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06/10/2017 - 17h41

'Colombo' narra a loucura dos homens que cruzaram o Atlântico; leia trecho

da Livraria da Folha

Divulgação
Historiador Laurence Bergreen apresenta um retrato da carreira do explorador e como as campanhas se tornaram cada vez mais violentas e questionáveis
Laurence Bergreen apresenta retrato da carreira do explorador e como suas campanhas se tornaram cada vez mais questionáveis

Na biografia "Colombo: As Quatro Viagens", o historiador Laurence Bergreen apresenta um retrato da carreira do explorador e como as campanhas se tornaram cada vez mais violentas e questionáveis.

O livro narra a mistura de genialidade e loucura daqueles homens que cruzaram o mundo e testemunharam o encontro único de duas culturas separadas pelo Atlântico.

Além da travessia, ele estabeleceu uma colônia, que se tornou a cidade de Santo Domingo, provocou um suicídio em massa e encontrou a civilização maia.

Formado pela Universidade de Harvard, membro do PEN American Center e conselheiro da New York Society Library, Bergreen também é autor de "Além do Fim do Mundo" e "Marco Polo".

Abaixo, leia um trecho de "Colombo: As Quatro Viagens". O livro é um dos destaques do Bota-Fora Literário da Livraria da Folha, seleção que reúne 800 livros com até 80% de desconto.

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Colombo, normalmente tão objetivo, vagou pelas Bahamas uma semana inteira, como se vivesse um sonho. "Descobri um porto muito maravilhoso com um estuário, ou, melhor dizendo, dois estuários, pois tem uma ilha no meio, e ambos são bastante estreitos, e por dentro é tão amplo que nele caberiam cem navios, se tivesse águas profundas e límpidas", registrou no dia 17 de outubro, ao se aproximar do cabo Santa María. "Durante esse tempo andei em meio a árvores que foram as coisas mais lindas que já vi, presenciando tanto verdor em desenvolvimento avançado como no mês de maio na Andaluzia, e todas as árvores são diferentes das nossas como a noite do dia." Colombo ficou encantado e desconcertado com o espetáculo. "Ninguém saberia dizer o que eram, nem compará-las a outras de Castela." A visão de tantas árvores e plantas e flores impossíveis de identificar lhe causou uma "imensa aflição", como se fosse cego ou incapaz de falar.

Somente o ouro interrompia seus devaneios. No instante em que viu um homem "que tinha no nariz um pino de ouro" entalhado com letras, tentou fazer negócio, "e me responderam que jamais tinham ousado pedir aquilo em troca". Caso sua intuição estivesse certa, as inscrições no pino de ouro seriam chinesas ou talvez japonesas, mas ele não conseguiu examiná-la.

No dia seguinte, "senti um aroma muitíssimo agradável e doce das flores e árvores da ilha, que foi a coisa mais doce do mundo". Mais adiante, uma ilha menor, e outra, eram tantas que ele desistiu de explorar todas, "porque nem em cinquenta anos conseguiria, pois desejo ver e descobrir o máximo que posso antes de regressar a Vossas Majestades (Nosso Senhor permitindo) em abril". Cinquenta anos: ele estava apenas começando a perceber a enormidade e insondabilidade das ilhas que encontrara. Tudo era estranho e diferente - a vegetação, a população, o aroma almiscarado de flores que emanava de uma ilha próxima. Ainda era outubro, o Novo Mundo existia para ele havia apenas uma semana. Restavam mais de seis meses até a data marcada para chegar à Espanha, e qualquer coisa poderia acontecer nesse mundo inexplorado.

As entradas no diário aumentavam e ele relatava suas experiências ao mar com confiança e eloquência. À primeira vista, o diário tinha como objetivo transmitir toda a dramaticidade e originalidade de uma expedição em que tudo era descoberta, registrando, pela primeira vez, cada experiência e sensação sob a ótica e a sensibilidade europeias - mais especificamente, a régia percepção castelhana que Colombo tanto desejava imitar. O Almirante tentava misturar imperiosidade e inteligência, como se observasse o mundo a certa distância para poder estudá-lo. Para Colombo, expatriado de Gênova, marinheiro mercante e navegador autodidata, o tom aristocrático era uma representação construída com cuidado, notável tanto pelo que omitia ou trivializava ou entendia errado quanto pelas descobertas espantosas que registrava.

Com o avanço da jornada, o diário sofria uma transformação sutil, tornando-se um manifesto do descobrimento e, além disso, um espelho para o qual o Almirante não conseguia parar de olhar, já que refletia sua visão, sua ambição, seu desejo de grandeza, e ele próprio. Em sua cabeça, as vivências e observações eram tão persuasivas que chegavam a interferir em sua capacidade de reagir à realidade da exploração, sempre cambiante. Por outro lado, Colombo estava confinado a rígidas expectativas.

Para complicar a situação, estudiosos de seu notável diário precisam se fiar numa transcrição do relato da primeira expedição, que se perdeu, e cujas principais fontes são apenas duas. A primeira é o filho bastardo, ou ilegítimo, Fernando Colombo, um marinheiro que virou historiador; a segunda é Bartolomeu de Las Casas, frei e cronista. Naturalmente, Fernando queria limpar a reputação manchada do pai, ao passo que Las Casas buscava atirar o explorador no mais profundo círculo do inferno. No entanto, a atitude de Las Casas em relação a Colombo tem mais nuanças, não se restringe à crítica por si só. O frei tinha noção da complexidade do empreendimento, do qual participou como testemunha ocular, mas também enxergava os acontecimentos dentro de um contexto histórico mais amplo, vivendo tanto no presente quanto fora dele. Las Casas não tinha o hológrafo - a versão escrita à mão - do diário, por isso foi obrigado a usar uma versão imperfeita, sobre a qual ocasionalmente registrava reclamações de cunho acadêmico. Além de erros de transcrição recorrentes, o copista desconhecido no qual Las Casas se fiava tinha a tendência preocupante de confundir "milhas" com "léguas" e até "leste" com "oeste". Tais enganos tornavam difícil reconstituir com precisão a rota de Colombo.

Como era defensor da dignidade e dos direitos humanos dos indígenas, Las Casas incluiu diversas passagens em que Colombo admirava os anfitriões. O frei se alterna frequentemente entre citações diretas da cópia que estava diante dele, em que Colombo falava em primeira pessoa, e resumos detalhados nos quais se refere ao Almirante em terceira pessoa, dando a impressão de que Colombo, assim como César, aludia a si mesmo dessa forma. (O escrupuloso Las Casas distingue entre os dois usando aspas para o discurso direto.)

Os relatos vagos e às vezes falaciosos de Colombo acerca de marés, portos, bancos de areia e táticas de navegação complicavam ainda mais a situação, e estavam destinados a causar suspiros de frustração em cronistas e exploradores aspirantes por séculos a fio, devido à ausência de informações náuticas precisas e úteis - o que era, ao fim e ao cabo, a intenção do Almirante. Divulgar teorias e práticas náuticas ia contra seus arraigados instintos de piloto e marinheiro genovês. Era mais arriscado revelar do que esconder; se não fosse cuidadoso, Colombo poderia terminar isolado em Sevilha ou Lisboa, vendo missões de imitadores explorando suas descobertas. Portanto, o Almirante recorria a descrições genéricas de praias, portos, marés e bancos de areia na tentativa de ocultar seu rastro, muito embora escrevesse com um olho na posteridade.

Alternando momentos de confusão e de excesso de autoconfiança, ele lutava contra o problema mais básico da exploração - a localização. O objetivo era descobrir as "Índias", mas a principal preocupação de Colombo continuava a ser ele mesmo, suas tribulações e seu espírito heroico. Sempre que o Almirante se desviava dos acontecimentos monumentais das explorações e retomava os relatos com tranquilidade, o desvelamento da vontade de Deus se tornava um assunto importante. Quando estava a serviço do Senhor, não havia incidente, somente graus de devoção. A serviço do Senhor, ele se via como um sacerdote da exploração.

Entretanto, quando suas convicções se sobrepunham à realidade ou quando era tomado pela vaidade e a ansiedade, Colombo sucumbia aos impulsos mais tenebrosos, parecendo ignorar o bem-estar dos outros e estar sempre pronto para sacrificar todo mundo em nome de um objetivo glorificado, inatingível, fosse o descobrimento do império do Grande Khan ou a libertação de Jerusalém. Nessas peças teatrais que elaborava, Colombo se via como uma figura heroica e atormentada. Quanto maiores as fantasias, mais desumano ele se tornava. O diário de Colombo, em certa medida um registro de sua arrebatada instabilidade, testemunha o sofrimento acarretado por uma sensação de pavor e abatimento, aliviado principalmente por insinuações de glória e onipotência. Ele era mais do que um descobridor, era um amplificador tanto de suas expedições quanto de suas batalhas internas. Essa propensão ao exagero é uma das razões para as façanhas de Colombo serem memoráveis; ele insistia em mostrá-las assim.

À medida que o diário tomava corpo, virava um registro importante da expedição, o leme da mente do Almirante, um esteio contra tempestades reais e psíquicas. Não era, contudo, uma fonte de conforto para Colombo. Em vez de assumir o esperado tom de desagravo, o Almirante muitas vezes soa ainda mais desvairado e conflituoso por conta das descobertas e dos desafios que elas impunham. Colombo demonstra consciência de que está entrando em uma batalha duradoura em que cada triunfo parece ser acompanhado de um passo em falso, de consequências inesperadas ou mesmo de crimes. Paradoxalmente, à medida que cresciam o poder e a autoridade (na cabeça de Colombo), aumentava também a vulnerabilidade do Almirante - aos indígenas, a rivais como os irmãos Pinzón e a uma sensação, levemente pressentida, de que os riscos da viagem eram maiores e mais ambíguos do que os imaginados de início. Em vez de encontrar um análogo náutico às viagens de Marco Polo e um caminho para a riqueza pessoal, Colombo acabou por tropeçar num otro mundo - como passou a chamar a nova terra -, em que não existiam mapas para guiá-lo. Para todos os efeitos, o Almirante estava perdido e desorientado, mas não poderia admitir essa possibilidade para si e para os outros da expedição; era bem melhor insistir que ainda não havia encontrado o que estavam procurando, mas esta única convicção não lhe trazia muito conforto. Quanto mais encontrava, mais desesperado ficava, pois o império que buscava se revelou maior e mais variado do que imaginara.

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COLOMBO
AUTOR Laurence Bergreen
TRADUTOR Débora Landsberg e Michel Teixeira
EDITORA Objetiva
QUANTO R$ 64,90 (preço promocional *)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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