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Embaixador quer apoio de Dilma em abertura da ONU
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ISABEL FLECK
DE SÃO PAULO
O embaixador palestino no Brasil, Ibrahim Al Zeben, espera que, quando a presidente Dilma Rousseff fizer o discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, no dia 21, consiga pôr um fim na "etapa Osvaldo Aranha" e inaugure a "etapa Dilma Rousseff", referência à criação de Israel após proposta pela ONU enquanto Aranha era presidente da Assembleia Geral.
Em entrevista à Folha, o diplomata disse que seu governo pediu ajuda ao Brasil para "convencer" outros países sobre o reconhecimento do Estado palestino, e agradeceu o apoio de 35 entidades brasileiras, que organizaram uma passeata para o dia 20, às 15h, na Praça Ramos de Azevedo, em São Paulo.
Folha - Como membro do Conselho de Segurança, o Brasil tem ajudado os palestinos na sua busca pelo reconhecimento na ONU?
Ibrahim Al Zeben - O Brasil reconhece a Palestina desde 1ë de dezembro de 2010, e nós solicitamos ao Brasil e a os nossos amigos que usem seus bons ofícios para convencer os países de seguir adiante nesta estratégia [de reconhecer o Estado palestino]. Qualquer esforço para admitir a Palestina como membro das Nações Unidas é bem-vindo, e o Brasil, para nós, é um país muito importante na arena internacional, que tem uma grande influência. Nas últimas três, quatro semanas, houve uma movimentação política muito forte dos dois lados. Israel também está se movimentado para convencer o mundo a não admitir a Palestina como Estado. Os Estados Unidos estão pressionando por todos os meios do último foi a declaração do porta-voz [anteontem] de que usarão todos os seus recursos para evitar ou dissuadir os palestinos.
O Brasil abre todo ano a Assembleia Geral, em Nova York. O senhor espera, que, na próxima semana, a presidente Dilma já demonstre seu apoio no discurso de abertura?
Sim. Esperamos que seja o fim da 'etapa Osvaldo Aranha' e o início da 'etapa Dilma Rousseff'. Como presidente da Assembleia Geral da ONU em 1947, Aranha recomendou a partilha da Palestina que criou Israel e não conseguiu criar a Palestina. Temos esperança que agora o Estado da Palestina será criado e admitido Ðe quem inaugura a sessão é a presidente Dilma Rousseff.
Qual o peso do apoio organizado por esses grupos sociais e políticos no Brasil?
É um apoio moral, uma mensagem da sociedade civil de que o povo brasileiro, representado por essas entidades, está a favor da paz e da criação do Estado da Palestina.
A primeira intenção palestina era levar o pedido de reconhecimento ao Conselho de Segurança, mas há a ameaça de veto dos Estados Unidos. Como será o processo?
A solicitação ainda será feita ao Conselho de Segurança, para sermos integrados como o Estado 194 da ONU. A Assembleia Geral será o segundo passo, qualquer que seja a resposta do Conselho. Mas uma resolução da Assembleia nos dará status de não-membro.
O que muda se a Palestina passar de observador para país `não-membro'?
Já não seremos mais a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), mas o Estado da Palestina. É um Estado que tem o território ocupado pela força. Queremos devolver essa responsabilidade de estabelecer a paz à ONU, porque a ONU recomendou a partilha da Palestina e reconheceu o Estado de Israel, mas ignora o Estado da Palestina há 64 anos. O processo de paz [os acordos de Oslo] que cumprem hoje [ontem] 18 anos não deram certo até o momento. Portanto, a responsabilidade recai agora sobre o Conselho de Segurança, como primeiro responsável da paz mundial, e a Assembleia Geral, representando a comunidade internacional.
Qual o apoio que a Palestina já tem na Assembleia?
Podemos assegurar que contamos com maioria absoluta, de mais de 130 países. E ainda temos dez dias, o que não é pouco na história da humanidade. Ainda tenho a esperança de que Israel e os Estados Unidos sejam os primeiros dois países a reconhecer a Palestina, porque é para o bem de todos.
Entre os 130, estão contabilizando os países europeus?
Alguns, porque a União Europeia possivelmente não vai votar como bloco. Ainda não recebemos a posição oficial da Europa. Mas todos tem responsabilidade sobre o tema, em especial a Europa Ocidental. Ninguém é imune, todos devem ter uma posição. E acho que a posição justa é respeitar aquela votação feita há 64 anos [na ONU].
Um dos argumentos de Israel é que a criação do Estado palestino de forma unilateral prejudicaria os esforços de paz...
Israel não quer o Estado palestino. Não quer ver um estado palestino. Nem unilateral, nem multilateral. E esse não é um passo unilateral: estamos indo às Nações Unidas porque o processo de paz, porque [o primeiro-ministro Binyamin] Netanyahu, porque esses governos sucessivos não querem ver um estado palestino. Em 18 anos [desde os acordos de Oslo], em que avançamos? Avançou um muro, avançaram os assentamentos, o bloqueio contra Gaza, os assassinatos, as demolições de casas, a judaização de territórios palestinos. Mas não vimos uma posição séria por parte de Israel. Eles têm a palavra em 10 dias. E aí voltaremos às negociações.
Se aprovado o reconhecimento, qual o próximo passo?
Negociar um calendário com Israel para a retirada militar do território ocupado. Estamos conscientes que o reconhecimento não é um substituto das negociações. Vamos ter que negociar a questão dos refugiados, de Jerusalém. Mas se Israel tomar a decisão de reconhecer o Estado palestino, vai facilitar as futuras relações entre os dois Estados. E nosso objetivo é manter as melhores relações com o nosso novo vizinho e nos reconciliar com o Estado que tem causado o nosso holocausto.
Essa não é uma palavra muito forte?
No último domingo, estávamos, lamentavelmente, lembrando o décimo aniversário do atentado às Torres Gêmeas e eu estava pensando quantas semanas ou meses seriam necessários para relembrar os nomes das vítimas palestinas ao longo desse conflito, desde 1917. Por acaso isso não é um holocausto?
Como está hoje a estrutura do Estado palestino?
Os três poderes existem sob a Autoridade Palestina e o Banco Mundial reconheceu, em maio, que o Estado palestino já está pronto para se autogovernar. As instituições a todos os níveis, exceto o Legislativo, estão funcionando de maneira harmônica.
E as relações conturbadas com o Hamas? Como isso se dará em um Estado palestino?
O Hamas está a favor da criação do Estado palestino, e as negociações continuam. Consideramos que a reconciliação com o Hamas é um passo tão importante quanto a criação do Estado da Palestina, porque o Hamas é parte integrante e importante do tecido político social palestino. Não existe Palestina sem a reconciliação entre Hamas e Fatah. Mas esse pode ser um passo paralelo à criação do Estado.
O isolamento diplomático de Israel pode pesar a favor da Palestina na ONU?
Pode ser ruim para a ocupação israelense. O que está sendo condenado mundialmente são as práticas, o colonialismo, o muro. A agressão contra um barco civil, que estava em águas internacionais foi o que causou a crise [com a Turquia]. Não a criação de Israel, nem o último invento científico feito em Telavive. O que está causando o seu isolamento é a própria atitude de Israel, essa intransigência, esse desafio contra o direito internacional.
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