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"O Brasil ficou muito caro", diz líder do mercado de tratores
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RAUL JUSTE LORES
DE NOVA YORK
O início da construção de uma fábrica na Argentina e a compra de 50% de outra na Argélia são os maiores sinais de que para a AGCO, líder no mercado de tratores no Brasil, das marcas Massey Fergusson e Valtra, o país já não oferece mais as vantagens competitivas para exportar a outros emergentes.
"O dólar enfraqueceu e o Brasil ficou muito caro, comparado com outros mercados", disse à Folha o presidente da multinacional, o alemão Martin Richenhagen, 59.
Ele diz que o mercado doméstico brasileiro ainda é "muito bom" e que a agropecuária é "a coluna vertebral da economia brasileira, o setor que não desacelera", mas se preocupa com os custos logísticos.
Richenhagen, que começou a trabalhar colhendo batatas no sul da Alemanha aos 12 anos e foi técnico da seleção hípica alemã na Olimpíada de Pequim, também falou de seus planos na África.
| Edson Silva - 2.mai.12/Folhapress | ||
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| Trator da marca Massey Fergusson em exposição na Agrishow, em Ribeirão Preto (SP) |
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Folha - A desaceleração brasileira mudou os planos da AGCO?
Martin Richenhagen - A colheita de grãos não para de crescer no Brasil e a agropecuária é coluna vertebral da economia brasileira. Para nós, não há desaceleração. Mas costumávamos exportar muito mais das fábricas brasileiras, e o Brasil está perdendo competitividade. Tratores baratos da China e da Índia também estão sendo vendidos na América Latina.
Isso deve piorar com a política de mais dólares no mercado do Banco Central americano?
A cotação do real influi, mas há vários outros problemas. Os impostos sobem, a energia elétrica é cara, a infraestrutura não é boa e os mercados consumidores estão longe de Mato Grosso, então estradas, portos, ferrovias são um problema. Os salários eram muito baixos, melhoraram e isso é bom, mas agora, pela valorização da moeda, ficaram menos competitivos.
Há risco de fechar fábricas ou demitir funcionários [4500 no Brasil]?
Não, porque o mercado doméstico cresceu muito e alguns países vizinhos estão crescendo também. Mas se está perdendo uma oportunidade internacional de crescimento por perda de competitividade [dos 38 mil tratores anuais fabricados no Brasil pela empresa, 50% costumavam ser exportados; hoje só 15%].
Foi por isso que a Agco decidiu abrir fábrica na Argentina?
A Argentina não é nem mais, nem menos protecionista que o Brasil. Ela aprendeu com o Brasil o protecionismo e isso afeta as fábricas brasileiras [até 2008, a Argentina era o maior mercado para tratores brasileiros da empresa, importando 2500 unidades; ano passado, com barreiras comerciais, foram 400; a fábrica argentina da Agco será inaugurada no ano que vem]. Os custos argentinos são bem mais baratos.
A desaceleração chinesa o preocupa?
O crescimento percentual do PIB chinês é menor, mas ele cresce sobre uma base muito maior, da segunda maior economia mundial. O país ainda está crescendo muito e deve crescer muito mais ainda.
Vocês estão abrindo fábricas-padrão na África. Como é essa experiência?
60% das reservas de terras agriculturáveis no mundo estão na África. Desse total, só 20% é cultivada hoje em dia. A produção vai dobrar em 20 anos e é um mercado muito atraente para nós. Há muitos problemas de infraestrutura, de instabilidade política e corrupção, tudo que o Brasil soube resolver bem, então acreditamos na África. Chegamos na China em 1960, sabemos olhar para o futuro.
Vocês administram essas fazendas?
A ideia é que elas sejam centros de treinamento para fazendeiros e agricultores africanos, que ensinem mecanismos mais modernos e eficientes quanto à energia e consumo. Abrimos já três pilotos em Gana, Marrocos e Zâmbia, no ano passado. Exportávamos muitos tratores brasileiros para a África, mas eles ficaram caros. [em 2008, a Agco exportou 3300 tratores brasileiros para a África; em 2012, serão 1700].
Por isso compramos 50% de uma fábrica na Argélia, para abastecer esse mercado. Mas o design continuará a ser o brasileiro, desenvolvido na nossa fábrica de Canoas (RS).
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