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04/12/2010 - 18h05

Teste seu italiano com o poema "Trabalhar Cansa", de Cesare Pavese

da Livraria da Folha

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Divulgação
Livro marca estreia do italiano Cesare Pavese
Livro marca estreia do italiano Cesare Pavese

Nesta edição bilíngue (português e italiano), "Trabalhar Cansa" é o livro de estreia de Cesare Pavese (1908-1950), considerado um dos grandes escritores italianos e intelectual pertencente ao grupo formado na época da Segunda Guerra por Norberto Bobbio, Leone Ginzburg, Ellio Vittorini e Italo Calvino, entre outros.

No prêmio Jabuti 2010, Maurício Santana Dias (Cosac Naify) ficou em terceiro lugar na categoria tradução por conta dessa obra, que apresenta o texto original em italiano e, na página seguinte, em português. Dias também assina a introdução do livro.

Com um verso mais narrativo, aberto à prosa da vida cotidiana, Pavese retratou as noites insones das cidades, as figuras de proletários, camponeses, prostitutas, bandidos, bêbados e mendigos vivendo seu drama diário. No contexto da Itália fascista, o poeta marca um momento de virada, renovação e revitalização da poesia italiana, dominada então por tendências mais herméticas e de "poesia pura".

Depois dessa primeira experiência, Pavese passou a dedicar-se quase exclusivamente à prosa, como em "Diálogos com Leucó".

Leia o poema (em português e em italiano) que dá nome ao livro "Trabalhar Cansa"

*

Trabalhar cansa

Travessar uma rua fugindo de casa

só um menino o faria, mas este homem que passa

todo o dia nas ruas não é mais menino

e não foge de casa.

Em pleno verão,

até as praças se tornam vazias de tarde, deitadas

sob o sol que começa a cair, e este homem que chega

por um parque de plantas inúteis detém-se.

Vale a pena ser só para estar cada vez mais sozinho?

Simplesmente vagar, pois as praças e ruas

estão ermas. Forçoso é abordar uma mulher

e falar-lhe e fazê-la viver com você.

Do contrário, se fala sozinho. É por isso que às vezes

algum bêbado à noite dispara discursos

e repassa os projetos de toda sua vida.

Certamente não é esperando na praça deserta

que se encontram pessoas, mas quem anda nas ruas

se detém vez ou outra. Estivessem a dois

mesmo andando na rua, sua casa estaria

onde está a mulher. Valeria a pena.

Mas de noite essa praça retorna ao vazio

e este homem que passa não vê as fachadas

entre luzes inúteis nem ergue seus olhos:

sente só o ladrilho que outros homens fizeram

com mãos secas e duras, assim como as suas.

Não é justo deixar-se na praça deserta.

Com certeza há de andar pela rua a mulher

que, chamada, viria ajudar com a casa

Lavorare stanca

Traversare una strada per scappare di casa

lo fa solo un ragazzo, mas quest'uomo che gira

tutto il giorno le strade, non è piú un ragazzo

e non scappa di casa.

Ci sono d'estate

pomeriggi che fino le piazze son vuote, distese

sotto il sole che sta per calare, e quest'uomo, che giunge

per un viale d'inutili piante, si ferma.

Val la pena esser solo, per essere sempre piú solo?

Solamente girarle, le piazze e le strade

sono vuote. Bisogna fermare una donna

e parlarle e deciderla a vivere insieme.

Altrimenti, uno parla da solo. È per questo che a volte

c'è lo sbronzo notturno che attacca discorsi

e racconta i progetti di tutta la vita.

Non è certo attendendo nella piazza deserta

che s'incontra qualcuno, ma chi gira le strade

si sofferma ogni tanto. Se fossero in due,

anche andando per strada, la casa sarebbe

dove c'è quella donna e varrebbe la pena.

Nella notte la piazza ritorna deserta

e quest'uomo, che passa, non vede le case

tra le inutili luci, non leva piú gli occhi:

sente solo il selciato, che han fatto altri uomini

dalle mani indurite, como sono le sue.

Non è giusto restare sulla piazza deserta.

Ci sarà certamente quella donna per strada

che, pregata, vorrebbe dar mano alla casa.