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27/09/2011 - 08h00

"Cartas a uma Jovem Psicanalista" revela lado humano da profissão

MARCELO JUCÁ
da Livraria da Folha

Divulgação
Obra faz parte da conceituada coleção "Estudos",da Perspectiva
Obra faz parte da conceituada coleção "Estudos",da Perspectiva

Dúvidas da profissão, transferência, narcisismo, modos de operar a teoria na prática e como confrontar casos graves de neurose e psicose. Esses são alguns dos temas que perpassam as páginas de "Cartas a uma Jovem Psicanalista" (Perspectiva).

O texto calmo e convidativo do brasileiro Heitor O´Dwyer de Macedo apresenta a psicanálise de uma forma que foge de jargões técnicos e busca, à medida do possível, falar sobre teorias dos principais nomes da área, de Freud à Lacan, dos sintomas atuais que agridem a sociedade e como garantir a tranquilidade aos pacientes nos processos de análise.

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A "jovem psicanalista" do título é uma personagem ficcional, naturalmente, mas os conteúdos das cartas de Heitor são aqueles que qualquer interessado no funcionamento da mente humana gostariam de receber. Seu papel, nesse caso, é como o de um tutor, que responde as principais questões e medos de um profissional que se inicia na carreira. Tanto pela experiência própria da clínica, ou pelos ensinamentos que teve com os seus tutores, é admirável a capacidade do autor de esclarecer os assuntos, sugerir caminhos e acalmar seu correspondente.

Heitor radicou-se na França para concentrar seus estudos, e no processo teve a oportunidade de trabalhar e estudar com Françoise Dolto, e, atualmente, destaca-se como um dos principais nomes em atividade naquele país. Sua obra foi elogiada pelos colegas de profissão e virou referência para as novas turmas.

Em entrevista à Livraria da Folha, ele comenta um pouco sobre seu livro, o papel da psicanálise na mídia e dos sentimentos que aguarda dos leitores brasileiros.

Confira.

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Livraria da Folha - No Brasil, percebemos um momento curioso de retorno à psicanálise, tanto na mídia com opinião de profissionais quanto nas universidades e uma boa safra de livros publicados, de autores estrangeiros e nacionais. Na contramão disso, também enxerga-se em outro plano o interesse pela neurociência e a popularização de remédios. Como analisa o momento da psicanálise a partir da França, atualmente, um dos grandes centros do mundo?

Heitor O´Dwyer de Macedo - Freud sempre foi implacável na sua afirmação que a psicanálise não pertence ao campo da medicina. Na França este distinção permitiu à psiquiatria integrar no seu encontro com os pacientes psicóticos a teoria freudiana. Isto fez da psiquiatria francesa a melhor do mundo - entre 1945 e os finais dos anos oitenta. Os grandes avanços realizados pela neurociência devem ser saudados por aquilo que são : uma contribuição gigantesca no conhecimento do funcionamento do cérebro. Quanto à tentativa cientista de reduzir os sentimentos e o sofrimento humano às moléculas - que é a tendência na França de hoje - isto nada mais é do que a retomada de um delírio que já existia no século XIX e que encontrou no nazismo a sua expressão racista e ideológica cujos resultados trágicos constituem a maior catástrofe na historia da humanidade.

Seu livro "Cartas a uma jovem psicanalista" tem um texto elegante e até romanceado. Em sua introdução, cita a influência de Rilke em sua feitura. Acredita que um assunto, muitas vezes complicado, como a psicanálise precise de mais textos de "cartas" e "diários" para descomplicar um pouco as coisas? Para chegar mais proximo ao leitor de hoje que não tem a tradição de estudos dos tempos de Freud, por exemplo?

O livro de Rilke me serviu como modelo de enunciação. A forma de cartas dirigidas a uma jovem psicanalista permitia que eu me livrasse do discurso universitário, discurso que destrói a psicanálise. Mas a relação da psicanálise com a literatura é um caso de amor paixão. Freud era um grande leitor, dos clássicos e dos contemporâneos, conhecedor profundo de Shakespeare e de Cervantes (aprendeu espanhol para ler Don Quixote no original). Foi próximo dos grandes escritores e poetas de seu tempo. E a sua leitura de Sófocles, como sabemos, teve consequências radicais na instituição da cultura.

Freud ganhou apenas um prêmio durante sua vida : o prêmio Goethe, distinção máxima na literatura alemã, e que celebrava a força e a clareza de seu estilo. Sem dúvida alguma, os textos de Freud sobre psicanálise são legíveis para qualquer pessoa que tente pensar sua vida, que tente ser sujeito der sua existência. Tal clareza na exposição era também uma necessidade: demonstrar que a psicanálise não era uma prática esotérica, mas sim um instrumento capaz de aumentar a nossa força de presença aos nossos próprios sentimentos, e a força de nossa presença no mundo.

Ora, tal clareza nas formulações da descoberta do inconsciente é fundamental na clínica, nas interpretações propostas ao paciente. Cada cura é uma experiência onde cada paciente redescobre para si mesmo, e de maneira absolutamente singular, os processos inconscientes até então desconhecidos. A psicanálise não escapou ao perigo do dogmatismo que corre qualquer atividade de pesquisa que constrói um conjunto doutrinal. E eu estou convencido que a revitalização da psicanálise depende, em grande parte, que os psicanalistas voltem a escrever com as mesma preocupação que orienta o diálogo com seus clientes : a de encontrar uma harmonia entre sua inteligência da experiência e o seu cuidado de não ferir a sensibilidade do paciente - o que se chama o tato. (A interpretação psicanalítica é uma prática poética.) Quando a procura desta harmonia se perde, a psicanálise, para parafrasear Marx, passa a ser simplesmente um meio de explicar o funcionamento psíquico ao invés de transformá-lo.

Um dos méritos de seu livro é tratar de um assunto dos mais misteriosos da psicanálise, a própria sessão, as técnicas, manejos e anseios do profissional frente a seu paciente. Os conselhos ali dados partem todos de sua experiência como clínico?

O pintor Renoir dizia : fiz este desenho em cinco minutos e para isto me foram necessários quarenta anos. O trabalho clínico, como todo trabalho de pesquisa e de criação, implica uma exigência constante. O quê me interessa atualmente é transmitir aos jovens que começam a praticar um exemplo de como um psicanalista forja suas ferramentas conceituais viajando entre a teoria, a clínica e a sua experiência de vida.

A psicanálise proporciona esta integração rara entre o trabalho e a experiência existencial - integração que os artistas sempre viveram. È por esta razão que a prática da psicanálise engendra necessariamente uma ética de presença ao mundo - condição para que a realidade do mundo esteja no espaço da cura. (No meu livro a questão ética ocupa um espaço importante)

O livro foi muito bem recebido na França, país com enorme tradição psicanalítica. Como entende a posição do Brasil, dos profissionais, estudiosos e do público geral com a chegada de sua obra? Ele adiciona em que sentido?

Faz pouco tempo que Cartas a uma jovem psicanalista foi publicado no Brasil. Espero ardentemente que o livro contribua à reflexão dos colegas brasileiros e aguardo o retorno que certamente me farão.

Há uma ponte, um reconhecimento do trabalho psicanalítico desenvolvido por aqui por parte dos analistas franceses e europeus? Como anda esse diálogo?

O diálogo entre os psicanalistas brasileiros e franceses depende, evidentemente, dos agentes culturais. Na época onde as associações de psicanalistas na França formavam psicanalistas, hoje elas apenas produzem alunos, este intercâmbio foi denso e fecundo. Eu mesmo realizei em 1986 um encontro entre psicanalistas franceses que cuidavam de psicóticos (Françoise Dolto, Piera Aulagnier, Nathalie Zaltzmann, Pierre Delaunay, Radmila Zigouris, entre outros) e psicanalistas latino-americanos que haviam trabalhado durante os regimes de terror de estado no Brasil, Argentina e Uruguai (Hélio Pellegrino, Jurandir Freire Costa, Diego Garcia Reinoso, Ricardo Ileyassof, entre outros). Este encontro produziu um aparelho conceitual para pensar a questão do terror até então inexistente na teoria. Os trabalhos deste encontro foram publicados em livro até agora inédito no Brasil : Le psychanalyste sous la Terreur. ( O psicanalista sob o terror).

Hoje em dia este intercâmbio é completamente dependente dos acordos entre universidades ( que possuem fundos para pagar viajem, e, por vezes, até hospedagem.) Tal dependência limita consideravelmente a qualidade dos convidados - a grande maioria dos clínicos não pertencem ao quadro universitário. È uma pena que os franceses não beneficiem do trabalho fecundo que produzem, por exemplo, Renato Mezan ou Jurandir Freire Costa. E que, os brasileiros ainda não conheçam, por exemplo, Françoise Davoine, Piere Delaunay,Patrick Chemla, Annie Topalov.

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"Cartas a uma Jovem Psicanalista"
Autor: Heitor O´Dwyer de Macedo
Editora: Perspectiva
Páginas: 344
Quanto: R$ 51,00 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

*Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Promoção não cumulativa com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o preço apresentado na página do produto.

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"Cartas a um Jovem", Contardo Calligaris
"Cartas a um Jovem", de Contardo Calligaris
 
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