DANIELLE BRANT
DE SÃO PAULO

O brasileiro não aprendeu nada com a crise dos últimos anos. Pelo menos financeiramente, afirma Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil, com base em pesquisa feita pelo birô de crédito que mostra que, no ano passado, 8 em cada 10 consumidores não conseguiram fechar as contas do mês somente com o orçamento.

O percentual, de 77%, é alarmante, segundo a especialista. "Mesmo que a gente tenha tido uma crise econômica muito severa, as pessoas não mudam os comportamentos", diz Kawauti.

"Eu tinha a impressão de que a crise ia ter um impacto positivo, que elas iriam colocar a vida financeira como prioridade. Mas ninguém controla gastos. Ou seja, mesmo sem crise, a gente vai continuar com inadimplência alta, crédito com juros altos."

Embora cortar as despesas ainda seja uma tarefa difícil, 40% dos entrevistados mudaram os hábitos de consumo, priorizando itens mais baratos e pesquisando mais os preços dos produtos, mostra o levantamento, realizado com 805 pessoas em novembro de 2017.

"Não é que as pessoas não sabem que a educação financeira é importante. O problema está em passar da constatação para a prática", afirma a economista-chefe do SPC Brasil. "Olhar para a vida financeira pressupõe que lide com frustrações de não conseguir comprar tudo o que se quer, mas isso é importante para evitar que consumidor se enrole lá na frente."

A pesquisa mostra ainda que 32% tomaram algum tipo de empréstimo para pagar as contas no ano passado. E que, para 59% dos entrevistados, a maior dificuldade está em fazer o controle do orçamento. "Se houvesse um controle maior dos gastos, uma tomada de crédito melhor, teríamos uma taxa de juros menor e uma inadimplência menor", diz Kawauti.

DESCONTROLE

De acordo com o levantamento, 45% não fazem controle do orçamento. Dentro desse grupo, muitos dizem não ter essa preocupação porque fazem as contas de cabeça (27,4%).

"Fazer conta de cabeça não funciona, a gente não lembra nem o que almoçou ontem, ainda mais quanto gastou. Precisa formalizar o controle, seja num aplicativo, seja na planilha, seja na caderneta. A conta de cabeça não é a solução", destaca Kawauti.

Ela considera que, para melhorar a estatística, seria necessário colocar educação financeira nas escolas. "Mudar quando criança é melhor do que quando adulto, que já está em uma zona de conforto. A criança já cresce com a informação e conscientiza os pais", ressalta.

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