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"Guerra abre as portas do inferno", diz Carlos Fino, repórter que cobriu o Iraque
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JEFFERSON PUFF
DE SÃO PAULO
Primeiro repórter a noticiar o início da Guerra do Iraque para o mundo, Carlos Fino, ex-correspondente da estatal Rádio e Televisão Portuguesa (RTP), se emociona ao lembrar dos meses passados em meio ao conflito e, sem hesitar, aponta que a experiência foi um "verdadeiro inferno".
Veja cobertura completa sobre a retirada do Iraque
Veja vídeo do depoimento de Carlos Fino
O português desembarcou em Bagdá ainda em janeiro de 2003, quando os inspetores da ONU (Organização das Nações Unidas) investigavam as denúncias do então presidente americano, George W. Bush, de que o regime do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein escondia armas de destruição em massa.
| Carlos Fino/Arquivo pessoal | ||
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| Ex-correspondente de guerra Carlos Fino relata as maiores dificuldades de trabalho em meio à zona de conflito |
Além de vivenciar os primeiros bombardeios em 26 de março do mesmo ano e acompanhar a "sistemática destruição" de Bagdá, Fino sobreviveu ao ataque das tropas americanas ao Hotel Palestina, onde estava baseada a imprensa internacional.
Após ser roubado e quase linchado por um bando armado --ao lado do cinegrafista Nuno Patrício-- teve que deixar o país por terra, sem passaporte, passando pela Jordânia.
Em agosto de 2003 voltou ao Iraque para cobrir a morte do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, vitima de um ataque contra a sede da ONU em Bagdá. "Tínhamos muita admiração por ele, que aliás se perfilava como um possível candidato a suceder Kofi Annan, então secretário-geral das Nações Unidas", disse.
| AFP | ||
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| Imagens da emissora France 3 mostram momento em que tanque americano abre fogo contra o Hotel Palestina |
Em entrevista à Folha.com, Carlos Fino falou sobre momentos marcantes da cobertura e descreveu a experiência de trabalhar a partir de uma cidade "em chamas".
"Há a decisão crucial: ficar ou não ficar. Todos os jornalistas tiveram que optar se iam aguentar o stress, a angústia do que pudesse vir a acontecer", relembra.
Confira os principais trechos da conversa e ouça podcasts com os relatos do jornalista português:
O FURO
Na data em que expirava o ultimato dado por George W. Bush tivemos um dia de angústia porque afinal estávamos vivendo no alvo. Passamos a estar à espera do que fosse acontecer, toda a tarde, pela noite afora.
A RTP montou um programa ao vivo, e da última vez que vieram ao Iraque eu continuava dizendo que Bagdá estava tranquila. Desligamos todos os equipamentos e quando entramos no nosso quarto no 17º andar do Hotel Palestina e nos sentamos, as bombas começaram a cair. E eles diziam de Lisboa "mas como é que começou se a BBC e a CNN não estão a dar nada?"
Acompanhe o relato de Carlos Fino sobre o furo de reportagem
Tive que fazer um esforço muito grande, gritar, até que os convenci. Acabamos por ser a estação a ter essa façanha de ser a primeira a dar o início da guerra. A CNN, quando mais de dois minutos depois --o que é uma eternidade em televisão-- deu a notícia, disse que "de acordo com a estação pública portuguesa RTP as hostilidades já teriam começado".
ATAQUE AO HOTEL PALESTINA
Nós assistimos, a partir das 7h, das varandas de nossos quartos, a tomada dos palácios do Saddam. Um tanque americano parou em cima de uma das pontes sobre o rio Tigre e foi por volta do meio dia no horário de Bagdá que ouvimos um grande estrondo no hotel, e de início nem entendemos o que havia acontecido.
Ouça mais detalhes sobre o bombardeio ao hotel que abrigava a mídia internacional
Quando olhamos a varanda de baixo vimos a câmera da televisão mexicana completamente em chamas. Instalou-se uma situação de pânico. Fomos perceber somente depois as dimensões trágicas do que havia ocorrido: a morte de nossos colegas do 15º andar [O repórter da agência de notícias Reuters, Taras Protsyuk, e o cinegrafista do canal de TV espanhol Telecinco, José Corso].
VIVER EM MEIO À GUERRA
O estrondo, o fogo, o barulho dos aviões e das bombas, o impacto era tão potente que atingia a todos nós. Lembro que bombas subterrâneas lançadas do outro lado do rio Tigre causaram impacto no hotel também. Lembro-me de sentir um bafo, de corrente de ar após um bombardeio, e logo depois sentir os vidros do hotel se estilhaçando.
| Juca Varella/Folhapress | ||
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| Após o início dos bombardeios americanos o repórter da RTP viveu momentos de forte tensão na capital iraquiana |
É uma noção de risco muito elevada, e ao mesmo tempo de esperança, de que a gente consiga passar "no meio da chuva". Basicamente nós ficávamos vendo da varanda do hotel a cidade sendo sistematicamente destruída, mas nós também éramos alvo.
SAÍDA SEM PASSAPORTE
Eu e o cinegrafista fomos raptados por um bando armado em Bagdá. Fomos roubados. Levaram os equipamentos, as bolsas, dinheiro, e o passaporte. Quem me deu o documento para poder sair, um laissez-passer, foi um representante do Vaticano, o único que se manteve sempre em Bagdá.
O ex-correspondente explica como saiu do Iraque
À certa altura a situação era tão dramática que era tão ou mais difícil sair do que entrar no Iraque. As estradas estavam bloqueadas, havia combates, o risco era muito grande. Na prática havia uma espécie de serviço. Numa guerra, para toda necessidade há uma oferta. Havia gente que fazia o transporte de jornalistas para a Jordânia, com caminhonetes com ar condicionado.
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