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12/09/2017 - 13h45

'Belchior queria ser santo', diz Jotabê Medeiros, biógrafo do cantor

WILLIAM MAGALHÃES
da Livraria da Folha

Divulgação
Biografia começou a ser escrita antes da morte do cantor; autor analisa na obra os principais discos de Belchior
Biografia começou a ser escrita antes da morte do cantor; autor analisa na obra os principais discos de Belchior

Belchior queria ser santo. Essa foi a avaliação feita por Jotabê Medeiros na sede da editora Todavia em um encontro de livreiros com o jornalista e autor da biografia "Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano".

Além de contar a trajetória de Belchior, o livro procura responder quem afinal de contas foi o músico cearense nascido na cidade de Sobral em 26 de outubro de 1946 e morto em abril de 2017 em decorrência de um aneurisma da aorta.

Nas palavras do biógrafo, Belchior "foi um dos mais obcecados artistas brasileiros". "Obcecado no sentido de tentar responder qual é a razão do Brasil".

Sua música, avalia, é uma busca das respostas de quais são "as motivações, os motivos e as fundações da ética e dos afetos do povo brasileiro".

Vida e obra do artista apresentam sinas de ruptura. Na música, ousou promovendo o diálogo entre diferentes gêneros. Na vida, destaca-se como constituinte da personalidade do cantor o tempo em que ele passou em um mosteiro, tentando se tornar um monge capuchinho. Abandonou a ordem religiosa para fazer medicina, curso que também não concluiu.

Sem falar nos sumiços, que começaram a chamar atenção da imprensa entre 2007 e 2009. Foi quando Jotabê começou a coletar material para escrever o livro. A tarefa só foi encarada com mais atenção há cerca de um ano e meio, quando o autor deixou o jornalismo de fechamento diário. Hoje é editor de cultura da revista Carta Capital.

"Comecei a ver que havia uma coisa maior a ser respondida que era quem é Belchior, de onde ele veio e como ele se tornou esse artista tão singular dentro da música brasileira", relata Jotabê.

Sobre os desaparecimentos, há muito mais detalhes no livro, mas no evento o autor arriscou um palpite. "Belchior cansou de ser visto como a galinha dos ovos de ouro". Familiares e amigos dependiam de seu sucesso. Financiou, por exemplo, a galeria de artes de um amigo. Ao mesmo tempo dedicava-se a pintura e desenhos. Tinha como ambição desenhar "A Divina Comédia", de Dante Alighieri.

Seu último álbum de inéditas é de 1993. Em toda a carreira, Jotabê diz que "Alucinação", de 1976, "é um disco perfeito". "Se você pega ele da primeira à última música não tem deslizes. Não tem nada que seja desigual". Mas elege "Mote e Glosa", o primeiro LP de Belchior, lançado em 1974, e que não chegou a fazer muito sucesso, como seu preferido.

No atual cenário da música brasileira diz que não vê alguém que seja herdeiro de Belchior, dono de um estilo único. "Muitos declaram a influência dele, mas no mesmo universo lírico de tamanha sofisticação eu acho que nós não temos herdeiros. É muito difícil você dizer que alguém tenha a mesma pegada existencial e literária, que esteja indo tão fundo na releitura das fundações literárias, da cultura, pra fazer música".

A reportagem pede uma recomendação para Jotabê. O que tem ouvido e lido ultimamente? Entre tudo que tem escutado por dever de ofício, aponta o trabalho do pernambucano Almério, "um artista interessantíssimo" e uma "novidade muito boa na música brasileira". Na outra área, puxa sardinha para um título da própria casa editorial ao indicar a HQ "O Bulevar dos Sonhos Partidos", de Kim Deitch. "É uma doideira total, uma viagem de ácido praticamente".

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BELCHIOR - APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO
AUTOR Jotabê Medeiros
EDITORA Todavia
QUANTO R$ 44,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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