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Advogado diz que iraniana foi torturada para confessar crime na TV
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DE SÃO PAULO
Houtan Kian, atual advogado de Sakineh Mohammadi Ashtiani, disse que a iraniana foi torturada por dois dias antes de concordar em aparecer em um programa de TV do Irã e confessar o assassinato do marido. Ashtiani foi condenada à morte por apedrejamento por adultério e por planejar o assassinato do marido.
"Ela apanhou muito e foi torturada até aceitar aparecer em frente à câmera. Seu filho de 22 anos, Sajad, e sua filha de 17 anos Saeedeh estão completamente traumatizados por assistir ao programa", disse Kian, em entrevista ao jornal britânico "The Guardian".
A TV estatal iraniana exibiu na noite desta quarta-feira uma entrevista no programa "20:30" que supostamente traz Sakineh, 42, confessando ter discutido com um homem sobre o assassinato do marido.
A mulher aparece com véu preto que cobre quase todo o corpo, a imagem distorcida no rosto e a voz encoberta pela tradução de um dialeto regional para o persa --o idioma oficial do Irã. Assim, não foi possível confirmar por fonte independente a identidade da mulher.
Kian confirmou a identidade de Sakineh e disse ao "Guardian" que a entrevista foi gravada na prisão Tabriz, onde Sakineh está há quatro anos.
Ele afirmou ainda que há temor de que as autoridades iranianas vão acelerar a sentença de morte.
Na entrevista, Sakineh também criticou seu advogado anterior, Mohammad Mostafaei, por divulgar publicamente o seu caso e disse que isso trouxe vergonha para sua família.
Um grupo de defesa dos direitos humanos, o Comitê Internacional contra o Apedrejamento, qualificou o programa de TV de "propaganda tóxica". Ashtiani havia anteriormente negado as acusações de adultério.
CONFISSÃO
Sakineh contou na entrevista como manteve um relacionamento com o primo do marido. "Ele me disse: "Vamos matar seu marido". Eu realmente não pude acreditar que meu marido seria morto. Pensei que ele estivesse brincando", disse Ashtiani.
"Depois, descobri que assassinar era a profissão dele. Ele veio a nossa casa e trouxe todo o material. Trouxe aparelhos elétricos, fios e luvas. Depois, matou meu marido conectando-o à eletricidade", declarou.
O diretor do Judiciário da província iraniana do Azerbaidjão do Leste disse no programa de TV que Ashtiani havia injetado um anestésico no marido.
"Depois que o marido ficou inconsciente, o verdadeiro assassino matou a vítima ao conectá-la pelo pescoço à eletricidade", afirmou ele. Não ficou claro se o primo foi preso.
Em uma entrevista na semana passada ao jornal britânico, Sakineh acusou as autoridades iranianas de mentir sobre as acusações contra ela para confundir a mídia e facilitar sua execução por apedrejamento.
SAKINEH
Mãe de dois filhos, Sakineh Mohammadi Ashtiani foi condenada em maio de 2006 a receber 99 chibatadas por ter um "relacionamento ilícito" com um homem acusado de assassinar o marido dela. Sua defesa diz que Sakineh era agredida pelo marido e não vivia como uma mulher casada havia dois anos, quando houve o homicídio.
Mesmo assim, Sakineh foi, paralelamente à primeira ação, julgada e condenada por adultério. Ela chegou a recorrer da sentença, mas um conselho de juízes a ratificou, ainda que em votação apertada --3 votos a 2.
Diplomatas iranianos afirmam que foi encerrado o processo de adultério e que a mulher é acusada "apenas" pelo assassinato do marido.
Os juízes favoráveis à condenação de Sakineh à morte por apedrejamento votaram com base em uma polêmica figura do sistema jurídico do Irã chamada de "conhecimento do juiz", que dispensa a avaliação de provas e testemunhas.
Assassinato, estupro, adultério, assalto à mão armada, apostasia e tráfico de drogas são crimes passíveis de pena de morte pela lei sharia do Irã, em vigor desde a revolução islâmica de 1979.
Um abaixo-assinado online lançado há dois meses devolveu o caso ao centro das atenções. Em julho passado, pressionada, a Embaixada do Irã em Londres afirmou que Sakineh não seria morta por apedrejamento --sem, no entanto, descartar que ela fosse morta, porém por outro método, provavelmente o enforcamento.
O embaixador Shaterzadeh não confirmou os relatos de que a pena de morte por apedrejamento tenha sido substituída por enforcamento. Segundo ele, o processo está em curso e ainda não foi encerrado, por essa razão há possibilidade de alterações.
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