da Livraria da Folha
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| Livro mostra como o homem criou o dinheiro e narra a saga da moeda |
O livro "A Aventura do Dinheiro" (Publifolha, 2009) proporciona ao leitor um passeio histórico pela trajetória financeira da humanidade.
Escrito pelo jornalista Oscar Pilagallo, o volume examina o valor, o poder e o significado da moeda para os homens e estabelece associações entre o dinheiro e a palavra, o dinheiro e Deus e o dinheiro e a consciência.
Dividido em sete capítulos, o autor aborda as origens do dinheiro, da antiguidade ao quase desaparecimento durante a Idade Média, do advento da classe média aos atuais ataques especulativos e o dinheiro eletrônico. Além disso, trata do possível desaparecimento do papel-moeda no futuro e da unificação monetária global.
O relato conta como personagens históricos lidaram com as finanças, entre eles Shakespeare, Molière, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Aristóteles, John Keines e Karl Marx. Leia, abaixo, um trecho do livro.
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Papai, o que é dinheiro?
O cristianismo e o judaísmo têm suas respostas; a psicanálise, a literatura e a filosofia também
"O que é dinheiro?" O pai repete devagar a pergunta abrupta, sem qualquer introdução ao assunto, como costumam ser as perguntas das crianças. Sua entonação é a de quem tenta avaliar até onde vai o interesse do garoto. "Dinheiro?", certifica-se de novo, ganhando tempo para dar uma resposta que não fique aquém nem vá além da curiosidade do filho. - É, o que é dinheiro, pai? - confirma o moleque.
O pai, um magnata, não quer dar uma resposta qualquer ao herdeiro. Reflete. Acha por bem evitar conceitos; não, nada de sistemas monetários, mercados de capitais, meios de pagamento, taxas de câmbio, juros. Muito indigesto. Começa a falar em ouro, prata, cobre, mas logo simplifica referindo-se a moedinhas, dessas que a gente carrega no bolso. Isso é dinheiro.
- Ah, isso eu sei. Não é isso que estou perguntando. O que eu quero saber é o que é dinheiro, pai, de verdade.
O pai é o senhor Dombey, personagem-título do romance Dombey and Son, do inglês Charles Dickens, publicado em meados do século 19. Quando a história começa, Dombey é rico e orgulhoso; perto do fim, está falido e humilhado. Descreve assim trajetória oposta à do autor, que conheceu a miséria na infância e tornou-se milionário, um dos poucos escritores até sua época a amealhar fortuna com a atividade literária. Aos 12 anos, Dickens viu-se obrigado a trabalhar numa fábrica, onde etiquetava latas de graxa, depois que o pai foi condenado e preso por não pagar dívidas.
Com o pouco que ganhava, ajudava nas despesas da família, a mãe e sete irmãos. A experiência marca-o profundamente e servirá de matéria-prima para um de seus romances mais conhecidos, David Copperfield, em que faz amarga referência ao "pai pródigo". Escritor popular da Era Vitoriana na Inglaterra - a própria rainha Vitória era sua leitora -, Dickens publicou quinze livros e, ao morrer, deixou herança equivalente, em dinheiro de hoje, a 10 milhões de dólares. Como experimentou os dois extremos da vida material, Dickens tinha toda a autoridade para falar sobre dinheiro.
Mais tarde, veremos se livrará Dombey do apuro em que o meteu com o filho. Por enquanto, mais importante para esta história é a pergunta: afinal, o que é mesmo dinheiro? Dinheiro é uma metáfora, ou seja, uma coisa que significa outra coisa. Não se costuma definir dinheiro nesses termos, mas, quando distanciamos o olhar daqueles familiares pedaços de papel desprovidos de valor intrínseco, a abordagem faz todo sentido, torna-se óbvia até, tão óbvia que provavelmente foi intuída pelo pirralho do senhor Dombey, ou ele não teria ficado insatisfeito com a primeira resposta. Não, dinheiro não é apenas moeda, cédula, cheque, ouro, título, saldo no banco. Essas são algumas formas de representá-lo (houve muitas ao longo da história, algumas mais originais e criativas, como se verá neste capítulo).
Dinheiro mesmo é aquilo que ele pode comprar; aquilo que custou ganhá-lo. "Um poema nos pede para acreditar que represente um rouxinol ou um corvo; uma moeda nos pede para acreditar que represente um saco de trigo ou algumas horas de trabalho", compara Kevin Jackson, autor do The Oxford Book of Money, compilação da prosa e da poesia sobre o dinheiro.
Palavras e moedas têm algo em comum: dependem de consenso e só circulam onde são conhecidas. Uma moeda de valor ignorado é tão inútil quanto uma palavra de sentido obscuro. Jackson leva mais longe os pontos em comum entre moeda e palavra ao notar que ambas correm o risco de ser desvalorizadas: a primeira pela inflação, a última pelo clichê. O valor de uma e o sentido da outra não são naturais nem absolutos, mas sociais e relativos, decorrentes de um processo de aceitação generalizada pelo uso e costume. De outro modo, teríamos moedas e palavras particulares, o que é uma ideia descabida; se não fazem sentido para a sociedade, simplesmente inexistem, ponto. A ideia de que o dinheiro resulta de convenções sociais é tão antiga que está presente na própria etimologia da palavra que significa "moeda cunhada": numisma, que vem do grego nômisma e não por acaso tem a mesma raiz do termo que designa lei, nomos. "O dinheiro tem esse nome porque existe não por natureza, mas pela lei, e porque está em nosso poder mudá-lo ou torná-lo inútil", escreveu Aristóteles em Ética a Nicômacos, livro dedicado ao filho e discípulo.
A própria noção do dinheiro pressupõe civilização, premissa cujo inverso também pode ser demonstrado: as civilizações costumam depender da existência de dinheiro, qualquer que seja sua representação. "O dinheiro é uma vasta metáfora social", afirmava o teórico das comunicações Marshall McLuhan, em texto da década de 60. Para o pensador canadense, o dinheiro é a linguagem que permite traduzir o trabalho de um agricultor no de um barbeiro, médico ou encanador, o que reforça os laços de interdependência numa comunidade. Nesse sentido, trata-se de um meio de troca ou de pagamento, definição que, com essa terminologia mais técnica, tem abrigo garantido em qualquer introdução à economia. Mas o dinheiro é mais do que isso.
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"A Aventura do Dinheiro (Edição de Bolso)"
Autor: Oscar Pilagallo
Editora: Publifolha
Páginas: 192
Quanto: R$ 9,99 (preço promocional)
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha
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