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Cultura da avaliação pessoal matou senso coletivo do trabalho

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Tarefas impossíveis, prazos irreais, mudanças de função, demissões inesperadas. A obsessão pelo cumprimento do plano de metas consome todos os escalões da companhia. Entre as baias e corredores, o que mais se observa são equipes desestruturadas, funcionários estressados, exauridos, deprimidos.

Sobre um cenário corporativo não tão incomum nos dias de hoje o francês Marin Ledun escreveu o romance policial "No Limite", que lhe valeu algumas distinções no seu país e acaba de ser lançado no Brasil.

A narrativa foi concebida a partir da própria experiência do autor, após uma passagem de sete anos pela France Télécom, de 2000 a 2007, como pesquisador de sociologia do trabalho. Em 2006, após um processo de privatização, a companhia adotou uma ousada estratégia de redução de custos. Seguiu-se uma onda de suicídios que pelos seis anos seguintes contabilizaria cerca de 60 casos.

No epicentro da ficção criada por Ledun está a médica Carole Matthieu, cuja função é tratar dos problemas psíquicos dos funcionários de uma empresa de call center. Ela decide assassinar seus pacientes como forma de chamar a atenção pública.

Em entrevista à Folha, concedida por e-mail, Ledun fala sobre a obra e critica as relações do mundo corporativo atual. Leia abaixo os principais trechos.

*

Folha - Por que escolheu uma médica como personagem principal?

Marin Ledun - Porque ela cuida dos sofrimentos das pessoas e se encontra em uma situação privilegiada para refletir sobre o mundo empresarial. Hoje, pouca gente fala abertamente sobre as empresas. O que predomina é a maneira muito clínica, muito fria, de pensar os homens e as mulheres como números, dados, como uma soma de "sintomas".

E há sintomas muito graves, a partir dos quais se considera que o empregado não é mais rentável. Tudo precisa entrar nas planilhas, e é contra esse contexto que minha personagem se insurge.

Que conclusões o sr. tirou de sua passagem pela France Télécom?

O gerenciamento por meio de objetivos financeiros se tornou uma lei quase evangélica, e o caso da France Télécom ilustra isso. A medição dos resultados se tornou mais importante que a qualificação profissional e a qualidade dos produtos.

Isso não deixa de dar vazão a um sentimento de injustiça, de não reconhecimento ou até de absurdo, os quais levam ao cinismo, ao distanciamento, à competição ou ao sofrimento.

Divulgação
O escritor francês Marin Ledun, autor do romance policial "No Limite", que coloca em evidência as pressões do mundo corporativo.
O escritor francês Marin Ledun, autor do romance policial "No Limite", que coloca em evidência as pressões do mundo corporativo.

Como ser competitivo abrindo mão desses processos?

A "competitividade" é um argumento central para justificar o aumento constante da produtividade de todos. Dessa forma, a primeira ameaça consiste em usar o argumento permanente do perigo de ser menos competitivo do que os concorrentes, que, assim, vão satisfazer mais os clientes.

Isso, consequentemente, levaria à redução do quadro de funcionários. Essa ameaça se multiplica, provocando competição entre os funcionários que tentam se proteger individualmente. Também é fonte de ansiedade e sofrimento para aqueles que não podem alcançar as metas.

De um ponto de vista humanista, o que deve ser criticado e modificado nas empresas?

O grande aumento de casos de mal-estar ou suicídio no local do trabalho é um fenômeno bastante recente, dos últimos 15 anos. Desde os anos 1980, a empresa teria se tornado cidadã –enquanto por mais de um século foi conhecida como o lugar da luta de classes.

A "responsabilidade social da empresa" é tema de inúmeros sites e reportagens. Internamente porém, a história é outra. Em nome de que existiria a obrigação do funcionário em aderir aos valores da empresa? De que valores se trata? É possível debater a respeito disso? De que "empresa cidadã" pretende pertencer uma direção que nunca é escolhida pelos funcionários?

&Qual o papel dos call centers?*

Os call centers são fundamentais para a estratégia de marketing das empresas, para conquistar clientes e fidelizá-los. Por outro lado, seus operadores são os novos proletários superexplorados e amontoados em imensas "plataformas", e repetem o mesmo "roteiro" o dia todo, sendo constantemente vigiados pelos supervisores que os admoestam quando os resultados são insuficientes ou os roteiros não respeitados.

Não é surpreendente que as novas patologias de sofrimento no trabalho estejam especialmente desenvolvidas nessas plataformas.

Historicamente, a qualidade de trabalho nas grandes corporações caiu?

Hoje, o trabalho em cadeias produtivas é menos árduo do que no tempo de Émile Zola (1840-1902) ou nos anos 1920 e 1930. As condições de trabalho mudaram totalmente. A duração do expediente é menor, existem proteções. Então trabalhar hoje é "melhor" do que há 150 ou 100 anos.

Por outro lado, hoje psicologicamente trabalhar em cadeias produtivas não tem nada a ver com o trabalho de 30 ou 40 anos atrás. Não existem mais as mesmas solidariedades. Não existe mais o mesmo senso coletivo. Este foi esmagado pela cultura das avaliações individuais de desempenho.

Antes, não havia as pressões paradoxais de hoje, não havia a política dos números, não havia a coisificação de nosso "expediente cerebral" no trabalho ou no consumo, e tudo isso tem consequências totalmentedesastrosas. É imperativo repensar as formas de trabalhar.

Tradução de ERIC HENEAULT

NO LIMITE
AUTOR Marin Ledun
EDITORA Tordesilhas
QUANTO R$ 46 (388 págs.)

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