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14/12/2010 - 18h13

Roma tem dia de violência após vitória de Berlusconi no Parlamento

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DE SÃO PAULO
DA REUTERS, EM ROMA

Manifestantes incendiaram veículos, enfrentaram as tropas de choque e atiraram tinta e bombas de fumaça contra o Parlamento italiano nesta terça-feira. São os mais graves incidentes em Roma nos últimos anos, em protesto contra a vitória do primeiro-ministro Silvio Berlusconi em um voto de confiança na Câmara dos Deputados.

Veja imagens dos protestos na Itália

Tanto o Senado quanto a Câmara da Itália optaram nesta terça-feira pela manutenção de Sílvio Berlusconi no posto de premiê, após um voto de desconfiança trazido à tona por membros da oposição.

Remo Casilli/Reuters
Furiosos, estudantes italianos atiraram bombas de fumaça contra prédio do Parlamento em Roma
Furiosos, estudantes italianos atiraram bombas de fumaça contra prédio do Parlamento em Roma

A Via del Corso, principal rua do centro histórico, repleta de lojas elegantes e perto do gabinete de Berlusconi, foi cenário de uma batalha com muita fumaça, gás lacrimogêneo e rostos ensanguentados.

No monte Pincio, acima da famosa Piazza di Spagna, os manifestantes queimaram carros particulares, viraram latões de lixo e impediram os bombeiros de debelarem as chamas.

Ao menos 50 pessoas ficaram feridas, inclusive vários policiais, e mais de 40 manifestantes foram detidos, informou a polícia. Os manifestantes eram principalmente estudantes, mas também havia trabalhadores e imigrantes.

As TVs mostraram dezenas de pessoas apedrejando policiais, e agentes da tropa de choque batendo nos manifestantes e perseguindo-os pelas estreitas ruas com calçamento de pedra.

"Enquanto estão fazendo seu joguinho no Parlamento, estamos nos dirigindo para a catástrofe. Cadê o meu futuro? Não me sinto representado por este governo. Não me sinto representado no meu próprio país," disse o universitário Marco, 19 anos.

A manifestação havia sido organizada como festa, na expectativa de que Berlusconi seria derrubado pelo Parlamento. Mas ele sobreviveu ao voto de desconfiança na Câmara dos Deputados, por uma margem de apenas três votos.

As lojas foram forçadas a fechar enquanto os manifestantes, muitos deles com máscara de esquiador, passavam pelas calçadas virando mesas de bares, floreiras e motos estacionadas. Eles destruíram vidraças de bancos e vários caixas eletrônicos, e lançaram mesas e cadeiras contra carros da polícia.

Nas últimas semanas, estudantes têm protestado em toda a Itália contra as medidas de austeridade e as reformas universitárias planejadas pelo governo de centro-direita, a exemplo do que acontece em outros países europeus, como o Reino Unido.

Os estudantes também bloquearam o aeroporto de Palermo, na Sicilia, e chegaram a ocupar o prédio da Bolsa de Milão.

Para muitos italianos, a atual crise política se soma ao clima geral de desânimo no país.

Mas houve quem ficasse satisfeito com o resultado da votação. "Acho melhor assim, porque do contrário não teria funcionado. A esta altura, precisamos de um governo que consiga manter nossa cabeça para fora da água," disse o morador romano Giuliano Marroti.

GOVERNO FRÁGIL

A vitória no Senado, por 162 votos a favor de um total de 308, já era esperada. A votação na Câmara, no entanto, onde o premiê já havia perdido a maioria meses atrás, ainda era dada como incerta.

Chamados um a um em frente ao plenário, os deputados italianos deram seus votos publicamente: 314 a favor e 311 contra.

O placar apertado indica a frágil maioria com a qual Berlusconi governará na Câmara até o fim de seu mandato.

Tony Gentile/Reuters
Confiante, Sílvio Berlusconi comemora apoio do Senado; Câmara também ratificou italiano no cargo de premiê
Confiante, Sílvio Berlusconi comemora apoio do Senado; Câmara também ratificou italiano no cargo de premiê

A moção de desconfiança, apresentada pelo grupo Futuro e Liberdade para a Itália (FLI), de seu ex-aliado e presidente da Câmara, Gianfranco Fini, junto ao oposicionista União Democrática de Centro (UDC) e ao centrista Aliança para Itália,.

Caso o premiê tivesse sido rejeitado pelo Senado ou pela Câmara, de acordo com a Constituição, teria que renunciar ao cargo e o presidente do país, Giorgio Napolitano, teria que iniciar uma fase de consultas para a formação de um novo governo. Caso não conseguisse, teria que dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas.

Imerso em uma grave crise econômica e em meio a turbulentas relações com a oposição e denúncias de corrupção, Berlusconi permanece à frente da Itália, mas seu governo ainda precisará lidar com importantes temas.

Ainda ontem (13), o premiê alertou os congressistas de que sua saída do governo seria um "desatino político" que mergulharia o país ainda mais na crise econômica.

Confirmado no cargo, Berlusconi enfrenta agora o desafio de guiar a economia italiana e resolver disputas políticas com a oposição para tentar facilitar o restante de seu mandato.

DENÚNCIAS E WIKILEAKS

Além da crise gerada com a oposição e a instabilidade política e financeira em que a Itália está mergulhada, Berlusconi sofreu mais um golpe ainda na sexta-feira (10), quando uma investigação de corrupção foi aberta.

A Justiça italiana deu início a uma investigação sobre alegações feitas por políticos de centro-esquerda de que o premiê estaria comprando votos no Parlamento.

Além disso, na semana passada telegramas diplomáticos dos EUA divulgados pelo site WikiLeaks contribuíram para enfraquecer ainda mais o governo de Berlusconi.

Segundo os documentos, o premiê teria lucrado com acordos energéticos assinados com a Rússia.

Em resposta, Berlusconi jurou pelos filhos que não ganhou dinheiro com as transações assinadas com o governo russo.

Os telegramas revelaram que o embaixador da Geórgia em Roma disse aos altos funcionários americanos que o governo de seu país suspeitava que o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, tinha prometido percentual dos lucros dos gasodutos construídos pela russa Gazprom junto com a italiana Eni.

 

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