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10/03/2013 - 11h30

Conheça Melanie Klein, mulher que revolucionou a psicanálise

da Livraria da Folha

A austríaca Melanie Klein (1882-1960) contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da técnica de análise infantil, estudo que a tornou famosa. Mas não foi apenas isso. Sua experiência com as crianças permitiu a ampliação do campo da clínica em áreas consideradas impenetráveis ao tratamento, como em psicóticos, autistas e, até mesmo, neuróticos adultos.

Divulgação
Livro de bolso sintetiza os principais temas dos estudos de Melanie Klein
Livro de bolso sintetiza os principais temas dos estudos de Melanie Klein

Diferente de outros nomes do ramo --Sigmund Freud (1856-1939), Jacques Lacan (1901-1980) e Carl Jung (1875-1961)--, Klein era uma pesquisadora autodidata.

Publicado em 1932, o livro "A Psicanálise de Crianças" é uma de suas principais obras. Embora eleger um só título dentre os 40 anos de pesquisa não faça justiça à evolução do pensamento kleiniano.

Melanie Klein morreu de câncer no dia 22 de setembro de 1960, em Londres. Pelo conjunto de seus trabalhos, revolucionou a pesquisa e a prática da psicologia.

Escrito por Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Luís Claudio Mendonça Figueiredo, "Melanie Klein", volume da coleção "Folha Explica", sintetiza os principais temas de sua obra.

Leia um trecho do livro.

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PRIMEIROS TRABALHOS

Melanie Klein começou a fazer suas observações clínicas, a escrever e apresentar seus trabalhos em congressos a partir da década de 1920. Nesse período ainda não existe um pensamento kleiniano estruturado, mas ela já é capaz de chamar a atenção de seus mestres e colegas pela originalidade de suas intuições e pela coragem de suas propostas clínicas e teóricas.

Analisando crianças psicóticas, neuróticas obsessivas graves e também crianças mais saudáveis, Melanie Klein descobriu formas de violência associadas à sexualidade, como já vimos na Apresentação. Por isso mesmo que a preocupação com o excesso, a desmesura e a insaciabilidade do desejo marca o seu pensamento desde os primórdios.

Nesses primeiros textos da década de 20, Klein fala da voracidade, presente nos dinamismos oral, anal e fálico. Na dinâmica oral ocorre a fantasia inconsciente de sucção vampiresca e incorporação oral do objeto de amor. Em sua dimensão sádico-anal, a voracidade se expressa pelo desejo excessivo de posse, assim como pelo desejo de controle e completo domínio muscular sobre o objeto - o que leva o dinamismo "esfincteriano" à fantasia inconsciente de estreitar e estrangular o objeto.

Em sua forma uretral e fálica, trata-se da ambição desmesurada ou ainda da competição e da fantasia inconsciente de penetrar, tomar posse e triunfar sobre o objeto de amor. Em seu texto "Tendências Criminosas em Crianças Normais" (1927), por exemplo, ela sugere que o imaginário sádico e ideias semelhantes às que levaram aos piores crimes também estão presentes no desenvolvimento normal de crianças absolutamente saudáveis.

Indo além da ênfase no excesso e na violência pulsional, uma intuição genial desta época - inspirada no ensaio "Pulsões e seus Destinos", de Freud - fará Klein dizer que a violência pulsional sofre uma inflexão sobre a própria pessoa, originando um "superego precoce", isto é, uma moralidade vingativa e tingida com a violência da pulsão. A lei de Talião e esta forma primitiva de "moral" - ou de fazer justiça com as próprias pulsões - mostram que são as próprias forças do id que, dispostas umas contra as outras, criam um universo de punições selvagens e sem medida. O amor pré-genital e a dificuldade de moderá-lo encontram-se entrelaçados aos mais cruéis castigos imaginários, tal como Freud havia intuído no caso O Homem dos Ratos, com a fantasia cruel dos ratos e de sua penetração anal.

Nesta época, o interesse de Melanie Klein também foi atraído pelo problema da inibição intelectual - ligada, pelo avesso, à curiosidade e ao desejo de conhecer. No universo freudiano, a pulsão de saber estava ligada à sexualidade, ao desejo de saber sobre sua origem. Antes de Freud, na linguagem bíblica, "conhecer" e amar sexualmente estão estreitamente associados.

Desde os Três Ensaios Sobre a Sexualidade (1905), Freud considerava que a chamada "pulsão de domínio" - uma pulsão do ego - acabava se convertendo em sadismo oral e anal - por infiltração da pulsão sexual, e podia então vir a sublimar-se, virando pulsão de saber. Nessa concepção, todo ato de conhecer envolve algum "domínio" sobre o objeto: o dinamismo oral de "devorar" e "incorporar", o fálico de "invadir" e "penetrar" associam-se ao erotismo sádico-anal com seus desdobramentos do erotismo muscular, pois será preciso "controlar, segurar, possuir, manipular, abrir e dissecar" o objeto a ser conhecido. Mesmo quando todas essas formas de sadismo são sublimadas em curiosidade e desejo de conhecer, pode-se discernir sempre uma manifestação de violência, intrínseca a toda forma de conhecer e de aprender (ou apreender, capturar).

Melanie Klein observou crianças com inibições intelectuais e levantou a hipótese de que elas não haviam tolerado o seu sadismo infantil, reprimindo-o muito precocemente, pois foram invadidas de angústias muito intensas, ao passo que crianças mais "livremente sádicas" teriam tido tempo para sublimar sua violência, na forma de curiosidade e desejo de saber. Estas podiam aprender, brincar e criar. Sua prática terapêutica foi, então, desentranhar as fantasias sádicas do paciente inibido, e através da palavra e do setting analíticos, criar condições para que se transformassem em desejo de saber, libertando-o da inibição intelectual.

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"Melanie Klein"
Autor: Luís Claudio Figueiredo e Elisa Maria de Ulhôa Cintra
Editora: Publifolha
Páginas: 112
Quanto: R$ 15,10 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
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