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18/09/2017 - 09h01

Autor diz que ainda há muito para ser explorado sobre a pré-história do Brasil

WILLIAM MAGALHÃES
da Livraria da Folha

Divulgação
Obra mostra como as complexas comunidades do Brasil pré-Cabral eram bem diferentes da imagem histórica que se faz delas
Obra mostra como as complexas comunidades do Brasil pré-Cabral são bem diferentes de suas imagens históricas

O jornalista Reinaldo José Lopes, autor do livro "1499 - O Brasil Antes de Cabral", chegou a falar para sua editora que a casa iria perder dinheiro com o projeto. "Que sorte que eu estava errado", comenta ele em entrevista à Livraria da Folha.

A chegada do título às listas de mais vendidos na categoria não-ficção, aponta para um interesse do público leitor no tema.

A obra, lançada pela Harper Collins, revela como viviam as civilizações indígenas antes do descobrimento do Brasil e apresenta uma série de curiosidades, traçando um panorama sobre vida durante a pré-história do país.

Dos primeiros Homo sapiens a pisarem no território da América ao primeiro contato entre nativos e portugueses, o livro mostra como a presença humana foi moldando o território brasileiro ao longo dos anos.

Lopes também lançou recentemente, pela editora Abril, o livro "Mitologia Nórdica".

Na entrevista a seguir, ele fala sobre os processos de escrita e pesquisa para os livros, a ligação das mitologias nórdica e celta com "Game of Thrones" e "O Senhor dos Anéis" e comenta o interesse dos leitores por história.

Ele deixa claro que ainda há muito material para ser divulgado sobre a pré-história do Brasil. "Se o livro continuar fazendo sucesso eu vou ter de fazer uma edição nova a cada cinco anos".

Reinaldo Canato/Folhapress
O jornalista Reinaldo José Lopes, colunista da *Folha* e autor do livro "1499"
O jornalista Reinaldo José Lopes, colunista da Folha e autor do livro "1499"

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De onde partiu a ideia do livro?
Acho que o principal estímulo pra escrever o "1499" é o fato de que embora cada vez mais os pesquisadores estejam repensando o passado pré-cabralino do Brasil e publicando um monte de evidências de que a organização social, a política, a cultura etc. eram muito mais complexas do que a imagem tradicional dos indígenas, quase ninguém sabe disso fora do meio acadêmico. E, mais importante ainda, não tinha um livro voltado pro público geral, leigo, que consolidasse essas informações num quadro geral que fizesse sentido e fosse fácil de entender. Então era uma lacuna que eu acho que precisava ser preenchida! Na verdade o livro era pra ter sido uma parceria entre meu ex-chefe e colega Claudio Angelo e eu, a gente pensava em fazer algo desse tipo desde 2002, 2003. Ele foi sondado para o projeto, mas teve outro livro pra terminar e acabou deixando tudo comigo. Eu dei muita sorte!

Quais foram suas principais fontes de pesquisa?
Basicamente artigos científicos em inglês descrevendo os achados originais dos pesquisadores, tanto nas grandes publicações científicas, como a "Science" e a "Nature", quanto nas mais obscuras, e isso de várias áreas: arqueologia, paleontologia, botânica, genômica, biodiversidade... Várias entrevistas com os pesquisadores foram bem importantes, bem como duas visitas a campo, em Lagoa Santa (MG) e Porto Velho (RO), feitas num intervalo de vários anos. Ler as fontes coloniais dos séculos 16 e 17 no original também foi bem útil.

Quanto tempo você levou entre a pesquisa e a escrita do livro?
A pesquisa dá pra dizer que foi a minha carreira inteira, ou seja, 15 anos, porque eu fiquei acompanhando todas as principais descobertas da área todo dia desde que entrei na Folha como repórter, basicamente. Sentado com o bumbum na cadeira escrevendo foi mais ou menos um ano.

Qual foi a descoberta que mais te surpreendeu durante a pesquisa?
Rapaz, é muita coisa, cada hora era uma surpresa diferente. Mas, só pra citar dois dados: ninguém acha que a Amazônia pré-histórica poderia ser uma potência agrícola, mas a verdade é que mais de 80 espécies de plantas diferentes foram domesticadas pelo homem lá. É coisa pra caramba, incluindo aí cultivos que ganharam o mundo: mandioca, cacau, abacaxi, pimenta-malagueta. Outra coisa muito louca que não passa pela nossa cabeça é a riqueza de biodiversidade que existia aqui até o fim da Era do Gelo e puf!, sumiu. Há 12 mil anos havia mais espécies de mamíferos com uma tonelada ou mais na América do Sul do que na África toda! Entre mamíferos com 50 kg ou mais, eram 80 espécies. Isso sumiu quase tudo, a gente ainda não sabe ao certo qual o papel do homem no processo, mas isso fez uma diferença tremenda. Poderíamos ter tido cavalos domésticos aqui, por exemplo, antes que os europeus chegassem; tinha lhama no Nordeste brasileiro e elefante na Amazônia.

Há muito para ser explorado ainda sobre a pré-história do Brasil?
Absolutamente sim. O país é enorme e tivemos pouquíssima exploração arqueológica intensiva, fora o esforço pra criar modelos que deem sentido ao que já foi descoberto. Se o livro continuar fazendo sucesso eu vou ter de fazer uma edição nova a cada cinco anos hehehe...

Esperava que o livro chegasse aos mais vendidos?
Francamente não. Na época cheguei a dizer pra minha editora, a Carol Chagas, que eles iam perder dinheiro com o livro. Que sorte que eu estava errado;-)

Como tem sido a recepção dos leitores?
Tem sido muito bacana nas redes sociais, com gente me escrevendo, me adicionando, comentando o livro e com aquilo que eu te falei lá em cima: as pessoas dizem que sempre quiseram ter um livro desse tipo, mas não achavam. Agora elas têm!

A que você atribui o maior interesse do público por história?
Excelente pergunta. O que quer que eu diga vai ser chute, mas eu desconfio, de qualquer modo, que num país como o nosso, com tantos conflitos e tanta coisa mal resolvida, as pessoas têm uma necessidade natural de entender de onde veio essa bagunça toda e, quem sabe, de aprender com isso pra evitar mais bagunça ainda. Talvez essa seja a chave. E é lógico que tem um lado negro disso: usar o passado pra justificar sacanagens do presente. É complicado.

Sobre "Mitologia Nórdica". Como foi o processo de pesquisa?
Enfrentar os textos medievais originais, tanto nórdicos quanto celtas - na verdade o livro é mitologia nórdica E celta, apesar do título. É muito legal porque eu nunca tinha tido a chance de ler os Eddas, ou a Saga dos Volsungos, ou o Mabinogion, de cabo a rabo, em edições críticas que trazem todo o sabor dos manuscritos originais. São textos com convenções literárias totalmente diferentes das nossas, às vezes meio sem pé nem cabeça aparentemente, mas que abrem portas pra outros mundos. Valeu muito a pena.

Como "Game of Thrones" e "Senhor dos Anéis" se ligam à mitologia nórdica?
Deu um quarto do livro a resposta a essa pergunta, hehehe... mas, resumindo, a mitologia nórdica e celta ajudaram a estruturar os universos fantásticos da literatura moderna, deram uma forma geral à visão cosmogônica, à ideia de tempo (mais ou menos) cíclico, à relação entre o humano e o divino etc. GoT e SdA subvertem vários desses elementos, mas o "template" com qual eles trabalham são sempre essas mitologias. E, é claro, tem os elementos pontuais que são muito importantes: a figura do mago Gandalf é praticamente um decalque do Odin nórdico, o motivo "o inverno está chegando" é o do Ragnarok (apocalipse escandinavo), os Filhos da Floresta de GoT e os elfos do SdA são híbridos nórdicos/celtas... a lista é gigante.

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1499 - O BRASIL ANTES DE CABRAL
AUTOR Reinaldo José Lopes
EDITORA Harper Collins
QUANTO R$ 30,90 (preço promocional*)

MITOLOGIA NÓRDICA
EDITORA Abril
QUANTO R$ 30,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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