RENATO NOVIELLO
colaboração para a Livraria da Folha
Nos Estados Unidos e na Europa é comum que bandas de rock realizem concertos para marcar a passagem de ano. Ao contrário de festas que promovem a paz com shows melosos com Madonna ou U2, algumas cidades já receberam, em pleno 31 de dezembro, apresentações de Beatles, Queen, Ramones e Cramps, entre outros.
A cidade de Dale City, na Califórnia, abrigou um trio de peso para brindar o ano de 1992: Pearl Jam, Nirvana e Red Hot Chili Peppers tocaram juntos na tradicional arena Cow Palace, palco de eventos esportivos e de grandes shows. Na época, a casa abria as portas para o último grande movimento revolucionário e cultural do rock and roll: o grunge - mesmo com os grandes headliners da noite sendo os Chili Peppers. "Come As You Are: A História do Nirvana" e "Heavier Than Heaven: Mais Pesado que o Céu: Uma Biografia de Kurt Cobain", biografias que contam a história do Nirvana e do mítico Kurt Cobain, respectivamente, relatam um pouco do que aconteceu no concerto, além do contexto vivido pelo cantor e pela banda.
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| A trajetória singular de Kurt Cobain, o mítico líder do Nirvana. |
No apagar das luzes, o Pearl Jam era o primeiro a subir no palco. O grupo ainda não era tão conhecido assim, apesar de "Ten" ter sido lançado em agosto, cerca de um mês antes de "Nevermind". No meio do show, o grupo de Eddie Vedder se arriscou a tocar "Smells Like Teen Spirit", o hino da juventude da época. "Lembre-se que nós a tocamos primeiro!", brincou o vocalista.
Apesar de Kurt sempre sofrer de uma certa resistência ao Pearl Jam, decidiu embarcar numa turnê com a banda. "Eles evidentemente são marionetes de corporações que estão tentando fazer algo só para imitar o circuito alternativo - e nós mesmos estamos sendo colocados nessa categoria. Essas bandas de repente pararam de lavar o cabelo e começaram a usar camisas de flanela. Isso não tem sentido. Existem bandas partindo de Los Angeles para Seattle dizendo que nasceram aqui só para conseguirem contratos com gravadoras. Isso me ofende", disse Kurt durante uma entrevista para a "Flipside" em 1992.
Para a revista "Rolling Stone", em outubro de 1993, falou: "aprendi que hostilizar as pessoas não me faz bem nenhum. É uma pena, porque o problema entre Pearl Jam e Nirvana vem acontecendo há muito tempo e se tornou tão próximo de ser resolvido. Nunca houve rixa. Eu os hostilizei porque não gostava da banda. Não tinha conhecido Eddie ainda. Foi culpa minha. Eu deveria ter hostilizado a gravadora ao invés deles.
Eles foram marquetados, não que eles não quisessem, mas foram sem que eles percebessem que estavam sendo empurrados a essa coisa do grunge." Para a MTV, na mesma época, contou: "nunca tive uma briga com Eddie. É que eu sempre odiei a banda dele. Eu não o considerava uma pessoa que realmente gostava. Mas tivemos algumas conversas pelo telefone e ele é uma pessoa que eu gosto. Realmente gosto dele. Ele é uma pessoa muito bacana".
De volta ao show, o Nirvana entraria no palco logo depois do Pearl Jam. O trio tocou durante 45 minutos naquela noite, englobando 13 canções: "Drain You", "Aneurysm", "School", "Floyd The Barber", "Smells Like Teen Spirit", "About A Girl", "Sliver", "Polly", "Breed", "Come As You Are", "Lithium", "Dumb" e "Territorial Pissings". Kurt, com seus cabelos ensebados e pintados de ruivo e munido de duas guitarras Fender - uma Jaguar sunburst e uma Stratocaster preta, protagonizou uma sessão de quebradeira de instrumentos ao final do show. Não houve bis.
Depois de toda essa insanidade, foi a vez dos Chili Peppers subirem no palco. Era hora do público ouvir as grandes músicas do ótimo recém-lançado disco "Blood Sugar Sex Magik" e talvez mais algumas outras coisas da banda que estava na estrada há oito anos.
Só que o Nirvana já havia dado a última palavra.
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| Conheça a história da banda que tranformou o mundo da música |
"É isso aí, queria desejar a todo vocês um feliz Ano Novo. O ano agora é de eleição, isso significa votar no 'republicrata' que você escolher, seja lá qual for... espero que não seja o Bush, que significa um passo à direita. Expulsem todos os 'republicratas'! Ou ponha abaixo o edifício federal se ele deixar você com um gosto amargo na boa de qualquer jeito...", disse o baixista Krist Novoselic, que felizmente viu Clinton vencer a disputa meses depois.
Krist logo após começou a cantar a introdução de "Territorial Pissings", que consiste numa passagem da música "Get Together", dos Youngbloods. Começava a microfonia. "Feliz Ano Novo", disse Kurt. E só aí ele entrou com os acordes de "Territorial", a última música da noite cuja letra realiza um ataque às posturas machistas. Cobain berrava durante o refrão: "Gotta find a way, a better way" ("Tenho que achar uma saída, uma saída melhor"). Porque o público já havia encontrado, e bem antes da meia noite.
Em 31 de dezembro de 1990, o Nirvana já havia feito um show de Ano Novo, em Portland, no Estado do Oregon, juntamente com mais outras quatro bandas alternativas. Naquela ocasião, a casa noturna distribuiu champanhe para celebrar a festa. O público começou a jogar as garrafas na parede que ficava no fundo do palco, criando um gigantesco cobertor de vidro sobre o chão. Quando o Nirvana entrou em cena, Krist afastou os vidros e tirou os sapatos para tocar.
No último dia de 1993, a banda fez mais um show de Réveillon, em Oakland, na Califórnia. Desta vez o Nirvana era a estrela da noite e tocou 25 músicas por quase duas horas. As bandas Bobcat Goldthwait, Chokebore e Butthole Surfers, uma das favoritas de Cobain, participaram do evento. Faltando poucos minutos para a meia noite, Dave Grohl executou um solo de bateria. Cobain fez a contagem regressiva e depois a banda fez uma "jam" sem rumo. Assim o grupo entrou para 1994. E então Kurt se foi e nasceu Justin Bieber. Que ano terrível...
Abaixo, leia trechos extraídos de "Come As You Are: A História do Nirvana" e "Heavier Than Heaven: Mais Pesado que o Céu: Uma Biografia de Kurt Cobain".
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Logo depois do Natal, a banda saiu em uma curta turnê com o Pearl Jam e os Red Hot Chili Peppers, que eram a atração principal. Ninguém estava contente com o fato de o Nirvana abrir para os Peppers, mas eles já haviam se comprometido com isso durante o caos da turnê americana. De qualquer forma, o Nirvana roubou o show. Pelo simples motivo de que seu álbum tomara-se número seis muito rápido. E eles tinham um material sensacional - canções como "Lithium", "Teen Spirit" e "In Bloom". O melhor que os Chili Peppers podiam apresentar era um cover de "Higher Ground" de Stevie Wonder. O Pearl Jam estava só começando a tomar forma.
A turnê com os Chili Peppers foi o momento em que Chris finalmente admitiu a si mesmo que Kurt estava pegando pesado com a heroína. "Ele estava com uma aparência de merda", diz Chris. "Parecia uma assombração." Chris sabia que não podia fazer nada quanto a isso. "Apenas pensei, é a viagem dele, a vida dele, ele pode fazer o que quiser", diz. "Não se pode mudar ninguém ou passar sermão sobre moral ou qualquer coisa. O que vou fazer? Nada. Faço só a minha parte."
Todo mundo presumiu que Courtney havia feito Kurt usar heroína. "Todo mundo a estava culpando", diz Shelli. "Ela era o grande bode expiatório. Se ele não tivesse se envolvido com ela, ele teria se envolvido com outra pessoa e usado heroína. Essa é a real sobre o assunto. Era fácil culpá-la em primeiro lugar - e olhando para trás, foi isso que todo mundo fez. Eles ainda o fazem. Só porque ela é barulhenta, franca e tem seu próprio ponto de vista...".
Culpar Courtney encaixava-se no conveniente estereótipo da vaca dominadora e do panaca controlado. Em primeiro lugar, é quase inconcebível que alguém possa simplesmente convencer alguém a usar heroína - as pessoas que usam heroína querem usá-la. E a verdade é que Kurt estava usando heroína ocasionalmente já há anos; Courtney não usava há três anos. "[É] uma coisa tão tipicamente sexista e estúpida de se dizer, tão clássica", diz Kurt. "Cara, quando eu saí da turnê europeia, fiz o impossível para conseguir drogas todos os dias. Só eu."
Chris também estava lutando com seus próprios demônios. Depois de um show de Ano Novo no Cow Palace, em São Francisco, bêbado, ele bateu a cabeça em uma peça de aquecedor dependurada em uma passagem dos bastidores. Ele decidiu seguir na barca até onde pudesse.
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"Come As You Are: A História do Nirvana"
Autor: Michael Azerrad
Editora: Madras
Páginas: 398
Quanto: R$ 49,90
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
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O Nirvana terminou 1991 com o show da véspera de Ano-Novo no Cow Palace de San Francisco. O Pearl Jam abriu a noite com um trecho de "Smells Like Teen Spirit" e Eddie Vedder brincou: "Lembrem-se que nós a tocamos primeiro". Essa brincadeira era um reconhecimento de algo que todos ali sabiam: ao começar 1992, o Nirvana era a maior banda do mundo e "Teen Spirit", a maior canção. Keanu Reeves estava no concerto e tentou travar amizade com Kurt, que rejeitou os seus esforços. Mais tarde naquela noite, no hotel, Kurt e Courtney foram tão incomodados por outros hóspedes que puseram um aviso na porta: "Nada de Gente Famosa, por favor. Estamos trepando".
No momento em que o grupo chegou a Salem, no Oregon, para o último compromisso da excursão, Nevermind tinha vendas comprovadas de 2 milhões de cópias e estava vendendo a um ritmo cada vez mais acelerado. Para todo lado que Kurt se virava, alguém estava lhe pedindo algo - um contrato de patrocínio, uma entrevista, um autógrafo. Nos bastidores, Kurt captou de soslaio o olhar de Jeremy Wilson, vocalista e líder do Dharma Bums, uma banda de Portland que Kurt admirava. Wilson acenou para Kurt, sem querer interromper sua conversa com uma mulher que tentava convencê-lo a figurar num anúncio para encordoamento de guitarra. Quando Wilson se afastava, Kurt gritou "Jeremy!" e caiu nos braços de Wilson. Kurt não disse uma palavra, simplesmente se entregou ao abraço de urso de Wilson enquanto este repetia: "Vai ficar tudo bem". Kurt não estava chorando, mas não parecia estar longe disso. "Não foi só um breve abraço", lembra Wilson. "Ele ficou ali parado por trinta segundos inteiros." Finalmente, um dos organizadores agarrou Kurt e o arrastou para outra reunião.
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"Heavier Than Heaven: Mais Pesado que o Céu: Uma Biografia de Kurt Cobain"
Autor: Charles R. Cross
Editora: Globo
Páginas: 544
Quanto: R$ 49,00
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha