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07/07/2011 - 19h57

Espanha investiga acusações de sequestro de bebês

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RAPHAEL MINDER
DO "NEW YORK TIMES", EM SEVILHA

Pressionados por pais que perderam filhos, juízes espanhóis estão investigando centenas de casos de crianças pequenas sequestradas e vendidas para adoção, ao longo de 40 anos. O que pode ter começado como uma retaliação política contra famílias esquerdistas na era da ditadura do general Francisco Franco parece ter se transformado em uma operação de tráfico humano na qual médicos, enfermeiras e até freiras conspiraram com organizações criminosas.

Os casos, que podem atingir a ordem dos milhares, vêm causando abalo em um país que continua sob o efeito adverso dos terrores visíveis e ocultos da guerra civil espanhola, em 1936-1939, e do governo de Franco.

Na semana passada, Concepción Rodrigo Romero, 78, passou a fazer parte do crescente número de pais espanhóis que estão recorrendo à Justiça a fim de descobrir o paradeiro de seus bebês. Rodrigo Romero, costureira aposentada, deu à luz um bebê prematuro em 1971. Um médico em Sevilha disse que o filho dela era um menino, "pequeno mas forte e capaz de crescer bastante", ela relembrou em uma entrevista. O médico não apareceu mais, e Rodrigo Romero jamais viu seu bebê de novo. Dois dias mais tarde, outro médico informou ao seu marido que o bebê havia sido encaminhado a outro hospital para exames, e havia morrido lá.

O médico disse que o segundo hospital havia cuidado do enterro, e que o corpo estava sepultado no cemitério de San Fernando, em Sevilha, em um túmulo sem identificação.
"No fundo, eu sempre soube que aquele filho me havia sido roubado", disse Rodrigo Romero.

O Judiciário espanhol se viu forçado a agir depois que a Anadir, uma associação formada para representar pessoas em busca de filhos ou pais desaparecidos, apresentou suas primeiras queixas judiciais, no final de janeiro. O procurador geral da Justiça espanhola, Candido Conde-Pumpido, anunciou em 18 de junho que 849 casos estavam sob investigação, e acrescentou que 162 deles já podiam ser classificados como processos criminais, devido a indícios que apontam para sequestros.

Os casos das crianças desaparecidas se estendem de 1950 a 1990. Alguns historiadores e juízes dizem que o governo Franco sequestrava crianças de famílias que haviam apoiado seus oponentes na guerra civil. Mas a prática continuou até bem depois da morte de Franco, em 1975. Não se sabe se funcionários do governo tiveram algum envolvimento.

Conde-Pumpido disse que era impossível estimar o número de casos que poderiam surgir, e também sugeriu pela primeira vez que grupos de crime organizado poderiam estar envolvidos. Ele não ofereceu detalhes, declarando apenas que não acreditava que "uma só organização" tivesse organizado todos os sequestros.
Antonio Barroso, 42, presidente da Anadir, disse acreditar que, com o tempo, a Espanha se tenha tornado um polo para quadrilhas envolvidas no tráfico internacional de pessoas, e que muitas crianças pequenas tenham sido vendidas para adoção no exterior.

A possibilidade de uma operação como essa é uma das muitas questões ainda não respondidas que a dolorosa jornada dos pais e crianças submetidos a tamanho silêncio despertaram nos últimos meses.
Barroso criou a Anadir em fevereiro de 2010, depois de ser informado por um amigo que os dois eram filhos adotivos. Ele extraiu amostras de ADN da mulher que sempre havia considerado como sua mãe e a confrontou depois que testes revelaram que a amostra dele e a dela não eram compatíveis. Ela admitiu que havia pago a uma freira por um bebê, e que o havia iludido durante décadas alegando ser sua mãe biológica.
Barroso diz que conseguiu localizar a freira, que trabalhava em uma maternidade. O processo que ele abriu -contra a freira e outros membros da equipe do hospital- ainda não chegou ao tribunal, e ele está em busca de seus pais verdadeiros.

De acordo com a Anadir, um pequeno grupo de filhos adotivos conseguiu localizar seus pais naturais, mas até agora a maioria dessas pessoas preferiu manter o anonimato. Para ajudar nas questões judiciais, a Anadir e outras associações semelhantes que surgiram com o crescimento da lista de queixosos estão tentando recrutar advogados dispostos a trabalhar sem remuneração.

No mês passado, aconteceram as primeiras exumações em um cemitério de La Linea de Concepción, depois de alegações de que bebês haviam sido enterrados ali. A procuradoria regional de Madri disse que requereria que membros de equipes médicas, entre os quais freiras que trabalhavam como enfermeiras, depusessem em tribunal sobre o paradeiro de algumas das crianças nascidas ao longo do período de 40 anos que está sob investigação. Algumas poucas freiras confessaram ter vendido crianças, mas sem sugerir que fizessem parte de uma rede criminosa. A Igreja Católica não comentou.

Uma companhia de Madri, a Genomica, criou um banco de dados de ADN com material de cerca de 700 pessoas, em janeiro. Mas mesmo com os testes de ADN, os promotores enfrentarão dificuldades para localizar valas comuns em busca de restos de bebês supostamente sepultados lá. As fichas médicas em muitos casos são incompletas ou contraditórias.

Registros médicos falhos ocupam posição central no processo aberto por Dolores Diaz Cerpa, que alega que seu filho recém-nascido foi sequestrado em 1973. Diaz Cerpa havia sido informada por um médico de que estava grávida de gêmeos. Ela teve uma filha, mas uma enfermeira negou que ela tivesse gestado outro feto. Diaz Cerpa sempre suspeitou de uma mentira, e depois de ouvir que outros pais estavam em busca de bebês sequestrados, ela solicitou ao hospital uma nova cópia do histórico médico do nascimento de sua filha. Mas recebeu documentação referendo a um menino.

"O hospital sugeriu que isso fosse apenas um velho erro administrativo, mas ninguém será capaz de me convencer de que não estive certa, infelizmente, por todas essas décadas", disse.

O estatuto de prescrição espanhol dispõe que a maior parte desses crimes está isenta de processo, e isso levou advogados a discutir se não seria apropriado adotar um estatuto especial. Em 2008, Baltasar Garza, um juiz espanhol renomado internacionalmente, ampliou uma investigação sobre acusações de crimes cometidos na era de Franco para examinar, também, se o ditador havia ordenado o sequestro de milhares de crianças filhas de mulheres que haviam apoiado seus oponentes.

Alguns casais, como Joaquin Saez Naranjo e Manuela Sanchez Cintado, de Sevilha, abriram múltiplos processos. Eles perderam dois bebês em circunstâncias suspeitas, em 1972 e 1985.

No caso de 1985, Sanchez Cintado disse que os médicos realizaram uma ultrassonografia e que ela foi congratulada por estar gestando um menino. Depois do parto, ela foi informada de que o bebê havia sido encaminhado a uma enfermaria especial devido a um "pequeno problema". Enquanto isso, seu marido recebia, em separado, a informação de que a filha do casal havia morrido.

"Eu estava grávida de um menino e ele foi trocado por uma menina morta", relembra Sanchez Cintado, visivelmente comovida. "Era uma história tão ridícula como se um médico dissesse que quebrei o cotovelo e começasse a operar meu pulso".

Como outros pais, Saez Naranjo afirma que hoje se arrepende profundamente de ter aceitado o conselho médico de que seria melhor para ele e a mulher não passar pelo choque de ver o cadáver da filha. Em lugar disso, ele foi ao cemitério de San Fernando, em Sevilha, para o sepultamente de uma "trouxa de pano", em
uma vala comum.

Na semana passada, ele voltou ao cemitério e foi informado por funcionários de que os restos daquele sepultura haviam sido transferidos uma década atrás, para local não identificado.

Em entrevistas separadas, alguns dos pais queixosos afirmaram ter permitido que os hospitais cuidassem dos funerais porque seus planos de saúde não cobriam esses custos. Outros se declararam ingênuos ou ignorantes
demais para contestar os profissionais médicos, a despeito de suas suspeitas.

Durante o regime de Franco e nos primeiros anos depois dele, "você simplesmente não contestava as autoridades", disse Maria Luisa Puro Rodriguez, antiga operária em uma fábrica de cigarros que alega ter tido um bebê sequestrado em 1976, em um hospital de Málaga. "Agora, por sorte, vivemos em uma sociedade na qual é normal questionar o que nos dizem", afirmou. "Aprendi essa amarga lição, e agora estou pronta a batalhar ao máximo para descobrir o que realmente aconteceu".

TRADUÇÃO DE PAULO MIGLIACCI

 

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