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20/07/2011 - 17h00

Após 12 anos, autor reescreve best-seller de história

FABIO ANDRIGHETTO
da Livraria da Folha

Divulgação
Aydano Roriz, historiador e autor de "O Fundador"
Aydano Roriz, historiador e autor de "O Fundador"

Concluído em 1999, "O Fundador" foi publicado e republicado diversas vezes no Brasil e em Portugal. Convidado a revisar o texto para uma nova edição brasileira, Aydano Roriz reescreveu parte do livro.

O romance histórico relata a trajetória de Tomé de Souza, Caramuru e Garcia d'Avila, homens ajudaram a fundar a primeira capital do Brasil.

Nesta entrevista à Livraria da Folha, Aydano fala sobre inserção de novos elementos à obra e relata as diferenças e as semelhanças entre o público brasileiro e lusitano.

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Livraria - A nova edição de "O Fundador" sofreu muitas modificações?

Aydano Roriz - "O Fundador" foi o meu segundo romance. Os originais... veja você!... datam do século passado. Depois dele escrevi outros cinco. Todos tendo como pano de fundo a história do Brasil, de Portugal, da Espanha ou da Holanda. Como pesquiso muito, e não apenas em livros e documentos, mas também em campo, volta e meia me deparo com dados interessantes para romances já publicados. Daí, quando me pediram que revisasse "O Fundador" para lançamento de uma nova edição brasileira, reescrevi boa parte do livro. O enredo e os personagens são os mesmos. O que mudam são os detalhes. Tipo remake de filme. A edição mais recente, costuma ser mais bem elaborada.

Em um determinado momento histórico, do início da colonização no Brasil até a volta de dom Pedro para Portugal, muitos personagens transitam entre os dois países. Isso proporciona alguma empatia nos leitores lusitanos e brasileiros?

Verdade. E não apenas até a volta de dom Pedro para Portugal. Os portugueses têm genuína curiosidade sobre a história do Brasil. E são leitores ávidos. Com toda a crise econômica instalada em Portugal faz quase três anos, um dos raríssimos itens de consumo que não sofreu queda de venda foram os livros. Em média, cada português lê quase 25 vezes mais que um brasileiro. Admirável, não é?

Divulgação
As venturas e desventuras de Tomé de Sousa, Caramuru e Garcia d'Ávila
Nova edição totalmente revisada, e até reescrita, é lançada no Brasil

Existe diferença entre o "favorito" dos dois públicos?

Em Portugal, os leitores vibram mais com os personagens portugueses. Em particular, quando envolvidos em grandes feitos. Parece-me natural. Já o leitor brasileiro é mais, por assim dizer, cosmopolita. Observe. Há anos, anos e anos, no ranking da revista "Veja" de livros mais vendidos, a predominância de autores estrangeiros é esmagadora. Por quê? Será que não existem bons autores no Brasil? Claro que existem. Centenas. Milhares, talvez. Mas os críticos literários e a imprensa dão muito maior exposição a autores estrangeiros. Vai ver, continuam acreditando que "santo de casa não faz milagre". E como são os formadores de opinião... Contudo, quando o leitor brasileiro descobre um romance histórico sobre o Brasil, entusiasma-se de verdade. Não raro, até se dá ao trabalho de escreve para o autor sugerindo temas. Ótimos temas. Afinal de contas, a história do Brasil é riquíssima e bem pouco explorada na literatura.

Qual o seu personagem histórico favorito?

Em "O Fundador", Caramuru. Um malandro português que naufragou na Bahia ainda jovem, enturmou-se com os índios, prestou serviço a corsários e contrabandistas, sobretudo franceses. Andou pela França, inclusive. Já contava mais de 70 anos quanto Tomé de Sousa foi mandado fundar na Bahia a primeira capital do Brasil. De tão famoso que era, o rei de Portugal até cuidou de enviar, por antecipação, uma carta para Caramuru pedindo o apoio dele para Tomé de Sousa. Bonachão e irreverente, sábio-inculto, mas homem de invejável caráter, sem Caramuru a história talvez tivesse sido bem outra.

Algum deles o surpreendeu?

Garcia d'Ávila. Um menino órfão de cidade de Ávila, na Espanha, trazido ao Brasil como criado pessoal de Tomé de Sousa. Chegou à Bahia sem nada de seu. Engenhoso, prestativo, discreto, trabalhador incansável, foi possivelmente o primeiro "self-made man" do Brasil. A partir da compra de duas vacas, tornou-se riquíssimo. O maior latifundiário que se tem notícia, e dono de tantas cabeças de gado que nem ele sabia quantas. A dinastia que fundou, ao se casar com uma das filhas de Caramuru, deu origem à chamada Casa da Torre. Uma espécie de feudo, com direito até a castelo, cujas ruínas ainda podem ser visitadas na Praia do Forte, Costa dos Coqueiros, na Bahia. Seus sucessores ganharam status de nobreza e, ainda hoje, existem descendentes diretos de Garcia d'Ávila. Um deles, o doutor Christovão de Ávila, residente no Rio de Janeiro, mantém um centro cultural e de pesquisas para preservar a memória da família.

Existe vantagem em narrar a história por meio de romance?

Sou 100% suspeito, mas penso ser mais agradável e divertido aprender a história por intermédio de um romance. Foram grandes romancistas históricos, como Jean Plaidy, Maurice Druon, James Michener, James Clavell e outros, que me despertaram o interesse pela história. E para não ser incoerente com o que falei sobre a preferência dos brasileiros por autores estrangeiros, devo dizer que no Brasil existem excelentes autores de... não sei se existe tal classificação... eu chamo de "ensaios históricos". Laurentino Gomes e Eduardo Bueno, são ótimos exemplos, quando se fala da história do Brasil até a Proclamação da República. Fernando Moraes e Ruy Castro, referências obrigatórias na história brasileira mais recente. Agora, romancistas históricos, propriamente ditos, brasileiros, afora Érico Veríssimo com a saga "O Tempo e o Vento", só consigo me lembrar de dois. Thales Guaracy, com "O Homem que Falava com Deus", e José Roberto Torrero, autor de "O Chalaça". Desculpa. Divaguei. A sua pergunta era sobre a vantagem de romances históricos. Vejamos. Qual a diferença entre o que eu chamo "ensaio histórico" e romance histórico? Simplificando, um ensaio seria, digamos, uma grandiosa reportagem. Já o romance histórico é um misto de história e ficção. Por exemplo. É claro que eu não estava presente quando se desenrola a história de "O Fundador" ou de qualquer outro dos meus romances. Mas me esforçando para conhecer profundamente aqueles personagens e seus hábitos, visitando os cenários e me aprofundando nos fatos históricos, consigo recriar a época e até inventar diálogos. Isso, acredito, torna a leitura mais leve e envolvente.

Como você vê os livros "politicamente incorretos"?

Não considero que existam livros "politicamente incorretos". Aliás, acho essa história de politicamente incorreto uma forma disfarçada de censura. E toda censura à informação, às artes ou às liberdades individuais, me parece altamente censurável.

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"O Fundador"
Autor: Aydano Roriz
Editora: Europa
Páginas: 384
Quanto: R$ 35,00 (preço promocional *)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

 
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