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06/12/2017 - 09h01

Leia trecho de "A Glória e Seu Cortejo de Horrores", de Fernanda Torres

da Livraria da Folha

Divulgação
Por meio de trajetória de desventuras de ator decadente, Fernanda Torres lança olhar sobre história recente do país
Por meio de trajetória de desventuras de ator decadente, Fernanda Torres lança olhar sobre história recente do país

A atriz Fernanda Torres revê passagens da história recente do Brasil em "A Glória e Seu Cortejo de Horrores".

Publicado pela Companhia das Letras, o livro tem como protagonista Mario Cardoso, um ator de meia-idade.

A trama acompanha suas desventuras, dos dias de sucesso como astro de telenovela até seu declínio quando decide encenar uma versão de "Rei Lear", de William Shakespeare.

A temporada do espetáculo não é bem recebida pelo público e pela crítica carioca e quando a peça chega a São Paulo também não agrada.

A partir daí, uma série de novas dificuldades se apresentam ao ator e a obra também atravessa diversas fases de sua carreira, como as lembranças de juventude no teatro político, a incursão pelo Cinema Novo dos anos 1960, a efervescência hippie do Verão do Desbunde e o encontro com o teatro de Tchékhov.

Atriz, escritora e colunista da Folha e da Veja-Rio, Fernanda Torres nasceu no Rio de Janeiro em 15 de setembro de 1965. É autora do romance "Fim" e do livro de crônicas "Sete Anos".

Leia abaixo um trecho de "A Glória e Seu Cortejo de Horrores".

*

Foi um instante - sopra, vento, eu uivei em meio à tempestade, apesar da rouquidão que me perseguia desde a estreia; o elenco agitando os trovões de lata, a ideia imbecil do gênio do diretor que pretendia ser maior que Shakespeare. Os ensaios tensos, a desgraça do português, que usa três vezes mais palavras do que o inglês para dizer a mesma coisa, a cabeça girando para dar conta de uma imagem, e outra, e mais outra, a surra. Minha ilusão de que estava progredindo foi para o ralo no dia em que o inventor da roda deu uma chapa de metal para cada um dos atores e mandou os idiotas chacoalharem aquela porcaria com o empenho de bestas-feras. O deboche, a vingança pelo fato do papai aqui, além de titular o espetáculo, ser o patrão daquela gente toda: o responsável pela companhia que teve a infeliz ideia de levantar dinheiro de renúncia fiscal para realizar o desejo de ser algo mais do que um medíocre ator dos trópicos.

- Sopra, vento, até arrebentar tuas bochechas! Ruge, sopra! Cataratas e trombas do céu, jorrem torrentes até fazer submergir os campanários e afogar os galos de suas torres.

Nos dois meses que antecederam a estreia, a preparadora vocal, misto de xamã e doutora honoris causa, me fez repetir o solilóquio da tormenta de quatro, em cima do tapete do consultório de um prédio velho de Copacabana. Eu obedecia, de quatro, no tapete, acreditando na teoria de que só assim eu atingiria o estado de humilhação do rei. Laurence Olivier jamais precisou ficar de quatro, mas eu ficava, de quatro, no cubículo de Copacabana. Sentido de humilhação eu tenho, o que me falta é nobreza para carregar a coroa, nenhum de nós tem. Essa era a certeza que me vinha, cada vez que, entre deprimido e exausto, eu deixava a sala apertada do edifício comercial na Figueiredo Magalhães em direção a mais um dia extenuante de ensaio. Naquele tempo, ainda havia esperança em mim. A ilusão da glória. Tudo começou a ruir no dia em que o canalha do diretor entregou os raios de aço para o elenco e deu ordem para os animais sacolejarem aquelas joças. Stein - o nome do iluminado era Stein -, desse jeito ninguém vai me ouvir, eu disse. Ele me lançou um olhar de desprezo e respondeu que as palavras não eram relevantes, só a desconstrução do texto e o blefe do teatro da imagem. Vai dirigir marionete, pensei, escala uma penca de bonecos de Olinda, estive a ponto de desabafar, mas o medo de perder o diretor a um mês da estreia me fez frear os cavalos.No centro do palco, eu repetia os versos com as patas no chão, rei de coisa nenhuma, Lear encarnado. A angústia me fez pensar em exorcismo, macumba, cogitei suicídio e até assassinato do Stein. A ideia do homicídio me alimentou até o ensaio geral. O prazer de sentir raiva. Goneril e Regana, as filhas megeras do monarca sem trono, tinham a cara do Stein para mim; botei todo meu ódio nelas e melhorei, melhorei até demais. Um mal-agradecido que não dirigia uma peça há mais de dez anos. Um pária que eu mandei buscar num sítio em Corrêas, o retiro onde a grande promessa do teatro dos anos 80 se refugiou, depois de declarar que a humanidade era incapaz de compreender os arroubos de criatividade dele.

- E tu, trovão que abala o universo, achata para sempre a grossa redondez do mundo! Quebra os moldes da natureza e destrói de uma vez por todas as sementes que geram a humanidade ingrata!

O horror à direção era apenas um dos meus problemas. O cenógrafo e o figurinista, duas senhoras casadas que só trabalhavam em dupla, completavam o pesadelo. O primeiro concebeu a parede de um castelo medieval que consumiu uma floresta inteira de madeira nobre. As toras maciças da estrutura pesavam tanto que me vi obrigado a chamar um engenheiro para reforçar as vigas de sustentação do palco, palco... um teatro de shopping mal travestido de Cornualha. Isso é cenário, eu repetia, mas o criador queria verdade. Com o dinheiro dos outros é fácil, bradei, e ele saiu ofendido, como se eu fosse um burguês tacanho, sem sensibilidade para me embevecer com a inspiração dele. O fosso com água tomou as três fileiras em frente ao proscênio, o que diminuiu os ganhos de quem vivia de percentual. O infantil de sábado e domingo exigia que desmontássemos o circo duas vezes por semana, onerando a folha de pagamento com mais três bebe-águas. Além dos energúmenos, mais quatro incompetentes se revezavam na coxia com a contrarregra. O Stein pediu realismo e criou dois banquetes inexistentes no original. Consumíamos dez frangos de padaria por récita, além das frutas, pães e legumes comprados a peso de ouro na quitanda da esquina, e que podreciam sem dó no camarim. Cheiro insuportável. Nas cenas em que Lear é expulso de casa pelas filhas, o portão se fechava arrastado por correntes. Perdemos uma semana para içar a geringonça. Dane-se a poesia, o Stein queria efeito. Na cena da guerra, eu tentei dissuadi-lo, mas a besta quis porque quis botar fogo nas seteiras da parede, toda coberta de isopor maquiado de pedra. Contratei um bombeiro para ficar de prontidão. Stein exigiu que Cordélia, depois de morta, entrasse nua nos braços do pai. Era uma atriz muito bonitinha, que o Stein tentou comer de todo jeito, sem resultado. Tinha cabeça, a menina. No domingo seguinte à estreia, o bombeiro não resistiu à pressão dos hormônios e arriscou uma mão nos peitos da moça. Demiti o tarado. O outro que entrou só olhava de esguelha, e eu pedi para ela aguentar o tranco. Depois de assistir a uma versão russa da peça para o cinema, Stein resolveu situar o enredo na Idade da Pedra. O figurinista teve orgasmos com a concepção e nos brindou com uma coleção de peles de carneiro - ele queria urso, mas aceitou os carneiros. Suávamos em bica, arrastando as capas de lã no calor de fevereiro. Abrimos o pano logo depois do Carnaval, o ar-condicionado não dava conta do bafo, e como só ligavam as máquinas na hora de passar o corrido - economia, Horácio, economia -, dois atores foram parar no hospital, comprometendo ainda mais a reta final.

A velha crítica do principal jornal carioca consumou a tragédia. Estudiosa de Shakespeare, a dama de ferro ganhava a vida assistindo aos Tem bububu no bobobó dos palcos brasileiros. Capaz de perdoar comédias rasas, era acometida de uma agressividade cruel quando escrevia sobre aqueles que, como eu, se dispunham a enfrentar o cânone. Ela abria com meu epitáfio, e terminava a resenha culpando as leis de incentivo à cultura, por permitirem que uma infelicidade daquela chegasse às vias de fato. A depressão tomou conta do elenco. Ainda teríamos seis meses pela frente e um contrato assinado com o patrocinador que incluía uma temporada em São Paulo. Terminamos a catástrofe no Rio com a casa vazia, enfiei o castelo em quatro caminhões de mudança e rumamos para o planalto paulista.

São Paulo. A fraqueza me abateu em São Paulo.

A empresa de engenharia que apoiou o espetáculo resolveu comemorar os cinquenta anos de fundação convidando os funcionários para a estreia. No foyer, antes da sessão, foi servido ravióli de funghi com creme quatro queijos, acompanhado de vinho tinto da Serra Gaúcha. Depois de passar a sexta no batente, os convivas encheram a pança. Mal subiu a cortina, os primeiros roncos ecoaram. Como as pausas dramáticas amplificavam a sinfonia de Morfeu, passamos a evitá-las ao máximo. Atropelávamos as falas e quanto mais corríamos com o texto, mais arrastada ficava a peça. Foi um suplício lento, moroso, insuportável. Quando as luzes se acenderam para o agradecimento, esperamos pacientes metade da plateia acordar a outra e nos brindar com bocejos e aplausos apáticos.

O matutino campeão de assinaturas foi testemunha do flagelo. Um crítico deveria ter a compaixão de não aparecer no teatro na noite do patrocinador, mas aquele não teve. Nenhum deles tem.

Perto da resenha paulista, a do jornal carioca mais parecia uma consagração. No rodapé da quarta página do caderno de cultura, num espaço espremido entre os quadrinhos e o horóscopo, uma foto pequena, em preto e branco, comigo de quatro, estampava a manchete: PESADELO DE UMA NOITE DE VERÃO. O entendido começava a análise com uma lista de atores consumidos pela vontade de serem maiores do que de fato são. Me faltava o peso para dar conta do papel, decretava, concluindo que até Romeu me caberia melhor. Arrependido por não ter optado por Macbeth, engendrei planos para explodir a redação com o miserável dentro. Tinha uns trinta anos, o agourento, e padecia do mesmo complexo de vira-lata de outros jornalistas empregados naquele jornal. Os cinco parcos parágrafos davam cabo de tudo: elenco, direção, luz, cenário, figurino; só o Bobo, personagem de Arlindo Correia, saiu ileso da debacle. Velho ator de teatro que, como todos nós, ganhava a vida na televisão, Arlindo participou de montagens históricas, trabalhou com Kusnet, Ziembinski, e fez parte do coro do Arena. Ele brilhou desde a primeira leitura, sabendo ser irônico e trágico quando preciso. Durante a preparação, procurei esconder a inveja de saber que ele se sairia melhor do que eu, e sem o peso de carregar a produção nas costas. Escamoteei o quanto pude, até ler a verdade explícita naquele jornal metido a New York Times. Passei a evitá-lo, parei de cumprimentar. Chegava no teatro cedo, resmungava um boa-noite inaudível e seguia batido para o camarim. Meu alívio, se é que se pode chamar de alívio, era ouvir as desgraças do Lineu Castro, enquanto ajustava a barba branca.

O Lineu era um ator maravilhoso, neurótico, mas maravilhoso. Tinha problemas sexuais terríveis, foi virgem até os vinte e oito anos e deve ter comido a mulher umas duas vezes na vida. Numa delas, concebeu um filho. O Lineu era hipocondríaco e só tomava banhos bissextos. Ninguém quis dividir o camarim com ele. Acabamos juntos, em frente ao espelho, comigo ouvindo a ladainha dele sobre a vida indigente que levava ao lado da mulher feia e do filho fracassado. A infelicidade o havia dotado de uma sensibilidade rara de se encontrar num ator. Não era a vaidade que o movia, mas um conhecimento profundo da pequenez humana. Foi isso o que nos levou a escalá-lo para o papel de Gloucester, pai traído pelo filho bastardo, o vilão Edmundo, que trama contra o irmão legítimo, Edgar, para lhe usurpar o poder.

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A GLÓRIA E SEU CORTEJO DE HORRORES
AUTORA Fernanda Torres
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 37,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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