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| Segundo os autores, o programa é perfeito para a análise filosófica |
A série "Família Soprano" acompanha a história de Tony Soprano, um mafioso de Nova Jersey, suas dificuldades familiares e seus problemas com os negócios da "família". Segundo Peter Vernezze, Richard Greene e William Irwin, o seriado é perfeito para ser analisado filosoficamente.
"A Família Soprano e a Filosofia", publicado no Brasil pela editora Madras, traz ensaios que abordam da ética antiga à moralidade moderna, do propósito da arte à possibilidade do autoconhecimento.
Princípios do pensamento de Sun Tzu e Maquiavel são apresentados nos diálogos e nas ações de Tony. O mal é debatido na conversa entre Ralph e o padre Phill. A felicidade, o existencialismo e o niilismo também aparecem nos textos.
O livro é parte de "Cultura Popular e Filosofia", coleção que examina arte e entretenimentos contemporâneos, como "Os Simpsons e a Filosofia". A intenção dos autores é levar a filosofia de volta para o lugar onde Sócrates a queria: nas ruas, e disponível para todos.
Leia, abaixo, um trecho do exemplar.
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Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".
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O Bada-ser e o nada: melodrama assassino ou peça de moralidade?
AL GINI
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Segundo Susan Sontag, crítica de mídia, nós somos uma sociedade viciada em vídeo, e saturada de mídia. Vivemos em um mundo "ligado" e "sintonizado". De acordo com uma recente matéria no The New York Times, 90% das famílias americanas têm pelo menos uma televisão e 40% têm três ou mais. Além disso, o uso privado de televisão não se limita às nossas salas de estar. Fabricantes de carros, táxis e peruas começaram a oferecer ao público veículos com TV instalada no banco de trás em 1999, e de acordo com a Associação dos Fabricantes de Eletroeletrônicos, mais de 400 mil "unidades de vídeo móveis" foram instaladas em 2002. As TVs também já tomaram conta da vida pública. Bancos e supermercados têm aparelhos de TV nos guichês e até acompanhando as filas. Aeroportos, estradas de ferro, estações rodoviárias utilizam-nos em profusão, instalados por toda parte. E não podemos esquecer de que, onde quer que estejamos ou o que quer que façamos, é possível acessar nosso programa de televisão favorito também a partir de laptops ou usando DVD portátil.
O mago da mídia e autor de Amusing Ourselves to Death, Neil Postman, acredita que assistir televisão é a experiência cultural mais comum na América. Os televisores nas casas ficam ligados cerca de 7,8 horas por dia, ainda que ninguém assista a algo específico e com atenção; e o americano assiste em média - com atenção - mais de 4 horas à TV - por dia. Pelo que sugere Postman, a televisão é o principal meio de entretenimento, informação ou mero relaxamento para a maioria das pessoas.
O que disse mesmo Marshall McLuhan, "o meio é a mensagem" ou "o meio é a massagem"? De qualquer forma, o fato é que nós obtemos a maior parte de nossas informações por intermédio da mídia. (O filósofo francês André Glucksman vai mais longe que McLuhan. Para Glucksman, a mídia é "midiática" - o foco da realidade, aquilo que estrutura e delimita a realidade, e, por causa de sua penetrabilidade, a única realidade que conhecemos.) A mídia leva-nos às visões e aos sons do mundo. A mídia e suas mensagens se insinuam em nossa consciência em virtude de sua onipresença e repetição. Gostemos ou não, de Mr. Roger's Neighborhood a Dan Rahter, a
Seinfeld a Friends e Sex and the City, a TV bombardeia-nos com mensagens, maneiras, metáforas e modelos da realidade.
Minha tese é simples. No passado, muita gente aprendia suas primeiras lições sobre bons modos e moral assistindo ao programa Vila Sésamo: cooperar, jogar limpo, partilhar as coisas, não bater nas pessoas, pedir desculpa quando magoar alguém. Hoje, assistindo a A família Soprano, cerca de 11 milhões de telespectadores por episódio estão fazendo um curso avançado (com linguagem adulta, violência, nudez e cenas de sexo explícito) sobre o universo da ética mafiosa: O que é dever? O que é honra? O que é Omertà? Mas mais do que uma curiosa análise de um aberrante código ético - a justificativa tribal ou guerreira para assassinato, mendacidade, prostituição, infidelidade, extorsão e usura - a série é, em certo sentido, uma peça tradicional de moralidade. A família Soprano pode não ser uma arte culta, mas tampouco é uma ação barata, um thriller ou um melodrama de assassinato. Acho que é, isto sim, uma versão carregada de ação e parcialmente censurada de Esperando Godot, uma história sobre desespero existencial e, nas palavras de Victor Frankl, da "busca do homem por um sentido".
Bad Boys e reis dos piratas
Em um momento de magia, Francis Ford Coppola transformou completamente os antigos filmes de gângsteres, semipastelão, em filmes sérios que dão status mítico, metafísico e moral aos mafiosos italianos e outros caras espertos". Essa transformação, claro, foi cimentada em caráter permanente (brincadeira proposital) por Martin Scorcese. Antes de O Poderoso Chefão, os filmes sobre mafiosos eram geralmente, embora não exclusivamente, a respeito de homens maus, urbanos, não-italianos. Gângsteres com rosto irlandês, alemão, inglês ou o caucasiano comum do "dia-a-dia". E os astros desses filmes, diferentemente da maioria de A família Soprano, O Poderoso Chefão I, II, III e Os Bons Companheiros, eram tudo menos italianos; por exemplo, James Cagney, Humphrey Bogart, Edward G. Robinson e Pat O'Brian. Talvez esses antigos filmes de gângsteres fossem uma atualização urbana do caso de amor americano com o oeste bravio, e de nossa paixão por ação carregada do estilo de vida de cowboy.
O cinema americano já mostrou a vida do cowboy de diversas maneiras. O cowboy já foi retratado como uma figura solitária, o andarilho, sempre na estrada, vivendo sem compromisso ou raízes; como o tipo forte, quieto, que chega na cidade e a limpa de todos os homens maus, casa-se com a professora da escola local, e vive feliz para sempre; como o cavalariço bêbado, briguento, que trabalha muito e toca seu violão mais ainda; como o xerife solteiro e celibatário fazendo suas rondas pela cidade e cujo único interesse é pacificar toda e qualquer hostilidade no território. E também existem as aventuras daqueles que formam o contingente contrário ao xerife, os heróis fora-da-lei: Jesse James, Butch Cassidy e Sundance Kind, Billy the Kid. As histórias deles também encheram nossas telas e conquistaram nossos corações.
Há muito tempo amamos o bad boy durão, o vilão, tanto nos filmes quanto na literatura. Parece que somos atraídos por sua atitude de individualismo, desenvoltura, e por sua disposição para se arriscar, sua necessidade de experimentar, ser diferente. Ficamos deslumbrados por sua ousadia, coragem e tendência a ser ultrajante. Acho que, na verdade, temos inveja da habilidade deles para quebrar as convenções e - parafraseando Frank Sinatra - fazer as coisas do jeito deles.
Claro que a nossa paixão por esses "bad boys" e "reis piratas" tem limites. Não queremos nem somos atraídos, na ficção ou na realidade, a anti-heróis que sejam sádicos, serial killers, ou monstros. Jeffrey Dahmer e John Wayne Gacy podem evocar nossa curiosidade, mas sua conduta e comportamento são perversos demais e exagerados para que eles sejam qualificados como "adoráveis canalhas" ou sequer "vilões que nós gostamos de odiar". Os anti-heróis precisam ser ao mesmo tempo assustadores e amáveis, precisam encontrar um equilíbrio entre ser malvado e bom, duro e de coração mole, forte e compassivo. O criador de A família Soprano, David Chase, criou intencionalmente uma figura de anti-herói no personagem principal da série, "Tony" Soprano. Com seus 40 e poucos anos, Tony Soprano é o cara esperto da segunda geração. Embora ele diga aos vizinhos, aos professores de seus filhos e à Receita Federal que trabalha na administração de coleta de refugo, na verdade ele é o chefe da mais poderosa organização criminal em Nova Jersey. Tony gosta de seu trabalho e às vezes ama a vida, tanto profissional quanto pessoal - pelo menos, quando consegue manter tudo devidamente separado, equilibrado e sob controle. Ele gosta de um bom vinho, boa comida, bons charutos e um bom sexo - seja com sua goomah russa, ou a prima e melhor amiga desta (que teve uma amputação), ou ainda sua ninfeta vendedora de carros, ou uma rapidinha no Bada-Bing! ou, ocasionalmente, até com sua esposa. Em suas interações com a família, os amigos e colegas, ele é alternadamente bondoso e bruto, egoísta e sensível, lascivo e amável, fisicamente ameaçador e psicologicamente astuto. Como o anti-herói em Fear of Flying, de Erica Jon, o modo geral de Tony ver a vida é de um guerreiro-caçador alfa - "o mundo é um lugar de predadores, morda bocados grandes, coma mais rápido!"
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"A Família Soprano e a Filosofia"
Autores: Peter Vernezze, Richard Greene e William Irwin
Editora: Madras
Páginas: 224
Quanto: R$ 25,42 (preço promocional)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
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