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29/09/2011 - 15h49

Pintor encontrado em Portugal é americano que fugiu disfarçado de padre

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JAMES BARRON
DO "NEW YORK TIMES"

O capitão William H. May notou o homem que deu início à confusão. O padre.

May e uma comissária de bordo estavam ao lado da porta da cabine naquela manhã, 39 anos atrás, quando passageiros começaram a embarcar no avião DC-8 em Detroit. A comissária estava reclamando sobre alguém em um voo anterior.

O padre subiu no avião, olhou diretamente para May, fez um gesto de "sim" com a cabeça e dirigiu-se a seu assento.

"Falei: 'Um padre. Talvez nesse a gente possa confiar'", recordou May na quarta-feira. "Eu estava tão enganado."

May se deu conta disso algumas horas mais tarde, quando o voo com destino a Miami sobrevoava a Geórgia. O padre tirou uma arma de uma Bíblia que carregava, cujo centro tinha sido escavado, e colocou a arma na cabeça da comissária.

O pistoleiro --que não era padre, apesar do disfarce, mas um assassino condenado que, segundo alguns relatos, tinha trabalhado ocasionalmente como modelo-- foi finalmente preso na segunda-feira, em Portugal.

May foi uma das muitas pessoas que cruzaram o caminho do homem que as autoridades identificaram como George Wright, 68 anos --e que na quarta-feira se viram revivendo um drama bizarro que tem a estrutura audaciosa de um policial de Elmore Leonard. E quem não se recordava do caso se viu olhando as fotos granulosas de agentes do governo que usaram sungas ao entregar US$ 1 milhão --o maior resgate desse tipo que havia sido pago até então--, para que os sequestradores pudessem confirmar que não estavam armados.

Para alguns, a notícia da prisão de Wright foi um retorno ao passado, como teria sido capturar Billy the Kid ou Jesse James nos tempos dos pistoleiros que andavam a cavalo. A captura de Wright foi um portal que conduziu de volta a um tempo de sequestros de aviões e grupos revolucionários como o Exército de Libertação Negra, ao qual Wright tinha se juntado.

"A notícia trouxe aquele passado de volta. Desde que a ouvi, estive revivendo aquele dia", contou May. "O padre foi o sujeito mais falador. Era ele quem mais ou menos comandou a história toda."

O capítulo mais recente aconteceu sem alarde. Wright foi preso depois de uma força-tarefa de agências policiais dos Estados Unidos ter vinculado as impressões digitais constantes de sua carteira de identidade portuguesa ao fugitivo que era procurado desde a época em que Richard Nixon era presidente.

Há 20 anos em Casas Novas, vilarejo a 41 quilômetros de Lisboa, de frente para o oceano Atlântico, Charles Wright atende pelo nome de José Luis Jorge dos Santos. Ele era conhecido como "Jorge Pintor" --alguém que pintava casas e fazia serviços avulsos. Trabalhou por algum tempo como cozinheiro, assando frangos. Ele vivia com sua mulher, portuguesa, e dois filhos adultos em uma casa caiada com porta amarela e portão do jardim, com uma placa na porta que a identificava como "Casa das Escadas".

"Estou espantado", disse seu vizinho do lado, Vitor Louçada, 62, pedreiro aposentado que às vezes trocava peixes que pescara por frangos de Wright.

A carteira de identidade portuguesa de Wright o identifica como sendo de Guiné-Bissau, país da África ocidental que conquistou sua independência de Portugal em 1974. O prefeito da cidade, Rui Franco dos Santos, disse que o único indício de que Wright sabia algo sobre a cultura americana foi em 1997, quando ele se ofereceu para ajudar a montar um time de basquete juvenil.

No final o time optou pelo handebol, e o prefeito disse que Wright não se ofereceu para ser treinador nessa modalidade.

Wright compareceu a um tribunal de Lisboa na terça-feira e pediu para ficar em liberdade enquanto o tribunal analisa o pedido de extradição para os Estados Unidos. Mas, segundo Laura Sweeney, porta-voz do Departamento de Justiça, o juiz indeferiu seu pedido.

A trilha de Wright tinha praticamente sumido em 2002, quando foi formada uma força-tarefa regional para localizar foragidos de Nova York e Nova Jersey. O grupo, que incluía o Serviço de U.S. Marshals e o FBI, retomou o caso de Wright e acabou seguindo pistas que apontavam para Portugal. As impressões digitais de Wright, colhidas nos EUA na época em que ele foi preso por homicídio em Nova Jersey, em 1962, correspondiam às de Jorge dos Santos em um banco de dados português.

Charles Wright foi condenado pela morte a tiros do dono de um posto de gasolina, Walter Patterson, veterano condecorado da Segunda Guerra Mundial. Wright, que roubou US$70 do posto, acabou sendo sentenciado à pena de 15 a 30 anos de prisão.

Em agosto de 1970, ele e três outros presos fugiram da atual penitenciária estadual Bayside, em Leesburg, Nova Jersey.

Wright acabou chegando a Detroit, onde viveu em uma casa, em uma comunidade que praticava sua religião própria. Um montículo de terra foi encontrado na sala, e, no centro dele, uma boneca apunhalada. Havia também uma Bíblia e o que a polícia disse serem símbolos astrológicos. A casa não existe mais; o que resta hoje é um terreno baldio, coberto de mato.

Em 1972, Wright, vestido de padre, esteve ao centro do grupo que sequestrou o avião do capitão May, o voo 841 da Delta, e exigiu resgate de US$1 milhão, segundo o FBI. Os sequestradores exigiram também que o avião fosse levado à Argélia, onde contavam receber asilo.

"Ele disse 'diga a eles isso' e 'diga aquilo'", recordou May na quarta-feira. "Eu falei 'diga você mesmo' e lhe entreguei o microfone. Ele falou: 'Se o dinheiro não estiver aqui até as 14h, vou começar a jogar um corpo pela porta a cada minuto depois desse horário'. Pensei que fosse apenas uma ameaça vazia, mas nunca se pode saber ao certo. Eu não sabia que dois deles eram foragidos que cumpriam pena por homicídio. Se eu tivesse sabido disso, teria sido bem mais prestativo. Tivemos algumas trocas de palavras bem ásperas. Então o FBI falou que o dinheiro estava a caminho."

O plano era enviar um veículo semelhante a um caminhão, com degraus que pudessem chegar até a cabine do avião e duas pessoas a bordo --uma para dirigir o caminhão e outra para carregar a mala com o dinheiro.

"Eles disseram 'quero que esses caras venham para cá nus', para que ficasse claro que não estavam armados", recordou May. "Falei 'ei, seja razoável. Os caras não podem vir nus.'"

Ele disse que o copiloto sugeriu que viessem de sunga.

Os sequestradores libertaram os passageiros, e o avião decolou para Boston e depois para Argel.

Quatro anos após o sequestro, os outros sequestradores foram presos em Paris. Mas Wright continuou foragido.

Ann Patterson, filha do homem que Wright matou em 1962, disse que sente-se "como se um peso tivesse sido tirado".

Ela contou que seu pai foi motorista no exército e recebeu a Estrela de Bronze por ter tirado suas tropas do perigo quando elas foram alvo de fogo pesado nas florestas na Itália.

Patterson disse que certa vez perguntou "por que você fez isso, pai?"

"Ele falou: 'Porque eram meus homens, e eu tinha que tirá-los de lá'."

Com reportagem de Alan Fisk em Detroit, Raphael Minder em Casas Novas, Portugal; Nate Schweber em Freehold, Nova Jersey, e Jack Begg, Matt Flegenheimer, Elizabeth A. Harris e William K. Rashbaum em Nova York

TRADUÇÃO DE CLARA ALLAIN

 

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