da Livraria da Folha
| Reprodução |
|
| Livros reúnem os mais sórdidos detalhes da história do punk mundial |
Dividido em duas partes e publicado em edição de bolso pela L&PM, "Mate-me, Por Favor: Uma História Sem Censura do Punk" conta a história do punk, das origens nos anos 1960, passando pela chegada ao Reino Unido, até a sua "morte" ser decretada.
A obra reúne entrevistas com artistas como Iggy Pop, Patti Smith, Dee Dee e Joey Ramone, Debbie Harry, Nico, Wayne Kramer, Danny Fields, Richard Hell e Malcolm MacLaren.
Escrito por Legs McNeil --jornalista que batizou o movimento punk-- e Gillian McCain, o texto faz o leitor reviver os dias de glória do Velvet Underground, Ramones, MC5, Stooges, New York Dolls, Television e Patti Smith Group.
Leia um trecho do segundo volume.
Siga a Livraria da Folha no Twitter
Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".
*
Blitzkrieg Bop
Dee Dee Ramone: O primeiro álbum dos Ramones levou apenas dois dias pra ficar pronto. A gente tinha feito umas outras gravações, umas demo-tapes com Craig Leon e Marty Thau, mas não deu certo porque na volta do estúdio pra casa estávamos muito chapados - estávamos dirigindo por uma zona cheia de mato, nos perdemos e vimos partes de corpos humanos ao longo da estrada. Tipo um braço aqui, uma cabeça lá. Todo mundo viu. Ficamos felizes de voltar pra Nova York depois disto. Então decidimos fazer o álbum num estúdio dentro do Radio City Music Hall.
Arturo Vega: Quando a gente estava gravando o primeiro álbum no estúdio dentro do Radio City Music Hall, eu sabia me achar por lá porque costumava entregar filmes lá nos tempos em que era um mensageiro. Eu conhecia todas as passagens secretas e escadas; era maravilhoso caminhar sozinho nas passarelas em cima do palco. Então me esgueirava pra dentro do camarim dos Rockettes - os dançarinos, sabe, e roubava os trajes deles. Peguei umas calças maravilhosas de lamê dourado, uma capa e umas coisas maravilhosas de cetim. Foi perfeito.
Pensei que os Ramones fossem ficar no estúdio por um tempo, mas depois de três dias eles disseram: "Fizemos!"
Fiquei imaginando: "Oh, foi fácil."
Joey Ramone: A gente fez o álbum em uma semana e gastou só seis mil e quatrocentos dólares - todo mundo ficou surpreso. Naquele tempo, as pessoas não davam muita bola pra dinheiro. Havia um monte de dinheiro na parada. Dinheiro em circulação pra coisas absurdas. O dinheiro ainda não estava curto - alguns álbuns estavam custando meio milhão de dólares pra serem feitos e levando dois ou três anos pra serem gravados, como Fleetwood Mac e outros. Fazer um álbum em uma semana e produzi-lo por seis mil e quatrocentos dólares era inédito, ainda mais um álbum que de fato mudou o mundo. Ele inaugurou o punk rock e deu início àquela coisa toda - e também nos lançou.
Dee Dee Ramone: Na primeira vez que saí da cidade com os Ramones fomos pra algum lugar medonho na Nova Inglaterra. Era na praia, um grande salão muito do vagabundo e fedendo a cerveja chamado Frolics. Não consegui descolar droga naquela manhã e fui ficando mal. Era inverno e estava frio, e depois do show a gente foi pra um motel pulguento.
Era repugnante. Já estive nuns lugares ruins, mas aquele hotel... Eu estava ficando doente. Estava surtando pela falta de droga, então peguei um cobertor e cobri a pia com ele e deixei a água correndo. Sentei embaixo do cobertor, embaixo da pia, e tentei fazer de conta que estava sentando embaixo de uma cachoeira pra esquecer de onde eu realmente estava. A gente estava louco pra dar o fora de lá, mas ainda tinha que ficar por mais três dias. No terceiro dia eu estava um caco, e aquela noite foi tipo a noite mais fria que já passei. No instante em que paramos de tocar, apareceu um tira que mostrou uma arma enorme e disse: "É melhor vocês tocarem mais!"
Na manhã seguinte, a gente ligou pra Danny Fields e disse: "Danny, a gente nunca mais vai fazer isso!" Ele disse: "Bem, vocês vão tocar em tal lugar hoje à noite e naquele outro amanhã..."
Danny Fields: Linda Stein, a mulher de Seymour Stein, que era minha partner como empresária dos Ramones, tinha uma visão muito internacional. Ela estava, eu diria, hipnotizada, e com toda a razão, pelas possibilidades lucrativas abertas aos Ramones no mercado europeu.
Desde o começo, ela acertadamente percebeu que seria mais fácil pra gente achar um bom mercado no Reino Unido. Então, desde o começo, tentamos chegar na Inglaterra, especialmente à medida que foi ficando cada vez menos provável que conseguíssemos ir além de Nova Jersey, do outro lado do rio.
Nosso primeiro show dos Ramones na Inglaterra foi em 4 de julho de 1976, o fim de semana do bicentenário, o que achei apropriado metaforicamente, porque era o segundo centenário de nossa libertação da Grã-Bretanha e estávamos trazendo pra Grã-Bretanha esse presente que iria despedaçar pra sempre as sensibilidades deles.
Dee Dee Ramone: Quando a gente foi pra Inglaterra as coisas aconteceram muito rápido, foi inacreditável. A gravadora nos liberou o serviço de quarto, e pedi tantas garrafas de scotch que minha conta chegou a setecentos dólares em dois dias. Quando eles viram isso, disseram: "A gente pensou que vocês iam pedir uns sanduíches de queijo e Coca-Cola." Não imaginei que pudesse me sair melhor. Me senti um grande rock star. Achei que fosse isto que esperavam que eu fizesse.
Leia mais
Especial
Livraria