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27/04/2017 - 11h21

Autora explica como fracassar é fundamental para o sucesso

da Livraria da Folha

Em "O Poder do Fracasso" Sarah Lewis utiliza histórias marcantes - como a luta de Martin Luther King Jr. contra um problema de fala e as reflexões de Al Gore sobre a perda das eleições presidenciais - para explicar a importância das tentativas frustradas e o poder motivador que a "quase vitória" tem sobre a determinação.

Utilizando exemplos de diversas áreas, como esportes, ciências, artes e empreendedorismo, a autora também traça o perfil de pessoas que conseguiram obter sucesso através de caminhos tortuosos e esclarece conceitos como o valor da diversão, a escolha entre desistir e persistir e a importância que deve ser dada às críticas.

Leia abaixo um trecho do livro.

*

O paradoxo do arqueiro

As mulheres da equipe de tiro com arco da Universidade de Colúmbia saltaram de uma van numa tarde fria de primavera, descontraídas. Uma segurava uma casquinha de sorvete na mão direita e um punhado de flechas com penas amarelas na esquerda; outra usava a peiteira, uma espécie de malha por cima da blusa, para proteger os seios do atrito com o arco. O Complexo de Atletismo de Baker, o conjunto de instalações esportivas da universidade, na ponta norte de Manhattan, parecia estar recebendo uma falange de guerreiras despreocupadas.

O encarregado da manutenção da propriedade nem sabia que elas chegariam. Talvez fosse novo no lugar, porque perguntei onde a equipe praticaria e ele me olhou com ar interrogativo.

Divulgação
Autora explica a importância das tentativas frustradas e o poder motivador da "quase vitória"
Autora explica a importância das tentativas frustradas e o poder motivador da "quase vitória"

Parecia não acreditar que a universidade realmente tivesse uma equipe esportiva de tiro com arco. Era até compreensível. Eu chegara cedo e os alvos ainda não estavam posicionados. Lançar flechas a quase 250 quilômetros por hora na direção de alvos a cerca de 70 metros de distância exige medidas de segurança rigorosas, razão pela qual a equipe de tiro com arco não se exercita perto de nenhuma outra. O treino desse esporte de alta precisão se dá longe dos olhos do público.

O técnico Derek Davis chegou com as arqueiras, dirigindo uma van cinza, e me cumprimentou com o braço para fora da janela do motorista. Seus dreadlocks grisalhos pendiam abaixo dos ombros, cobertos por uma bandana azul estampada que combinava com o casaco de arqueiro da universidade. Fiquei impressionada ao ver como era um tipo compatível com o clã: sociável e relaxado, mas atento. Pelo telefone, alguns dias antes, ele havia me dito que, de início, se dedicara ao esporte como passatempo, por insistência da esposa, no final da década de 1980 ("mais seguro que bilhar e não envolve álcool"). Desde 2005, liderava a equipe titular e outros times do clube universitário, em parte como especialista em biomecânica, em parte como iogue - na essência, um sábio universitário talhado para a antiga prática de guerra hoje considerada esporte.

As jovens sorriram, avaliaram-me de relance e desfilaram à minha frente, enquanto eu as recepcionava de pé junto ao alambrado do local de treinamento. A do sorvete jogou fora a casquinha, que já pingava, e se juntou às outras, que retiravam os apetrechos do porta-malas da van. Falavam não com palavras, mas com números, os escores ou pontuações ideais e os graus em que deveriam se posicionar para acertar os alvos.

Elas se preparavam para o próximo campeonato nacional. (Não há homens na equipe titular, apenas nos times do clube universitário.) Fiquei olhando enquanto as arqueiras cuidadosamente armavam arcos compostos ou recurvos - como os usados nos Jogos Olímpicos, cujas pontas se inclinam, afastando-se do corpo -, puxavam a corda e disparavam a flecha, que fazia uma curva e desaparecia no ar até atingir o alvo redondo. Davis não ficava junto à equipe, preferindo manter-se à distância, na retaguarda, talvez avaliando quem poderia precisar de ajuda. Mais ao longe, espalhadas pelas laterais do campo, viam-se caixas de ferramentas, com carretéis, alicates, chaves inglesas, martelos e pregos.

Duas arqueiras se alinharam para lançar. Só uma queria saber os escores. Davis observava com o binóculo a extensão de quase duas quadras de tênis entre elas e os alvos. Uma arqueira disparou a primeira flecha. Só ouvi o som de um chicote estalando no ar.

"Sete, em seis horas."

"Nove, em duas horas."

As flechas ainda não estavam agrupadas.

"Dez, alto."

"Dez, muito alto."

Em seguida ao disparo seguinte não se ouviu nenhum som.

"Não. Nem olha!", lamentou-se a arqueira, relaxando e largando o arco. "Acho que nem atingi o alvo."

"É", confirmou Davis. "Nem vi onde a flecha caiu."

Atrás delas, eu tentava me imaginar naquela situação, mas não tinha ideia de como conseguiam atingir o alvo. Cada arqueira calculava a trajetória da flecha - a linha de ascensão, a queda e os deslocamentos laterais durante o percurso -, algo que apenas elas podiam prever no instante exato do disparo. Antes mesmo de considerar a velocidade do vento, é preciso sempre levar em conta algum grau de desvio que ocorre quando a flecha deixa o arco, com certa inclinação em relação ao alvo, para que as penas não toquem a corda. É como se confecciona a flecha. O arqueiro destro mira ligeiramente para a esquerda, a fim de acertar na mosca. Para isso, é preciso se concentrar no alvo em si e no arqueamento provável do voo da flecha, intuindo as muitas variáveis capazes de alterar a trajetória. Os arqueiros mais certeiros chamam esse processo de "foco duplo de visão bipartida".

O tiro com arco também demanda uma reinvenção constante, pois o praticante se vê como alguém que marca dez, quando na verdade faz apenas nove; como um arqueiro que somente atinge sete, mas pode chegar a oito. Esse é um esporte que gera feedback instantâneo e exato. Classifica os atletas pela maneira como se comparam consigo mesmos segundos antes. Os arqueiros lidam constantemente com a "quase vitória", quando não atingem exatamente a mosca naquela hora, mas segundos depois, demonstrando que são capazes.

Se o arqueiro errar a mira em menos de meio grau, não acertará o alvo. "Basta mexer a mão um milímetro para mudar tudo, principalmente quando se está a distâncias maiores", disse Sarah Chai, formada recentemente pela Colúmbia e ex-cocapitã da equipe titular de tiro com arco da universidade. À distância-padrão de 75 jardas do alvo, o anel 10, a mosca, parece tão pequeno quanto a cabeça de um palito de fósforo a uns 70 centímetros do olho. Acertar esse oitavo anel é como perfurar um círculo do tamanho do orifício de uma rosquinha a quase 70 metros de distância, sustentando um peso de mais ou menos 22 quilos em cada disparo.

Não é fácil. Depois de bem mais de três horas de prática, duas das mulheres estavam deitadas de costas, atrás da linha de tiro, olhando para o céu. Três horas por dia de concentração total, tentando encontrar o que T. S. Elliot chamava de "ponto morto do mundo em rotação", exige uma intensidade singular e constante. Viver num contexto em que a diferença desprezível de alguns graus acarreta uma alteração substancial no resultado é o que faz de um arqueiro um arqueiro. Significa desenvolver o tipo de precisão que encontramos no mundo natural - como a dos favos das colmeias ou a dos hexágonos perfeitos da Calçada dos Gigantes, na Irlanda. Quando começam a ficar boas, atingindo escores quase sempre acima de 1.350 (do total de 1.440), as arqueiras aprimoram o treinamento, atirando menos, aumentando a concentração e cuidando da respiração, da meditação e da visualização. Uma delas, embora sobrecarregada de provas, ainda assim estava treinando, porque o foco com que se dedica à arquearia a tranquiliza em relação a tudo o mais. "Quando fiz intercâmbio, quase enlouqueci por não poder praticar", disse. Sem aquela rotina, sentia-se irritada o tempo todo.

Fiquei no campo de treinamento durante três horas. Apesar de toda a vibração de descobrir um novo esporte, foi um pouco monótono, devo admitir. Eu não tinha levado binóculo, e é difícil se concentrar durante três horas no que está à sua frente mas não é percebido com facilidade. Além de tudo, fazia frio. Persisti, porém, para compreender o que eu começava a perceber e com que talvez nunca voltasse a deparar: o pânico do amarelo, ou pânico do alvo - o que acontece quando o arqueiro chega ao ponto de realizar ou superar as próprias expectativas e passa a querer o ouro sem pensar no processo. Em casos extremos, isso significa que num dia acerta na mosca; no dia seguinte, lança a flecha no estacionamento. Não está claro se é como uma aflição temporária, uma espécie de ansiedade com o desempenho ou alguma forma de distonia. O que se sabe é que a única maneira de se recuperar plenamente é recomeçar do início, reaprender os movimentos e se concentrar no essencial - respiração, posição, movimentação, liberação e postura. Nenhuma das arqueiras que vi naquele dia parecia sofrer de pânico do alvo. No entanto, poucas o admitem quando são acometidas desse mal.

Mesmo assim, algo na arquearia me arrebatou o bastante para me manter atenta. A explicação só me ocorreu ao deixar o local, enquanto eu caminhava pela Broadway. Passei por um marco histórico nacional, uma casa de fazenda colonial, em estilo holandês, de propriedade da família Dyckman. Antigamente ela se situava em meio a uma vasta área de terras que cobria toda a extensão de Manhattan, do rio Hudson ao rio East, mas hoje está aninhada na avenida congestionada, oculta por trás de árvores e folhagens. A incongruência de uma casa de fazenda em plena Broadway me deixou curiosa e então resolvi visitar o local. Aquela foi de fato minha segunda aventura naquele dia. Ver uma equipe de arco e flecha nos tempos modernos foi como admirar uma antiga relíquia, um vestígio de práticas remotas que raramente vemos em ação - não uma competição, onde sempre se destaca um vencedor, mas a busca constante da maestria.
A maestria que presenciei nos campos de tiro com arco não era glamorosa. Percebia-se certa nobreza em tudo aquilo, mas nenhum indício de bajulação. É raro ver a obstinação com esse nível de exatidão, ver o que é preciso para alinhar o corpo com perfeição durante três horas no esforço para compensar a velocidade do vento e acertar o alvo - a busca da excelência na obscuridade. Era uma sucessão infindável de dias na tentativa de conquistar o ouro a que poucos farão jus algum dia. Talvez eu o tenha percebido com mais intensidade do que seria possível em esportes mais populares, como basquete ou futebol, que oferecem mais chances de glória e fama. Passar tantas horas com arco e flecha é uma estranha combinação de marginalidade e seriedade poucas vezes vista.

Havia, porém, outra razão. Quando cada flecha partia rumo ao alvo, as arqueiras se viam entre o sucesso (atingir o 10) e a maestria (saber que o resultado isolado não significava nada se não fosse replicável repetidas vezes). Se eu tivesse que arriscar um palpite, diria que essa tensão entre a busca permanente da maestria e a natureza efêmera do sucesso é, antes de tudo, parte do que gera o pânico do alvo.

Maestria, palavra que não usamos com frequência, não equivale a perfeccionismo - propósito sobre-humano motivado pela preocupação com a maneira como somos vistos pelos outros. Maestria tampouco é o mesmo que sucesso - vitória eventual, pontual. Maestria não é somente a realização de um objetivo, mas, sim, uma linha ascendente, de busca contínua. Exige persistência e resistência.

[...]

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O PODER DO FRACASSO
AUTOR Sarah Lewis
EDITORA Sextante
QUANTO R$ 43,23 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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