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29/09/2016 - 16h50

Livro explica como funciona algoritmo da Netflix

da Livraria da Folha

Divulgação
Com linguagem clara e leve economista explica conceitos de estatística para torná-la acessível
Economista explica conceitos de estatística para torná-la acessível até para quem não gosta muito de matemática

Como a Netflix sabe quais filmes eu gosto? Explicando o conceito de correlação o economista Charles Wheelan responde essa pergunta de maneira simples no livro "Estatística".

Para quem torce o nariz só de pensar em números o autor avisa na introdução da obra que nunca teve uma boa relação com a matemática e que não fica impressionado com fórmulas rebuscadas sem aplicação no mundo real.

O objetivo do livro, ele diz adiante, é "tornar mais intuitivos e acessíveis os conceitos estatísticos mais importantes". Seu fascínio pelo tema é evidente. Além de professor de políticas públicas e economia ele também foi correspondente da revista "The Economist" e colaborou para os jornais "Chicago Tribune", "The New York Times" e "The Wall Street Journal".

Estatísticas estão em toda parte: nos noticiários, nas pesquisas eleitorais e científicas, no mundo dos negócios. Wheelan torna isso fácil de ser compreendido sem utilizar tantos detalhes técnicos como gráficos e equações.

Wheelan é autor de "Economia Nua e Crua", também publicado pela editora Zahar.

Leia a seguir um trecho do livro.

*

Introdução

Por que eu detestava cálculo, mas adoro estatística

Nunca tive uma boa relação com a matemática. Não gosto dos números pelos números em si nem me impressiono com fórmulas rebuscadas que não têm aplicação no mundo real. No ensino médio eu desgostava particularmente de cálculo pela simples razão de que ninguém jamais se deu ao trabalho de me dizer por que eu precisava aprender aquilo. Qual é a área sob uma parábola? Quem se importa?

Um dos momentos decisivos da minha vida ocorreu durante meu último ano no colégio, no fim do primeiro semestre do curso de Advanced Placement em cálculo. Embora estivesse concentrado para o exame final, devo admitir que estava menos preparado do que deveria. (Eu havia sido aceito na minha primeira opção universitária algumas semanas antes, o que drenara a já pouca motivação que eu tinha para o curso.) Quando comecei a fazer o exame, as questões me pareceram completamente estranhas. Não quero dizer que estava tendo dificuldades em resolvê-las. Quero dizer que eu nem mesmo reconhecia o que estava sendo pedido. Para mim, não era nenhuma novidade estar despreparado para as provas, mas, parafraseando Donald Rumsfeld, eu geralmente sabia o que não sabia. Aquele exame parecia ainda mais incompreensível que o normal. Folheei então as páginas por alguns momentos e acabei de certa maneira me rendendo. Fui até a frente da classe, onde a minha professora de cálculo, que chamarei de Carol Smith, estava supervisionando o exame. "Sra. Smith", eu disse, "não reconheço grande parte do que está sendo pedido no teste."

Basta dizer que a sra. Smith não gostava de mim muito mais do que eu gostava dela. Sim, posso admitir agora que às vezes eu usava meus limitados poderes de presidente da associação de alunos para marcar assembleias de toda a escola justamente para que a aula da sra. Smith fosse cancelada. Sim, meus amigos e eu chegamos a mandar flores de "um admirador secreto" para a sra. Smith durante uma aula só para podermos cair na risada no fundo da sala enquanto ela olhava ao redor envergonhada. E, sim, eu parei de fazer qualquer dever de casa assim que entrei na faculdade.

Logo, quando fui até a sra. Smith no meio do exame e disse que a matéria não me parecia familiar, ela foi, por assim dizer, pouco solidária. "Charles", disse em voz alta, ostensivamente para mim, mas dirigindo-se às filas de carteiras para se certificar de que toda a classe ouvisse, "se você tivesse estudado, a matéria lhe pareceria mais familiar." Era um ponto inquestionável.

Então bati em retirada de volta para minha carteira. Após alguns minutos, Brian Arbetter, um aluno de cálculo muito mais comprometido que eu, foi até a frente da classe e cochichou algo para a sra. Smith. Ela cochichou de volta e então aconteceu uma coisa verdadeiramente extraordinária. "Classe, preciso da atenção de vocês", a sra. Smith anunciou. "Parece que eu lhes dei o exame do segundo semestre por engano." Já estávamos bem adiantados no horário do teste, de modo que o exame inteiro precisou ser cancelado e remarcado.

Não posso descrever a minha euforia. Parti para a vida, casei-me com uma mulher encantadora, tivemos três filhos saudáveis. Publiquei livros e visitei lugares como o Taj Mahal e o Angkor Wat. Ainda assim, o dia em que a minha professora de cálculo levou o troco é um dos cinco momentos mais formidáveis da minha vida. (O fato de eu quase ter sido reprovado no exame final substitutivo não diminuiu em praticamente nada essa maravilhosa experiência.)

O incidente do exame de cálculo conta muito do que você precisa saber sobre a minha relação com a matemática - mas não tudo. Curiosamente, no ensino médio eu adorava física, embora a física se apoie fortemente nesse mesmo cálculo que eu me recusava a fazer na aula da sra. Smith. Por quê? Porque a física tem um propósito claro. Lembro-me muito bem do meu professor de física no colégio mostrando-nos, durante o campeonato mundial de beisebol, como podíamos usar a fórmula básica da aceleração para estimar a que distância fora rebatida uma bola de home run. Isso é bacana - e a mesma fórmula tem muitas outras aplicações socialmente significativas.

Na faculdade, eu me interessei especialmente pela probabilidade, mais uma vez porque ela me permitia compreender fascinantes situações da vida real. Hoje reconheço que não era a matemática que me incomodava nas aulas de cálculo, e sim ninguém nunca ter me explicado seu sentido. Se você não é fascinado pela elegância da fórmula em si - o que, sem dúvida, eu não sou -, então o cálculo não passa de fórmulas mecânicas e enfadonhas, pelo menos do jeito que me foi ensinado.

Isto me leva para a estatística (que, para os propósitos deste livro, inclui a probabilidade). Eu adoro estatística. Ela pode ser usada para explicar tudo, desde testes de DNA até a idiotice de jogar na loteria. A estatística pode nos ajudar a descobrir os fatores associados a doenças cardíacas e câncer, bem como identificar fraudes em testes padronizados. A estatística pode até nos ajudar a ganhar jogos de programas de TV. Na minha infância, havia um programa famoso chamado Let's Make a Deal, com seu igualmente famoso apresentador, Monty Hall. Todo dia no fim do programa, um jogador bem-sucedido ficava junto com Monty diante de três portas: porta n.1, porta n.2 e porta n.3. Monty Hall explicava ao jogador que havia um prêmio altamente desejável atrás de uma das portas - algo como um carro novo - e uma cabra atrás das outras duas. A ideia era simples e direta: o jogador escolhia uma das portas e ficava com o conteúdo atrás dessa porta.

Quando cada jogador ou jogadora ficava diante das portas com Monty Hall, tinha uma chance em três de escolher a porta que seria aberta para revelar o valioso prêmio. Mas Let's Make a Deal tinha um truque, que tem deleitado os estatísticos desde então (e deixado todo mundo estarrecido). Depois que o jogador escolhia uma porta, Monty Hall abria uma das duas restantes, sempre revelando uma cabra. Digamos que o jogador tivesse escolhido a porta n.1. Monty abria então a porta n.3; ali estaria parada a cabra em pleno palco. Duas portas ainda estavam fechadas, as portas n.1 e 2. Se o prêmio valioso estivesse atrás da n.1, o competidor ganharia; se estivesse atrás da n.2, perderia. Mas é aí que as coisas ficavam interessantes: Monty virava-se para o jogador e perguntava se ele gostaria de mudar de ideia e trocar de porta (da n.1 para a n.2, neste caso). Lembre-se, ambas as portas ainda estavam fechadas, e a única informação nova que o competidor tinha recebido era que uma cabra havia aparecido atrás de uma das portas que ele não tinha escolhido.

Deveria ele trocar?

A resposta é sim. Por quê? Leia o Capítulo 5½.

O paradoxo da estatística é que ela está em toda parte - desde médias de rebatidas até pesquisas presidenciais -, embora a disciplina em si seja considerada desinteressante e inacessível. Muitos livros e aulas de estatística são excessivamente carregados de matemática e jargão. Acredite, os detalhes técnicos são cruciais (e interessantes), mas é apenas grego se você não entender intuitivamente. E você pode nem dar importância para a intuição se não estiver convencido de que existe um motivo para aprendê-la. Cada capítulo deste livro promete responder à pergunta básica que fiz (em vão) para a minha professora de cálculo no colégio: qual é o objetivo disto?

Este livro é sobre a intuição. É breve em matemática, equações e gráficos. Quando eles forem usados, prometo que terão um propósito claro e elucidativo. Por outro lado, o livro é pródigo em exemplos para convencer você de que existem excelentes motivos para aprender essa matéria. A estatística pode ser realmente interessante, e a maior parte dela nem é tão difícil.

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ESTATÍSTICA
AUTOR Charles Wheelan
EDITORA Zahar
QUANTO R$ 65,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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