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21/02/2011 - 08h58

Manifestantes líbios ateiam fogo a sede do governo em Trípoli

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DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Manifestantes antigoverno que pedem a queda do regime do ditador Muammar Gaddafi na Líbia atearam fogo à sede central do governo líbio e ao prédio que abriga o Ministério da Justiça na capital do país, Trípoli. A informação foi dada pelo jornalista líbio Nezar Ahmed à rede de televisão Al Jazeera no mesmo dia em que a ONG Human Rights Watch (HRW) denunciou que 233 pessoas já morreram desde o início das manifestações populares.

Da capital líbia, Ahmed também assegurou que as forças de segurança praticamente se retiraram da cidade e que várias delegacias e outros prédios públicos também foram saqueados ou incendiados.

"Praticamente não há forças da ordem. Não se sabe aonde foram. Esta situação favorece os rumores alarmantes", explicou o jornalista, que mencionou como um deles a possível fuga de Gaddafi do país e divergências entre altos dirigentes do Exército e de outros corpos de segurança.

AP
Manifestantes antigoverno fazem protesto contra o ditador Muammar Gaddafi na cidade de Benghazi
Manifestantes antigoverno fazem protesto contra o ditador Muammar Gaddafi na cidade de Benghazi

Segundo Ahmed, há apenas um cordão policial em torno da sede da rede de televisão estatal Libya TV.

Testemunhas disseram à agência de notícias France Presse que o prédio que servia de sede para um canal de televisão e uma rádio pública foi saqueado no domingo à noite por manifestantes em Trípoli.

"Um local que abrigava o canal Al-Jamahiriya 2 e a rádio Al-Shababia foi saqueado", afirmou uma testemunha, que pediu anonimato. A programação do canal e da emissora de rádio foi retomada nesta segunda-feira.

A Al-Jamahariya 2, segundo canal público, e a rádio Al-Shababia foram criadas por um dos filhos de Gaddafi, Seif al Islam, em 2008, antes de serem nacionalizadas.

Confrontos entre manifestantes e forças de segurança se espalharam no domingo até a capital líbia. O filho de Gaddafi foi à TV estatal para afirmar que seu pai continua no poder --com apoio do Exército-- e que irá "lutar até o último homem, a última mulher, a última bala".

Até mesmo durante o pronunciamento de Seif al Islam Gaddafi, na noite de domingo, confrontos foram registrados nas proximidades e na praça Verde, no centro de Trípoli, durando até a madrugada de segunda-feira, segundo testemunhas.

Elas informaram que atiradores abriram fogo contra a multidão que tentava assumir o controle da praça, e partidários de Gaddafi passavam pelo local em veículos a altas velocidades, atirando e indo para cima dos manifestantes.

Os protestos e a violência foram os mais fortes até agora na capital, um sinal de que a revolta está se espalhando após seis dias de demonstrações anti-Gaddafi em cidades do leste do país.

Na segunda maior cidade da Líbia, Benghazi, manifestantes tinham assumido, na manhã desta segunda-feira, as ruas depois de dias de confrontos sangrentos e invadiam os escritórios das forças de segurança, saqueando armas.

Um avião da Turkish Airlines que tentava aterrissar em Benghazi foi forçado a sobrevoar o aeroporto e retornar a Istambul.

Os manifestantes em Benghazi tiraram a bandeira líbia que ficava no prédio do principal tribunal da cidade e, em seu lugar, colocaram a bandeira da antiga monarquia do país, derrubada em 1969 em um golpe militar que levou Gaddafi ao poder.

A Líbia tem sido palco da mais sangrenta repressão na onda de protestos que atingiu diversos países árabes e que derrubou os ditadores do Egito e da Tunísia.

PRONUNCIAMENTO

Apesar dos sinais de que os protestos antirregime estão se espalhando, o filho de Gaddafi afirmou na TV, na noite de domingo, que seu pai irá prevalecer. "Não somos a Tunísia e o Egito", afirmou Seif al Islam. "Muammar Gaddafi, nosso líder, está liderando a batalha em Trípoli e nós estamos com ele."

"As forças armadas estão com ele. Dezenas de milhares estão estão vindo para cá para estar com ele. Iremos lutar até o último homem, a última mulher, a última bala", disse ele em um muitas vezes confuso discurso de que quase 40 minutos.

Reuters
Seif al Islam, filho de Muammar Gaddafi, afirma na TV que pai tem apoio do Exército e que lutará até o fim
Seif al Islam, filho de Muammar Gaddafi, afirma na TV que pai tem apoio do Exército e que lutará até o fim

O filho do líder líbio prometeu ainda "reformas políticas significativas" --mesmo criticando os manifestantes antirregime-- e admitiu que a polícia e o Exército cometeram "erros" na repressão aos protestos, mas disse que o número total de mortes é muito menor do que o que tem sido divulgado.

Seif al Islam é frequentemente apresentado como a face do regime de reforma. Muitos dos filhos de Gaddafi têm posições de poder no governo e, nos últimos anos, têm competido por influência.

O filho mais novo de Seif, Mutassim, é o conselheiro para segurança nacional, com um impostante papel entre os militares e forças de segurança. Outro filho, Khamis, lidera a 32ª brigada do Exército que, segundo diplomatas dos Estados Unidos, é a força mais bem treinada e melhor equipada.

Países ocidentais expressaram preocupação com o aumento da violência contra manifestantes antigoverno na Líbia.

O chanceler britânico, William Hague, disse ter conversado com Seif al Islam por telefone e que lhe disse que o país deve começar um "diálogo e a implementação de reformas".

GOLPE

A rebelião dos líbios frustrados com os 42 anos de governo autoritário de Gaddafi se espalhou para mais de meia dúzia de cidades no leste do país.

Em um revés para o regime, a maior tribo líbia --a Warfla-- teria se virado contra o ditador e anunciado que irá se juntar aos protestos, segundo informou o exilado Fathi al Warfali, que vive na Suíça.

Embora tenha uma animosidade de longa data com Gaddafi, a tribo vinha se mantendo neutra nas últimas duas décadas.

O representante líbio da Liga Árabe anunciou que estava renunciando ao cargo para protestar contra a decisão do governo de atirar contra manifestantes em Benghazi.

A internet continua não funcionando no país e moradores não conseguem fazer ligações internacionais. Jornalistas também são impedidos de trabalhar livremente.

 

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