Desafios cercam presença norte-coreana em Olimpíada de Inverno

Crédito: Lee Jin-man/Associated Press
Emblema oficial da Olimpíada de Inverno de Pyeongchang é exibido em Seul

ADAM TAYLOR
DO "WASHINGTON POST"

Depois de meses de tensão crescente, a Coreia do Norte decidiu nesta quarta-feira (3) reabrir uma linha telefônica para contatos de emergência com a Coreia do Sul —o que pode marcar um degelo que culminaria no envio de uma delegação por Pyongyang aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, que serão realizados no mês que vem em Pyeongchang, na Coreia do Sul.

A presença de dirigentes e atletas norte-coreanos nos jogos pode acalmar os temores sobre a possível realização de testes de mísseis, ou coisa pior, durante os jogos, que acontecerão a apenas 80 km da zona desmilitarizada que divide a península Coreana.

Também haveria um elemento simbólico na participação norte-coreana. Pyongyang há muito recorre a realizações esportivas em eventos internacionais como instrumento para melhorar a reputação da Coreia do Norte no exterior. As duas Coreias aproveitaram eventos olímpicos para oferecer gestos de reconciliação, e até mesmo desfilaram juntas, sob uma só bandeira, em alguns certames.

Mas críticos advertem que, em um ano de provocações, não se pode confiar na Coreia do Norte como participante dos jogos. O senador americano Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, afirmou na terça-feira (2) apelando à Coreia do Sul que rejeite as abordagens de Pyongyang quanto a uma participação na Olimpíada, argumentando que isso "conferiria legitimidade ao mais ilegítimo regime do planeta".

A despeito das preocupações de Graham, a Coreia do Norte na verdade tem um histórico longo em Olimpíadas. Pyongyang enviou delegações a todas as Olimpíadas de Verão desde 1972, exceto pelas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, e de Seul, em 1988, que o país boicotou.

A Coreia do Norte conquistou 54 medalhas em Olimpíadas de Verão, o que inclui 16 ouros, com o halterofilismo e a luta livre como modalidades de maior sucesso. Dado o tamanho minúsculo do país, e seu Produto Interno Bruto (PIB) certamente pequeno, o desempenho olímpico dos norte-coreanos pode ser considerado um razoável sucesso.

Parte do sucesso norte-coreano nos jogos sem dúvida acontece por vontade política. Os atletas de sucesso em muitos casos contam com instalações dotadas de verbas amplas e seus estilos de vida são relativamente luxuosos, comparados aos de seus concidadãos, disse Christopher Green, analista especializado em questões norte-coreanas, ao "Washington Post", no ano passado, ainda que o risco de que atletas busquem asilo leve as delegações do país a viver em isolamento monástico, nas vilas olímpicas.

Talvez surpreendentemente, para um país montanhoso e de invernos muito frios, nos Jogos Olímpicos de Inverno o desempenho da Coreia do Norte vem sendo muito pior, com um total de apenas três medalhas conquistadas a despeito de o país ter competido em oito edições dos jogos de 1964 em diante. Os únicos atletas norte-coreanos que conseguiram se qualificar para os jogos de inverno de Pyeongchang são os patinadores artísticos Ryom Tae Ok e Kim Ju Sik.

Para alguns sul-coreanos, sempre houve esperança de que a Coreia do Norte participasse dos jogos. Isso acontece em parte pela preocupação de que os norte-coreanos possam atrapalhar a competição de alguma maneira caso não participem dela. As vendas de ingressos para os jogos de Pyeongchang estão abaixo das expectativas, um resultado que alguns observadores atribuem ao risco que a Coreia do Norte representa para os jogos.

Essas preocupações são compreensíveis. Um ano antes da Olimpíada de Seul, em 1988, agentes norte-coreanos realizaram um atentado a bomba contra um voo da Korean Air, matando todas as pessoas que estavam a bordo, em um aparente esforço para atrapalhar o evento. A presença de atletas ou de uma delegação norte-coreana reduziria o risco de acontecimentos como esse.

Mas também existe a esperança de que a participação da Coreia do Norte sirva como caminho para a redução das tensões na península. Coreia do Norte e Coreia do Sul marcharam juntas em diversas cerimônias de abertura de Olimpíada, sob a chamada "bandeira da unificação", criada para representar toda a Coreia, ainda que as delegações dos dois países competissem separadamente.

Mesmo que gestos como esses tenham escasseado nos últimos anos (os planos para levar uma delegação conjunta à Olimpíada de Pequim, em 2008, fracassaram devido às exigências dos norte-coreanos), o potencial dos Jogos Olímpicos para promover a aproximação entre as duas Coreias foi demonstrado pela resposta forte quando uma ginasta norte-coreana posou para uma foto com uma colega da Coreia do Sul.

Mas muita gente se preocupa com a possibilidade de que Pyongyang use sua participação nos jogos para tentar extrair concessões de Seul.

Bruce Klingner, antigo analista da CIA (agência de inteligência americana) que hoje trabalha como especialista em questões norte-coreanas na Heritage Foundation, disse que a marcha combinada das duas delegações na abertura da Olimpíada de Sydney, em 2000, pode ter parecido um sinal de esperança, mas que nos bastidores as coisas foram muito diferentes.

"A Coreia do Norte exigiu, e recebeu, um pagamento de Seul, pagamento pelos uniformes de seus atletas, e um acordo de que o número de membros de sua delegação não seria excedido pelo da delegação sul-coreana —o que excluiu muitos atletas e membros de comissões técnicas da Coreia do Sul da cerimônia de abertura", escreveu Klingner em e-mail.

Ainda que tanto o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, quanto o presidente sul-coreano Moon Jae-in tenham indicado disposição de cooperar quanto à Olimpíada, nos últimos dias, ainda existem muitos detalhes a decidir.

Tecnicamente, a Coreia do Norte perdeu o prazo para enviar uma delegação, ainda que o Comitê Olímpico Internacional (COI) tenha declarado na terça-feira que consideraria o convite a Pyongyang como em aberto, por enquanto.

As duas Coreias se reunirão para decidir como a participação norte-coreana nos jogos poderia ocorrer; o sul propôs uma reunião na semana que vem em Panmunjon, uma aldeia na zona de trégua entre os dois países. Especialistas sugerem que mesmo essa reunião teria de ser cuidadosamente organizada, devido a preocupações sobre protocolo.

As negociações podem esbarrar em dificuldades devido a concessões exigidas pelos norte-coreanos, como o cancelamento ou adiamento de exercícios militares envolvendo forças americanas e sul-coreanas no ano que vem.

Outros fatores, como o tamanho da delegação e seu percurso rumo à Coreia do Sul, podem criar obstáculos inesperados. Se as negociações desandarem, a situação já tensa da península pode se agravar.
Michael Madden, especialista em assuntos relacionados à liderança norte-coreana, escreveu em artigo para a BBC que a participação norte-coreana nos jogos poderia servir como ponto de partida.

"Para Kim Jong-un e Moon Jae-in, e para aqueles que acompanham de perto a situação da península, a participação da República Democrática Popular da Coreia pode ser uma excelente oportunidade de relações públicas e causar redução temporária nas tensões regionais", escreveu Madden, pesquisador visitante do US-Korea Institute, na escola de estudos internacionais avançados da Universidade Johns Hopkins.

Mas em um período no qual os Estados Unidos e seus aliados propõem reforçar a pressão sobre a Coreia do Norte, há quem relute em reduzir o isolamento internacional do país sem benefícios tangíveis. Klingner comparou a situação às restrições impostas à África do Sul na era do apartheid.

"Já que o mundo está tentando isolar e pressionar a Coreia do Norte por suas repetidas violações de resoluções da ONU, deveria se perguntar por que Pyongyang poderá participar da olimpíada quando Pretória foi excluída", escreveu Klingner.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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