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16/02/2017 - 11h20

Trótski foi assassinado a golpe de picareta; leia trecho de biografia

da Livraria da Folha

No dia 21 de agosto de 1940, no México, Leon Trótski foi assassinado a golpe de picareta por Ramón Mercader. Lev Davidovich Bronstein nasceu em família judaica no dia 7 de novembro de 1879, na Ucrânia. Adotou o nome Leon Trótski aos 18 anos, quando foi preso por conspirar contra o czar.

Amigo de Lênin (1870-1924), foi exilado da Rússia diversas vezes. No final de 1917, ambos lideraram os bolcheviques e derrubaram o governo. Era o início da República Soviética da Rússia.

Divulgação
Biografia tem como ponto de partida o exílio de Trótski no México, entre 1937 e 1940, quando foi assassinado.
Biografia tem como ponto de partida o exílio de Trótski no México, entre 1937 e 1940, quando foi assassinado.

Nomeado para o cargo de comissário do povo para a guerra, conteve revoltas e fez inimigos políticos. Neste período, até 1923, apresentou divergências ideológicas com Josef Stálin (1879-1953).

Após a morte de Lênin, no dia 21 de janeiro de 1924, Stálin assumiu o poder. Silenciado, Trótski viu-se obrigado a deixar a União Soviética, chegando ao México em 1937. Apesar da suspeita, a ligação de Mercader com o ditador soviético nunca foi esclarecida.

Com base na correspondência privada e nos diários de Trótski, bem como nos testemunhos de seus guarda-costas e secretários, Bertrand M. Patenaude apresenta a trágica biografia de Leon Trótski, tendo como ponto de partida seu exílio no México, entre 1937 e 1940, quando foi assassinado.

No livro, o autor entrelaça a história dos últimos anos de vida de Trótski com flashbacks de episódios cruciais de sua carreira como jovem marxista, herói revolucionário, chefe do Exército Vermelho, líder bolchevique, proscrito da URSS de Stálin e finalmente herege do Kremlin, marcado para morrer pela polícia secreta do regime.

Bertrand M. Patenaude é professor na Universidade Stanford e pesquisador na Hoover Institution Library and Archives. É autor de "The Big Show in Bololand", que ganhou o Prêmio Marshall Shulman de 2003. Vive em Menlo Park, na Califórnia, nos Estados Unidos.

Abaixo, leia um trecho de "Trótski".

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Prólogo
Escapada milagrosa

Nas primeiras horas da manhã de 24 de maio de 1940, Leon Trótski dormia profundamente em sua casa de campo em Coyoacán, cidadezinha nos arredores ao sul da Cidade do México. A casa era fortemente vigiada. Do lado de fora, cinco policiais mexicanos ocupavam uma casita de tijolo diante dos elevados muros da propriedade. Dentro ficavam os guarda-costas particulares de Trótski, cinco ao todo, incluindo quatro jovens norte-americanos. Um deles, um nova-iorquino de 25 anos chamado Robert Sheldon Harte, começara seu turno aquela madrugada à uma hora, postado do lado de dentro do portão gradeado que dava para a garagem, a única entrada para a casa. Seus companheiros dormiam numa série de anexos junto a um dos muros internos do pátio aproximadamente retangular.

Trótski passara a maior parte do dia anterior ditando um manifesto sobre a guerra na Europa, no qual continuara a trabalhar até tarde da noite. Sua principal obra em andamento, uma biografia de Josef Stálin encomendada pela editora de Nova York Harper & Brothers, estava com um ano e meio de atraso. A guerra era agora uma distração enorme, em parte por causa dos debates extremamente desagregadores que estimulara entre seus seguidores nos Estados Unidos, país que abrigava o mais contestador dos grupos trotskistas dissidentes espalhados pelo mundo.

Antes o líder da União Soviética de maior fama internacional, Trótski agora ganhava a vida como escritor freelance. Estilista literário conhecido pelo humor sardônico, sua obra mais aclamada no Ocidente era uma história panorâmica da Revolução Russa, publicada no início dos anos 1930, depois que fora exilado por Stálin. Ele só concordara em escrever a biografia de seu arqui-inimigo porque precisava do dinheiro para se sustentar e pagar por sua segurança no México. O generoso adiantamento do editor americano esgotara-se havia muito, mas o livro estava longe de ficar pronto e se tornara uma cruz em suas costas. Várias vezes Trótski comentou com sua mulher Natália que passara a sentir repulsa pela tarefa e ansiava por voltar a escrever sua biografia de Lênin.

Os editores de Trótski em Nova York também não estavam especialmente satisfeitos com os capítulos concluídos. Havia sido um erro esperar que ele escrevesse uma biografia objetiva do homem que o destruíra politicamente, exterminara seus seguidores e sua família e transformara sua imagem na União Soviética de um destemido herói da Revolução Bolchevique em seu Judas Iscariotes. O nome de Trótski era prontamente invocado para explicar qualquer acidente ou fracasso na URSS, de um descarrilamento de trem à explosão de uma fábrica ou uma cota de produção não alcançada. Sua aparência teatral - o olhar penetrante ampliado pelas lentes grossas de seus óculos redondos, o cabelo eriçado e rebelde, o cavanhaque espetado - e sua propensão a fazer poses dramáticas eram uma dádiva para os caricaturistas soviéticos. Ele era retratado como diferentes bichos de fazenda, inclusive um porco marcado com uma suástica comendo no cocho do fascismo, e assim descrito na legenda de uma charge que explorava outro tema predileto: "O pequeno Napoleão da Gestapo."

Não é de admirar, portanto, que a biografia de Stálin tivesse se tornado um trabalho estafante e que a Segunda Guerra Mundial tivesse proporcionado a Trótski uma boa desculpa para procrastinar. A guerra também lhe deu a oportunidade de ganhar uma renda muito necessária escrevendo artigos para revistas americanas sobre as últimas manobras diplomáticas e militares. O atrativo de Trótski como analista de assuntos internacionais aumentou vertiginosamente em agosto de 1939, quando o mundo recebeu com espanto o anúncio do pacto nazi-soviético de não agressão, uma reviravolta que ele havia previsto. O que o inescrutável ditador georgiano, com seu cachimbo no Kremlin, tinha em mente quando assinou um tratado de amizade com seu oposto ideológico, Adolf Hitler? Trótski foi solicitado a avaliar o pacto e depois suas sangrentas consequências, quando a Wehrmacht e o Exército Vermelho engoliram a Polônia enquanto o Kremlin assegurava seu domínio sobre a Letônia, a Lituânia e a Estônia e em seguida invadia a Finlândia. Hitler estava preocupado com a França e o Reino Unido, mas Trótski previu com segurança que seria apenas uma questão de tempo até que o Führer voltasse seus exércitos para o leste e invadisse a União Soviética.

O pacto de Stálin com Hitler forçou os cartunistas soviéticos a apagarem a suástica e os coturnos de sua propaganda antitrotskista. Partidos comunistas leais a Moscou tiveram de seguir o exemplo, entre eles os comunistas mexicanos, incansáveis em seus esforços para comprometer o asilo de Trótski, retratando-o como um intrometido na política mexicana. Eles vinham batendo nessa tecla desde sua chegada ao México em janeiro de 1937, mas a campanha que lançaram contra Trótski no inverno de 1939-40 foi mais violenta e prolongada que qualquer das anteriores. Seu slogan era um categórico "Morte a Trótski!". Quando, no Dia do Trabalho, manifestantes clamavam em uníssono pela expulsão do traidor, Trótski já havia convocado uma reunião com seus guarda-costas para adverti-los de que seus inimigos estavam criando a atmosfera para um ataque armado à casa.

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TRÓTSKI
AUTOR Bertrand M. Patenaude
EDITORA Zahar
QUANTO R$ 59,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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