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EUA encerram combate no Iraque sem vencer terrorismo e sectarismo
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MÁRCIA SOMAN MORAES
DE SÃO PAULO
Os Estados Unidos encerram nesta terça-feira (31) o prazo para a retirada de todas as tropas de combate do Iraque e põem fim à Operação Liberdade Iraquiana, iniciada em 20 de março de 2003 e que custou US$ 748 bilhões [cerca de R$ 1,3 trilhão] e matou mais de 4.700 militares estrangeiros, além de 100 mil civis iraquianos.
Veja cobertura completa sobre a retirada do Iraque
Os americanos deixam para trás 49.700 militares para missões de treinamento e um Iraque que ainda é cenário de ataques terroristas diariamente e que, cinco meses após a eleição, não tem um governo definido.
Analistas ouvidos pela Folha.com ressaltam que os EUA estão longe de poder declarar vitória e enfrentam a incerteza de qual será o legado dos mais de sete anos de guerra.
| Maya Alleruzzo-19ago.10/AP | ||
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| Jason Thompson (esq.) e Nate Flegler (dir.) cumprimentam colegas em um dos últimos veículos a deixar o Iraque |
"É cedo para dizer que as tropas americanas deixam o país num claro caminho para maior segurança e paz e reconciliação, e que o Iraque vai estar mais seguro em cinco ou dez anos", disse à Folha.com o coronel Gian Gentile, professor de história e analista do Council of Foreing Relations, centro de pesquisas com base em Washington.
As tropas americanas no Iraque oscilaram ao longo dos anos, alcançando seu máximo de quase 170 mil soldados em 2007. A retirada começou no fim de 2008 e passou pela saída das tropas das cidades iraquianas em junho de 2009. Nesta quarta-feira, os EUA inauguram a Operação Novo Amanhecer com 49.700 militares remanescentes, com missões de treinamento, contrainsurgência e proteção dos americanos no Iraque.
Apesar da violência não ter voltado aos picos da guerra sectária de 2007, as tropas iraquianas ainda enfrentam números preocupantes. Somente na última semana, ataques coordenados contra a polícia mataram ao menos 56 e seis membros de uma milícia sunita morreram em uma emboscada.
E apesar do investimento de US$ 22 bilhões [R$ 38 bilhões] dos EUA, as forças iraquianas ainda estão a caminho da autossuficiência. O comandante das Forças Armadas, general Babaker Zebari, disse recentemente em entrevista que os americanos deveriam permanecer no país até, ao menos, 2020.
O Exército ainda está em melhor estado e, por isso, acaba assumindo tarefas que caberiam normalmente à polícia, como comandar os postos de checagem que se espalham pela capital Bagdá. Nos últimos meses, todas as operações militares americanas foram aprovadas e coexecutadas pelos iraquianos. Mas a inteligência do país ainda depende muito das informações cedidas pelos americanos.
DIVISÃO SECTÁRIA
Analistas dizem, contudo, que ainda mais preocupantes são as divisões sectárias e étnicas que transformaram as forças de segurança iraquianas em um batalhão xiita, excluindo sunitas e curdos.
"A filiação a facções é mais forte do que a lealdade ao governo federal", afirma Gentile. "Ainda há dúvidas se eles realmente estão dispostos a se tornar uma força nacional e apolítica".
| Atef Hassan-24ago.10/Reuters | ||
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| Policiais patrulham o campo de petróleo de Bezirgan, em Amara, 300 km ao sudeste de Bagdá |
O ponto mais crítico é o papel dos cerca de 100 mil membros da milícia sunita Sahwa que mudaram de lado ao se aliar aos EUA durante o reforço de 2007 para combater os terroristas da Al Qaeda. Crucial para a virada na guerra, ela ainda é vista com maus olhos pelo governo xiita, que reluta em escalar ex-insurgentes.
Matthew Mingus, especialista de governo da Universidade Western Michigan (EUA), conta à Folha.com que ouviu muitas reclamações de membros da Sahwa no ano em que passou no Iraque, até fevereiro passado.
"As pessoas destes conselhos recebiam ofertas para postos no governo, mas poucos eram convertidos em forças de segurança. Apesar de ser um desafio, o Iraque seria um local mais seguro se a integração acontecesse."
SOLUÇÃO NACIONAL
Embora haja um risco real de crescimento da violência e desestabilização, analistas ressaltam que a retirada das tropas americanas era inadiável. A extensão da presença militar americana não teria quase nenhum impacto real nas causas da violência e ainda impediria os iraquianos de assumir na total responsabilidade por sua segurança, um tema doméstico e não internacional.
Rachel Schneller, do instituto de pesquisa de assuntos internacionais Catham House, ressalva em artigo que os americanos não podem simplesmente ignorar as suas responsabilidades com os iraquianos e defende até mesmo a inclusão mais rápida dos iraquianos no programa americano de assistência aos refugiados.
Cansados da guerra, milhares de iraquianos querem ir aos EUA
Para Mingus, os EUA terão uma dívida de segurança com o Iraque. "Em algum ponto, os iraquianos vão nos querer lá para fazer missões específicas [de segurança] e eles têm o direito de pedir isso".
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