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Ação do governo da Bolívia coloca em jogo a sua ambiguidade
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SALVADOR SCHAVELZON
ESPECIAL PARA A FOLHA
O conflito em curso na Bolívia em razão da resistência à construção da rodovia que cortaria o Tipnis (Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure) é um confronto entre duas forças que, até recentemente, conviviam como parte do projeto político que elegeu Evo Morales e resultou na proposta constitucional de 2009.
De um lado a proposta indígena do "Viver Bem" e da construção de um Estado plurinacional comunitário, com base no direito à diferença e reconhecimento de autonomia e território dos indígenas.
De outro, a busca de integração nacional, a luta contra a pobreza pelo desenvolvimento capitalista, a industrialização e o discurso estatal nacionalista, que prioriza o que seria o interesse das maiorias, apesar de custos ambientais e da violação de direitos.
A tensão na Bolívia expõe a possibilidade de que a solução não seja a habitual, do etnocídio, tendo em conta a capacidade de mobilização tantas vezes demonstrada.
A recente operação policial para dispersar a marcha de protesto deve ser compreendida como sinal de um novo cenário, no qual o governo se afasta de seus velhos aliados.
As duas tendências agora antagônicas resultam na separação entre os povos indígenas da selva --e seus aliados nas cidades e nas comunidades andinas que buscam a reconstituição de seus territórios ancestrais-- e o governo e suas bases camponesas e cocaleiras, que vêm ocupando o território e aprovam a construção da estrada.
É por isso que se escuta hoje que "Evo Morales nunca foi indígena" e antigos adversários se unem em defesa dos povos das terras baixas.
Com o desenlace desse conflito, poderemos determinar se surgirá um novo quadro político, com novos agentes que arrebatem ao governo as bandeiras da descolonização, da Pachamama e do território; ou se o governo Morales reagirá e recuperará sua capacidade de avançar costurando projetos diferentes das maiorias e também das minorias indígenas, que pela primeira vez detêm poder, para levar adiante a construção de um Estado plurinacional na Bolívia.
SALVADOR SCHAVELZON é antropólogo e professor da PUC-Campinas, com doutorado sobre o processo constituinte boliviano (Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro)
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