Sem choque de alimentos, inflação de 2017 ficaria no centro da meta, diz BC

Crédito: Eduardo Anizelli/Folhapress O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, na reunião extraordinária para avaliar se mantém ou não a meta de inflação de 2018 em 4,5% e definir qual será o objetivo a ser perseguido pelo Banco Central em 2019.
O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn

MAELI PRADO
DE BRASÍLIA

Em carta ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, justificou que a inflação oficial do ano passado ficou abaixo do piso da meta principalmente por conta da forte queda no preço dos alimentos.

No texto, divulgado nesta quarta-feira (10), Goldfajn afirma que o choque dos alimentos representou 83,9% do desvio do IPCA verificado em 2017,que foi de 2,95%, em relação ao piso da meta para o ano, de 3%.

O objetivo para 2017 era de 4,5%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.

O texto lembrou que a queda de preços do grupo "alimentação no domicílio" foi de 4,85% no ano passado, a maior deflação da série histórica do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), iniciada em 1989.

"A razão principal de o IPCA ter ficado abaixo da meta de 4,5% foi o item que está fora do controle do BC, que é a inflação de alimentos", disse Goldfajn em entrevista a jornalistas. "Os alimentos tiveram uma deflação de 4,85% no ano passado, o que é uma boa notícia para a população".

Se esse grupo for excluído dos dados, a inflação chegaria a 4,54%, "valor muito próximo à meta de inflação para 2017".

"O comportamento dos preços de alimentos refletiu, preponderantemente, as condições de oferta, que permitiram níveis recordes de produção agrícola", afirma Goldfajn na carta.

O presidente do BC explicou que a autoridade monetária não reagiu a essa redução com elevação de juros porque não cabe ao banco inflacionar os preços sobre os quais têm mais controle para controlar choque no preço de alimentos.

"Do ponto de vista dos princípios da política monetária, o BC tem que deixar os preços de alimentos caírem, e não combater esses preços subindo os outros. Essa queda tem que ser permitida, e não inflacionar o resto para compensar", disse Goldfajn a jornalistas.

"O Banco Central do Brasil (BC) seguiu os bons princípios no gerenciamento da política monetária e não reagiu ao impacto primário do choque. Não cabe inflacionar os preços da economia sobre os quais a política monetária tem mais controle para compensar choques nos preços de alimentos".

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CALIBRAGEM

Goldfajn ainda afirmou que a inflação já se encontra na direção da meta para 2018, que também é de 4,5%, com intervalo de tolerância para cima e para baixo.

De acordo com o presidente do BC, as projeções do mercado já apontam que, no final do primeiro trimestre deste ano, a inflação atingiria 3,2%, "situando-se, portanto, acima do limite inferior do intervalo de tolerância da meta".

"Portanto, o BC tem tomado as providências para que a inflação atinja as metas para a inflação estabelecidas pelo CMN, de 4,5% para 2018, 4,25% para 2019 e 4% para 2020. O processo de flexibilização monetária continuará dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos, de possíveis reavaliações da estimativa da extensão do ciclo e das projeções e expectativas de inflação."

"Já estamos em direção à meta de 2018", disse o presidente do BC a jornalistas. "Sabemos que a inflação em algum momento já chegou a um valor menor, e já está em fase de subida. Acreditamos que ao longo do ano de 2018 vamos subindo gradativamente, à medida que a conomia se recupera, e terminaremos o ano perto da meta de 4,5%."

Goldfajn afirmou durante a entrevista que, apesar da previsão de aumento da inflação neste ano, essa alta será benéfica, já que estará associada à retomada do crescimento e do emprego.

O presidente do BC rebateu as críticas de que a autoridade monetária poderia ter começado a reduzir os juros mais cedo, o que permitiria o cumprimento da meta.

"Há uma crítica: se a inflação ficou baixa, [o BC] poderia reduzir os juros mais cedo? Nossa visão é outra, que foi a nossa atuação no começo que propiciou a inflação mais baixa. A mudança nas expectativas do mercado foi importante, se esperava uma inflação de 5% a 6%, e isso começou a cair, devido à firmeza da política monetária".

Ele declarou ainda que o BC optou por não arredondar os 2,95% para 3%, o que evitaria a necessidade de escrever a carta.

"Se você arredondar, usar a metodologia científica, 2,95% dá 3%. Mas não queremos perder essa oportunidade de prestar contas", disse."Inflação baixa é boa, não tem nada de errado. Foi a menor inflação em muitos anos, a segunda menor da história. Foi bom para a população".

Goldfajn declarou ainda que o BC ainda decidirá se mudará seu cenário para a política monetária depois da inflação de dezembro, que veio maior que a esperada.
"Não estamos no momento de reavaliar. Vamos fazer isso no momento apropriado, vamos ver a inflação que está surgindo, tudo isso será ainda avaliado".

ENTENDA

Esta foi a primeira vez que a meta foi descumprida "para baixo" desde que foi criado o sistema de metas de inflação, em 1999.

A meta de inflação é de 4,5%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.

Por isso, se a inflação fica abaixo de 3%, o BC tem que justificar o motivo do descumprimento do objetivo fixado pelo próprio governo, além de detalhar quais as providências tomadas para que a inflação volte ao patamar fixado pelo CMN (Conselho Monetário Nacional).

Isso tem que ser feito através de uma carta do presidente do Banco Central ao presidente do CMN, que é o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

Desde 1999, a inflação ficou fora dos limites fixados em 2001, 2002, 2003 e 2015, mas sempre em um cenário de variação de preços excessiva, nunca o contrário.

A última vez que essa banda não foi cumprida, em 2015, a inflação oficial ultrapassou os 10% no final do ano. O teto era de 6%.

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