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17/07/2017 - 11h19

Sobrevivente relata como se recuperou após tragédia da Chapecoense

da Livraria da Folha

Divulgação
Em livro, jornalista reflete sobre como ter sobrevivido ao acidente da Chapecoense mudou sua vida e seus hábitos
Em livro, jornalista reflete sobre como ter sobrevivido ao acidente da Chapecoense mudou sua vida e seus hábitos

O jornalista Rafael Henzel narra em "Viva Como Se Estivesse de Partida" os momentos que antecederam o voo e como foi sua recuperação após o acidente de avião que matou integrantes da Chapecoense, repórteres e tripulação em novembro de 2016.

Único jornalista que sobreviveu ao acidente, o narrador esportivo relata a jornada de gratidão pela vida que traçou a partir do momento do resgate.

Publicado pelo selo Principium, da editora Globo, o livro traz as reflexões do autor sobre o que mudou em sua vida e quais atitudes e hábitos deixou para trás e o que aprendeu de fato a valorizar.

Na obra, ele procura mostrar que não é preciso sobreviver a uma tragédia para ter um cotidiano mais leve e amoroso.

Nascido na cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, Rafael Henzel é jornalista esportivo e narrador da rádio Oeste Capital FM.

Leia abaixo um trecho de "Viva Como se Estivesse de Partida".

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Tempo de serenidade

Nos dias de internação no hospital, convivi com sentimentos e sensações distintos-solidariedade, esperança, fé, humildade, medo, coragem, dor, apatia, motivação, saudade, gratidão. A ansiedade foi outra sensação que me acompanhou em diversos momentos. Eu era, como todo jornalista, muito ansioso, por uma série de motivos. Você acorda de madrugada, e a insônia o induz a pensar em alguma coisa: em uma conta para pagar no outro dia, um encontro profissional que gera nervosismo, uma viagem. Eu tinha muito essa tendência de alimentar a agenda do outro dia. Isso me desgastava, porque desviava o meu foco do descanso para as preocupações. Assim, dormia pouco e, automaticamente, o dia seguinte era prejudicado, pois sempre acordo muito cedo, já que o meu programa na rádio começa às sete da manhã.

Depois do acidente, consegui equilibrar a ansiedade. Já acordei em algumas madrugadas, mas não perco mais o sono por causa do outro dia. Consegui estabelecer que aquilo que é para ser, será. Jamais protelarei a resolução de um problema, nem deixarei para depois de amanhã o que posso fazer amanhã, entretanto não vou mais exagerar no foco, não vou perder energia com isso. Se eu tiver um compromisso sério, na hora certa vou cumpri‑lo. Lembro os programas de TV e rádio em rede nacional dos quais participei após a volta para casa. Não fiquei aflito em contar a minha história porque sabia que não adiantava pensar naquilo antes de o programa ir ao ar. Eu também não tinha um discurso pronto. Tudo fluía de forma natural. Desde então, essa mudança de atitude tem me ajudado bastante.

Sinto que, após ter sobrevivido ao acidente, estou mais tranquilo, mais sereno na hora de equacionar os problemas e dimensiona‑los de acordo com a escala que eles realmente têm. E isso em todos os quesitos da minha vida. Acho que o pior que poderia me acontecer já aconteceu naquele 29 de novembro.

Muitas vezes, criamos atritos no trabalho ou em casa sem necessidade. Transformamos um copo d'água em tempestade sem pensar. Essa experiência me deixou mais tranquilo em relação à minha vida profissional, mesmo que não tenha conseguido reduzir minha carga horária. Durante o tratamento, como já contei, me propus como meta voltar à rádio quarenta dias depois do acidente. Eu achava que regressaria logo para casa, e me decepcionei muito quando soube que ficaria vinte ou trinta dias no hospital.

Gradativamente, eu entendi que a minha recuperação exigia tempo e calma. Que teria que combater a pneumonia no primeiro momento e depois cuidar das costelas fraturadas-que calcificaram sem cirurgia, felizmente. Assim que entendi o processo e foquei no tratamento, a minha recuperação foi acelerada. Deixei a ansiedade de lado porque passei a acreditar que notícia boa chama outras notícias boas. Conviver em um ambiente feliz faz você feliz. Se você levar a felicidade aos outros, vai receber a felicidade. Assim, não tive qualquer revés no meu tratamento, nem uma vez. Os médicos identificaram a bactéria e me deram o antibiótico certo, conseguindo acabar com a pneumonia. Fiquei muito feliz com isso, porque era uma batalha que eu tinha contra a inflamação nos pulmões. Quando a pneumonia se foi, eu sabia que não corria mais risco de morte.

É frequente dimensionarmos demasiadamente os problemas. Nós nos preocupamos muito com eles e esquecemos a solução. Eu comecei a ter outra visão das dificuldades, a pensar que nada é insolúvel. Nada é impossível, só a morte não tem volta - e, se pararmos para pensar um pouco, nós estivemos quase mortos e voltamos. Depois que você vive uma experiência dessas, percebe que um problema não é o final de tudo. Fiquei muito relaxado a respeito dessa questão sobre o dimensionamento dos obstáculos porque isso só tira o nosso foco, nos faz gastar uma energia que não precisamos gastar.

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VIVA COMO SE ESTIVESSE DE PARTIDA
AUTOR Rafael Henzel
EDITORA Principium
QUANTO R$ 21,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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