da Livraria da Folha
Leia, abaixo, um trecho extraído de "Sobre Formigas e Cigarras" (Editora Objetiva, 2007), escrito por Antonio Palocci. O livro revela os bastidores do governo, as desavenças na cúpula do poder e a sua relação com Lula, Dilma, José Dirceu, Dulci, Gushiken e Mercadante.
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Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".
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Lula estivera em Ribeirão Preto - cidade de 550 mil habitantes, no interior de São Paulo, onde eu cumpria meu segundo mandato como prefeito, do qual me licenciara para coordenar a elaboração do programa de governo e, em seguida, a transição - para participar de uma inauguração. A festa marcava o início do funcionamento do novo sistema de tratamento de esgotos da cidade, um projeto de concessão de serviço público que iniciei na minha primeira gestão na prefeitura e concluí na segunda. Em seu discurso, Lula fez um apelo público para que eu renunciasse ao cargo e fosse trabalhar com ele no governo. Uma pesquisa feita por um instituto de opinião local indicava um forte apoio da população para que eu aceitasse o convite. Daí a alguns dias, sem ter a menor idéia do lugar que ocuparia no futuro governo, apresentei minha carta de renúncia ao cargo de prefeito de um dos municípios mais importantes do país.
| Divulgação |
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| Palocci fala da crise que culminou em sua queda na Fazenda |
Na reunião no Torto, o presidente eleito definiu os primeiros nomes para o ministério - o da Fazenda abriu a fila. No início do encontro, Aloizio Mercadante fez uma longa exposição para explicar por que não poderia trocar o Legislativo pelo Executivo. Ele sentia que precisava cumprir pelo menos um período do mandato recém-conquistado para, só então, se sentir em condições de aceitar um eventual convite para ir para o governo. Se dependesse só dele, escolheria permanecer no Senado. Deixou claro, no entanto, que não se furtaria a atender uma convocação do presidente da República.
Lula concordou com os argumentos de Mercadante e, na mesma hora, fez sua escolha:
- Palocci: é você! - ele anunciou, olhando-me nos olhos.
Já não cabiam mais firulas. Era pegar ou largar. A resposta veio em uma frase de apenas cinco palavras:
- OK, senhor presidente. Conte comigo.
Estava decidido. Era dezembro de 2002. Lula não quis anunciar os nomes naquele dia, pois preferia ter um quadro mais bem estruturado do que viria a ser o ministério para divulgar o primeiro bloco de nomes. Eu só não imaginei que o anúncio sobre a minha escolha seria feito de forma tão espontânea - como acabou acontecendo alguns dias depois, causando uma surpresa geral, e especialmente a mim mesmo, pela forma como tudo ocorreu.
Foi durante a viagem de Lula e alguns de seus colaboradores mais próximos aos Estados Unidos, atendendo a um convite do presidente George W. Bush, feito logo após a eleição. O presidente norte-americano pretendia conhecer pessoalmente o novo presidente do Brasil antes da posse e propôs um encontro oficial na Casa Branca. A reunião foi no dia 10 de dezembro, três semanas antes de Lula receber a faixa presidencial.
Ao deixar o gabinete de Bush, Lula concedeu uma concorrida entrevista coletiva a repórteres do mundo todo. José Dirceu, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, os senadores eleitos Aloizio Mercadante (PT-SP) e Marina Silva (PT-AC) e eu acompanhávamos atentamente as respostas do presidente eleito sobre os mais diferentes temas. A certa altura, Lula, como que cometendo um ato falho, apontou Marina Silva - militante do movimento ambiental da Amazônia - como sua futura ministra do Meio Ambiente. E apontou para mim, como seu futuro ministro da Fazenda.
Quase caí da cadeira. Precisei de alguns minutos, enquanto as palavras do presidente eram traduzidas para o inglês, para me recompor. Nada daquilo havia sido combinado. Na saída, os jornalistas formaram um verdadeiro corredor polonês para me aguardar atrás de uma declaração do futuro ministro da Fazenda do Brasil. Queriam saber as idéias do ministro sobre economia e, sobretudo, quais as primeiras medidas a serem tomadas pelo novo governo para enfrentar a crise econômica, bem como suas prioridades para os anos seguintes.
Saí sem conversar com os repórteres.
Assim que encontrei uma brecha, no compromisso seguinte, que era um encontro com o presidente do Banco Mundial, James D. Wolfenson, puxei Lula de lado:
- Presidente - eu disse a ele -, seu anúncio deixou a imprensa agitada. Mas não acho correto dar a minha primeira entrevista sobre a economia aqui nos Estados Unidos. Só que a imprensa está uma pressão só!
Lula dificilmente se abalava:
- Fique tranqüilo, Palocci - ele respondeu, seguro de si. - Por que você tem que falar? Simplesmente não fale...
Aprendi, então, uma entre as tantas lições que já tivera e as muitas que ainda haveria de ter nos anos seguintes, convivendo com aquele líder obstinado, dono de um carisma inconfundível e uma sabedoria política rara. Sim, de fato: por que mesmo eu teria que falar? Era só não falar.
Ao final do dia, me encontrei com Henrique Meirelles, ex-presidente mundial do Bank Boston e que acabara de se eleger deputado federal pelo PSDB. Antes de embarcar para os Estados Unidos, acertei com Lula que convidaria Meirelles para presidir o Banco Central. Aloizio Mercadante também participou dessa reunião e foi grande entusiasta da idéia. Conversei rapidamente com Henrique Meirelles por telefone e, como ele se encontrava em Nova York, combinou de me encontrar em Washington. Não adiantei a ele o assunto.
Meirelles chegou à casa do embaixador do Brasil nos Estados Unidos já no final da tarde. Respeitadíssimo no mercado financeiro internacional e eleito para a Câmara dos Deputados como o mais votado da história de Goiás, seu estado natal, ele agora cuidava de algumas questões particulares enquanto se preparava para assumir, dali a algumas semanas, o mandato.
Nem bem ele se acomodou na poltrona, eu fiz o convite:
- Meirelles - disse a ele, no mesmo tom pragmático do meu interlocutor -, o presidente Lula, com minha total concordância, quer você na presidência do Banco Central.
- Que surpresa! - foi a única reação dele, que fora de fato surpreendido. - Pensei que íamos apenas conversar sobre a política econômica.
- Não deixa de ser - ponderei - uma conversa sobre política econômica. Mas o fato é que precisamos de você.
- Mas eu terei que me licenciar do mandato, que nem assumi ainda?! - ele começou a calcular, dando sinais de que estava interessado em, pelo menos, considerar o convite.
- Não tenho certeza absoluta do que vou lhe dizer - respondi. - Mas acho que você terá é que renunciar ao mandato.
Na verdade, já estava certo disso. Mas não quis assustá-lo logo de cara.
Henrique Meirelles faria então uma pergunta aparentemente simples, mas que marcaria positivamente toda a política monetária do governo.
- E você acha que o presidente Lula nos dará autonomia para trabalhar? Você sabe que esta área é muito sensível.
- Eu penso que sim - respondi. - Mas sobre isso, teremos que falar diretamente com ele, que, por sinal, está aqui, bem no andar de cima. Contudo, acho que devemos chamá-lo só se você estiver pelo menos propenso a aceitar. Não ficaria bem ter de recusar o convite do presidente.
Ele percebeu a estocada. Não haveria tempo para pensar. A resposta teria que ser dada nos segundos seguintes. Meirelles não hesitou.
- Está bem, pode chamá-lo - concordou, disposto a aceitar a incumbência.
Lula desceu e foi muito simpático com Henrique Meirelles. Garantiu a ele que teria a autonomia necessária para conduzir a política monetária. A palavra de Lula sobre a garantia de autonomia foi simples e direta, sem rodeios, e teve um grande valor durante todo o governo. Agradeceu ao futuro colaborador por ter concordado em sacrificar tão precocemente o mandato conquistado nas urnas.
- Somos dois, Meirelles - eu disse, procurando amenizar seu conflito íntimo e o sentimento de perda que, em geral, se dá em ocasiões como esta. - Eu mesmo acabo de renunciar à prefeitura da minha querida Ribeirão Preto.
Meirelles foi extremamente pragmático:
- E vocês acham que eu devo me desfiliar do PSDB? Lula procurou deixá-lo à vontade.
- Meirelles, estamos convidando você sabendo que é do PSDB. Nós confiamos em você. Se você vai ficar ou deixar o seu partido, esta é uma questão que só você pode resolver. Mas não se precipite. Volte ao Brasil, durma sobre o assunto e depois, com calma, decida o que achar melhor.
Ao desembarcar no Brasil, o presidente fez o anúncio oficial dos dois primeiros nomes para a área econômica do seu governo. Era uma tarde ensolarada de dezembro e a Granja do Torto estava, mais uma vez, tomada por jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas.
Meirelles e eu aplicamos, ali, a primeira dose oficial de maracujina para aplacar os ânimos do mercado.
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"Sobre Formigas e Cigarras"
Autor: Antonio Palocci
Editora: Objetiva
Páginas: 214
Quanto: R$ 33,90 (preço promocional)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
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