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20/04/2017 - 09h01

Leia trecho de 'A Montanha Mágica', clássico de Thomas Mann

da Livraria da Folha

Divulgação
Em capa dura, edição tem tradução revista e posfácio inédito de Paulo Astor Soethe, renomado especialista na obra do autor
Em capa dura, edição tem tradução revista e posfácio de Paulo Astor Soethe, renomado especialista na obra do autor

Publicado originalmente em 1924, "A Montanha Mágica" ganha uma nova edição pela Companhia das Letras.

Um dos clássicos da literatura do século 20 e considerado como a grande obra-prima de Thomas Mann, o livro tem tradução de Herbert Caro e posfácio inédito de Paulo Astor Soethe, renomado especialista na obra do autor.

No livro, Mann renova a tradição do Bildungsroman - o romance de formação - a partir da trajetória do jovem engenheiro Hans Castorp.

Durante uma inesperada estadia em um sanatório para tuberculosos, Hans relaciona-se com uma série de personagens enfermos que encarnam os conflitos espirituais e ideológicos que antecedem a Primeira Guerra Mundial.

Nascido em Lübeck, na Alemanha, Thomas Mann foi premiado com o Nobel de literatura em 1929. Quando Hitler tomou o poder, o escritor partiu para o exílio, nos Estados Unidos. Retornou à Europa em 1952 e viveu na Suíça até sua morte, em 1955.

Escreveu também os clássicos "Doutor Fausto" e "A Morte em Veneza".

Leia abaixo um trecho de "A Montanha Mágica".

*

Propósito

Queremos narrar a história de Hans Castorp, não por ele (a quem o leitor em breve conhecerá como um jovem singelo, ainda que simpático), mas pela história em si, que nos parece em alto grau digna de ser narrada (e cabe dizer a favor de Hans Castorp ser esta a história dele, já que não é a qualquer um que cada história acontece): esta história já se passou há muito tempo, está recoberta, por assim dizer, pela pátina do tempo e deve ser relatada, incondicionalmente, na forma do passado mais remoto.

Isso talvez não seja desvantagem para história alguma, mas vantagem; é necessário que as histórias já se tenham passado, e quanto mais mergulhadas no passado, caberia dizer, melhor corresponderão à sua qualidade essencial de histórias, e mais adequadas serão ao narrador, esse mago que evoca o pretérito. Acontece, porém, com a história o que hoje também acontece com os homens, e entre eles, não em último lugar, com os narradores de histórias: ela é muito mais velha que seus anos; sua vetustez não pode ser medida por dias, nem o tempo que sobre ela pesa, por revoluções em torno do sol. Numa palavra, não é propriamente ao tempo que a história deve o seu grau de antiguidade - e o que se pretende com essa observação feita de passagem é aludir e remeter ao caráter problemático e à peculiar duplicidade desse elemento misterioso.

Mas, para não se obscurecer de modo artificial um estado de coisas claro em si, seja dito que a idade sumamente avançada de nossa história provém do fato de ela se desenrolar antes de determinada peripécia e de certo limite que abriram um sulco profundo nas vidas e consciências dos homens Ela se desenrola ou - não avancemos com o uso do presente - ela se desenrolou numa época transata, outrora, nos velhos tempos, naquele mundo de antes da Grande Guerra, cujo deflagrar marcou o começo de tantas coisas que ainda mal deixaram de começar. Antes, pois, é quando ela se desenrola, se bem que não muito antes. E não será o caráter de antiguidade de uma história tanto mais profundo, perfeito e maravilhoso, quanto mais próxima do presente, quão menos "antes", ela se desenrolar? Bem pode ser que sob outros aspectos a nossa história, por sua natureza intrínseca, tenha cá e lá algo em comum com os contos maravilhosos.

Narrá-la-emos pormenorizadamente, com exatidão e minúcia - pois desde quando a natureza cativante ou enfadonha de uma história depende do espaço ou do tempo que exige? Sem medo de sermos acusados de meticulosidade, inclinamo-nos, pelo contrário, a opinar que realmente interessante só é aquilo que tem bases sólidas.

Não será, portanto, num abrir e fechar de olhos que o narrador terminará a história de Hans. Não lhe bastarão para isso os sete dias de uma semana, tampouco serão sete meses, apenas. Melhor será que ele desista de computar o tempo que decorrerá sobre a Terra enquanto essa tarefa o mantiver enredado. Decerto não chegará - Deus me livre - a sete anos!

Dito isso, comecemos.

I.

A Chegada

Um jovem singelo viajava, em pleno verão, de Hamburgo, sua cidade natal, a Davos-Platz, no cantão dos Grisões. Ia de visita, por três semanas.

Mas de Hamburgo até essas alturas a viagem é longa; demasiado longa, na verdade, para uma estada tão curta. É preciso atravessar diversos estados, subindo e descendo, do planalto da Alemanha meridional até a beira do lago de Constança, cujas ondas saltitantes são transpostas de navio, por sobre abismos outrora considerados insondáveis.

Dali adiante, a viagem, que até esse ponto avançava rapidamente, quase em linha reta, desenreda-se. Há delongas e complicações. Na localidade de Rorschach, já em território suíço, volta-se ao amparo da viação férrea; mas logo não se vai além de Landquart, pequena estação alpina, onde é preciso fazer baldeação. É um trem de bitola estreita o que ali se toma depois de prolongada espera numa paisagem varrida pelo vento e desprovida de encantos. No instante em que se põe em movimento a locomotiva de pequeno porte, mas de extraordinária força de tração, começa a parte deveras aventurosa da viagem, uma escalada brusca e penosa que parece não ter fim. A estação de Landquart situa-se a uma altura moderada. A partir dela, porém, adentra-se pelas montanhas, por uma estrada rochosa, áspera, angustiante.

Hans Castorp - eis o nome do rapaz - estava sozinho num pequeno compartimento almofadado em cinza, onde também se encontravam sua maleta de couro de crocodilo (presente de seu tio e pai de criação, o cônsul Tienappel, cujo nome convém mencionar desde já), bem como o casaco de inverno, a balouçar suspenso num gancho, e o cobertor de viagem enrolado. Estava sentado junto à janela aberta, e, como a tarde se vinha tornando cada vez mais fresca, levantara - rapaz mimado e franzino que era - a gola do sobretudo de verão, forrado de seda e de corte amplo, ao gosto da moda. A seu lado, no assento, jazia uma brochura intitulada Ocean Steamships, na qual Hans Castorp, durante as primeiras horas de viagem, de vez em quando lançara um olhar; agora, porém, o livro permanecia ali abandonado, enquanto o hálito da locomotiva arquejante, ao entrar pela janela, salpicava-lhe a capa de partículas de carvão.

Dois dias de viagem apartam um homem - e especialmente um jovem que ainda não criou raízes firmes na vida - do seu mundo cotidiano, de tudo quanto ele costuma chamar seus deveres, interesses, cuidados e projetos; apartam-no muito mais do que esse jovem podia imaginar enquanto um fiacre o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, roja-se de permeio entre ele e seu lugar de origem revela forças que se costuma julgar privilégio do tempo; produz de hora em hora novas metamorfoses íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas em certo sentido mais intensas ainda. Qual o tempo, gera esquecimento; porém o faz desligando o indivíduo das suas relações e pondo-o num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo. Dizem que o tempo é como o rio Lete; mas também o ar de paragens longínquas representa uma poção semelhante, e seu efeito, conquanto menos radical, é mais rápido.

Hans Castorp ia passando por experiências análogas. Não tivera a intenção de levar essa viagem muito a sério nem de entregar-se totalmente a ela. Propusera-se liquidá-la depressa, porque tinha que ser feita, depois regressar para casa tal como partira, e retomar sua vida anterior exatamente no ponto em que a abandonara por um instante. Ainda ontem se movimentara dentro do costumeiro círculo de ideias; ocupara-se com os acontecimentos mais recentes - seu exame de conclusão - e com o futuro imediato - sua entrada na vida prática, como funcionário da firma Tunder & Wilms (Estaleiros, Fábrica de Máquinas e Caldeiras). Com a máxima impaciência que seu temperamento lhe permitia, procurara olhar para além das três semanas vindouras. Nesse momento, porém, parecia-lhe que as circunstâncias exigiam dele plena atenção, não lhe sendo lícito menosprezá-las. Essa sensação de ser alçado a regiões cujos ares nunca respirara, e onde, como sabia, reinavam condições de vida particularmente rarefeitas e reduzidas, a que em absoluto não estava acostumado - essa sensação começava a excitá-lo, a enchê-lo de certa angústia. O torrão natal e a rotina de sempre haviam ficado não somente para trás, muito para trás, mas sobretudo a grande profundidade abaixo dele; e a ascensão continuava a afastá-los mais ainda. Pairando entre eles e o desconhecido, Hans Castorp perguntava-se como passaria lá em cima. Será que não seria imprudente e prejudicial a ele, que nascera poucos metros acima do mar e se habituara ao ar da sua terra, deixar-se transportar tão subitamente a esses sítios extremos, sem pelo menos se demorar por alguns dias num lugar de altitude média? Ansiava por chegar ao fim da viagem; pois, uma vez lá em cima - pensava -, devia-se viver como em toda parte, sem que lhe fossem recordadas, como agora, durante a escalada, as esferas impróprias em que se encontrava. Hans Castorp olhou janela afora: o trem serpenteava, sinuoso, através de um desfiladeiro estreito. Viam-se os primeiros vagões, via-se a locomotiva vomitando, no seu esforço, golfadas de fumaça parda, esverdeada e negra que logo se dissipavam. Nas profundidades, à direita, murmuravam cursos d'água; à esquerda, pinheiros escuros buscavam por entre os rochedos as alturas de um céu cinzento como pedra. Túneis tenebrosos iam desfilando, e quando reaparecia a luz, rasgavam-se dilatados abismos com povoados em seu fundo. Fechavam-se os abismos, vinham logo a seguir novos desfiladeiros com restos de neve nas gretas e fendas. Havia paradas diante de casinhas miseráveis de estações pequenas; e de estações sem saída em frente, o trem partia em direção oposta, o que produzia um efeito desnorteante. Panoramas grandiosos do universo de cumes alpinos abriam-se de repente, um amontoado fantasmagórico e solene que se procurava alcançar e galgar, para logo no próximo meandro da estrada subtraírem-se ao olhar reverente. Hans Castorp notou que deixara para trás a zona das árvores frondosas e, se não se enganava, também a dos pássaros canoros. Essa ideia de cessação e empobrecimento fez que ele, acometido de um ligeiro acesso de vertigem e mal-estar, cobrisse por dois segundos os olhos com a mão. Mas isso passou. Viu então que terminara a ascensão; estava vencido o ponto culminante do passo. No fundo plano de um vale o trem agora corria com maior comodidade.

[...]

*

A MONTANHA MÁGICA
AUTOR Thomas Mann
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 72,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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