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O RACISMO POSTO FORA DE MODA PELA ISLAMOFOBIA

Não, realmente o termo "islamofobia" não é uma boa escolha para denominar o ódio que certos imbecis têm dos muçulmanos. E não é só uma escolha ruim: mas também perigosa.

Se encararmos sob o ponto de vista puramente etimológico, islamofobia deveria designar "o medo do islamismo". Mas os inventores, promotores e usuários desse termo empregam-no para denunciar o ódio contra os muçulmanos. É curioso que palavras como "muçulmanofobia" ou, mais amplamente, "racismo" tenham sido preteridas em relação a "islamofobia", não? Etimologicamente, seriam até mais corretas. Então, por qual motivo o termo "islamofobia" se impôs?

Por ignorância, por negligência, por equívoco para alguns, mas também porque muitos dos que militam contra a islamofobia não o fazem, na realidade, para defender os muçulmanos enquanto indivíduos, mas para defender a religião do profeta Maomé.

O racismo está presente em todos os países, desde a invenção do bode expiatório. Provavelmente, sempre existirão racistas. A solução não é investigar o cérebro de todos os cidadãos em busca da menor centelha de racismo, mas impedir que os racistas formulem seus pensamentos nauseabundos, que reivindiquem o "direito" de ser racistas, de expressar seu ódio.

Na França, a palavra racista foi amplamente usada por Sarkozy em seu debate sobre a identidade nacional. Quando a mais alta autoridade do Estado se dirige aos babacas e aos estúpidos dizendo "relaxem, caras", o que vocês acham que os babacas e os estúpidos fazem? Eles começam a dizer publicamente aquilo que, até então, se limitavam a arrotar no final das refeições em família regadas a muito álcool. A palavra racista, que as associações, os políticos e os intelectuais tinham conseguido confinar em um espaço compreendido entre a boca do xenófobo e a porta de sua cozinha, saiu à rua, irrigou a mídia, entupiu um pouco mais os esgotos das redes sociais.

Sim, estamos assistindo a uma explosão de manifestações de racismo. Mas o termo "racismo" só é empregado timidamente, e está prestes a ser substituído por "islamofobia".

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Quando uma mulher de véu é insultada e violentada porque está usando véu à moda muçulmana (o inapreensível agressor é geralmente descrito como um skinhead), o anti-islamófobo apoia a vítima por sua condição de representante do islamismo, e não por se tratar de uma cidadã discriminada por um fascista em razão de suas crenças. Para seu defensor, o mais grave é que tenha sido atacada enquanto mulher muçulmana, e não enquanto cidadã que tem o direito de se vestir como quiser. A verdadeira vítima é o islamismo. Assim, Deus é colocado bem acima da fiel, mas, ferindo-a, foi Deus quem se buscou atingir. Para o combatente anti-islamófobo, é isso que é realmente intolerável.

Eis por que os anti-islamófobos dos quais se falará aqui não se proclamaram antimuçulmanófobos. Eles consideram os muçulmanos a quem defendem apenas como instrumentos de Deus.

A tal ponto que poderíamos ter a impressão de que, hoje, os estrangeiros ou os cidadãos de origem estrangeira só são agredidos na França porque são muçulmanos... Em breve as vítimas de racismo que são de origem indiana, asiática, cigana, negra africana, antilhana etc. precisarão arranjar uma religião, se quiserem ser defendidas.

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Os militantes comunitaristas que procuram impor às autoridades judiciárias e políticas a noção de "islamofobia" não têm outro objetivo senão o de impelir que as vítimas de racismo se afirmem muçulmanas. Que racistas sejam ainda por cima islamófobos, desculpem, mas é quase anedótico. São antes de tudo racistas, e, através do islamismo, na verdade visam mesmo ao estrangeiro ou à pessoa de origem estrangeira. Quando se passa a considerar no racista somente a islamofobia, minimiza-se o perigo racista. O militante antirracista de ontem está se transformando em varejista hiperespecializado, dentro de uma forma minoritária de discriminação. Lutar contra o racismo é lutar contra todos os racismos; lutar contra a islamofobia é lutar contra o quê? Contra a crítica a uma religião, ou contra a aversão aos seus praticantes, porque são de origem estrangeira? Enquanto debatemos para saber se afirmar que o Corão é um livro insignificante constitui uma forma de racismo ou não, os racistas rolam de rir. Se amanhã os muçulmanos da França se converterem ao catolicismo ou renunciarem a qualquer religião, isso não mudará nada no discurso dos racistas: esses estrangeiros ou franceses de origem estrangeira serão sempre apontados como responsáveis por todos os males.

Vejamos, Mouloud e Gérard são muçulmanos. Mouloud é de origem magrebina e vem de uma família muçulmana. Gérard é de origem europeia e vem de uma família católica. Gérard se converteu ao islamismo. Ambos são candidatos à locação de um apartamento. Qual dos dois muçulmanos, ambos de renda igual, tem mais chance de conseguir o apartamento? O que tem cara de árabe ou o que tem cara de francês? Não é ao muçulmano que a locação será recusada, é ao árabe. E o fato de o árabe não apresentar nenhum dos sinais exteriores de pertencimento à religião muçulmana não mudará nada. O que fará o militante anti-islamofobia? Ele vai berrar que houve discriminação religiosa, em vez de se insurgir contra o racismo.

Lembremos aqui o que diz o Código Penal francês:

Constitui discriminação toda distinção feita entre pessoas físicas em razão de origem, sexo, situação familiar, gravidez, aparência física, sobrenome, estado de saúde, deficiência, características genéticas, costumes, orientação ou identidade sexual, idade, opiniões políticas, atividades sindicais, pertencimento ou não pertencimento, verdadeiro ou suposto, a uma etnia, uma nação, uma raça ou uma determinada religião.

A discriminação social, da qual se fala muito menos do que da religiosa, por ser mais sorrateira e discreta em sua expressão, é, no entanto, predominante na França. Os patrões selecionam os futuros empregados menos em função do pertencimento religioso destes, suposto ou real, do que em função, por exemplo, do local de residência. Entre um Mouloud que mora em Neuilly-sur-Seine e um Mouloud que vive em Argenteuil, qual dos dois, de igual competência, tem mais chance de conseguir o emprego? Mas, dessa discriminação, quem fala? Discriminam-se amplamente as pessoas em razão de sua origem social, mas - tal como entre os pobres que ninguém quer ver em sua empresa, em seu bairro, em seu prédio - há uma grande proporção de pessoas de origem estrangeira e, entre elas, uma significativa porção de pessoas de origem muçulmana: o militante do islamismo dirá que o problema é a islamofobia.

Vejamos agora o exemplo de Mouloud e de Abdelkader. Ambos são muçulmanos, ambos de origem estrangeira, ambos mais morenos do que Gérard. Mouloud não tem um tostão, Abdelkader é milionário. A qual dos dois será recusada a locação de um apartamento? Ao muçulmano Mouloud ou ao milionário Abdelkader?

[...]

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CARTA AOS ESCROQUES DA ISLAMOFOBIA QUE FAZEM O JOGO DOS RACISTAS
AUTOR Charb
TRADUTOR Sara Spain
EDITORA Casa da Palavra
QUANTO R$ 28,90 (preço promocional *)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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