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Direitos das mulheres afegãs merecem ser defendidos, mas não justificam guerra
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MADELEINE BUNTING
DO "GUARDIAN"
O décimo aniversário da invasão do Afeganistão cai na primeira semana de outubro, mas vai atrair apenas uma fração da atenção voltada aos eventos do mês passado para lembrar os dez anos passados desde o 11 de setembro. Apenas alguns poucos protestos marcados para o Reino Unido e os EUA no sábado vão tentar fazer o público desatento prestar atenção à guerra que já é a mais longa dos Estados Unidos.
Este conflito já dura mais tempo que as duas guerras mundiais, somadas. As estimativas conservadoras avaliam as baixas afegãs em cerca de 40 mil, e as da coalizão quase igualam o número de mortos nas Torres Gêmeas. Enquanto isso a guerra está custando, só ao Reino Unido, 12 milhões de libras por dia. A operação Liberdade Duradoura acabou mostrando envolver muito mais persistência do que se imaginou --e bem pouca liberdade.
A fadiga de guerra que gera indiferença e confusão forma um contraste acentuado com o interesse intenso de quando a guerra começou. Em setembro de 2001 havia um interesse público enorme em compreender as trágicas complexidades da história do Afeganistão e da situação de um país traumatizado por décadas de conflito. Um filme de arte foi sucesso de bilheteria: "O Caminho de Kandahar", do diretor iraniano Mohsen Makhmalbaf, descobriu o rico veio de solidariedade mais tarde tão bem explorado pelo romance "O Caçador de Pipas" e uma sucessão de outros best-sellers. O Afeganistão parecia ser um país que precisava ser salvo dele mesmo. Hoje é difícil lembrar que a guerra no Afeganistão era popular, em comparação com a do Iraque. Os protestos contra ela eram moderados ou inexistentes.
Um fator chave para garantir esse apoio da opinião pública foi o modo como, ao longo de algumas semanas em 2001, uma guerra de vingança passou a ser descrita como sendo uma guerra em favor dos direitos humanos no Afeganistão, e, em especial, dos direitos das mulheres. Foi uma narrativa para justificar uma guerra, e mostrou ser muito poderosa. Uma causa que havia anos era ignorada ou desprezada em Washington de repente chegou ao centro das atenções. O vídeo de uma mulher sendo executada no estádio de Cabul que a Associação Revolucionária de Mulheres do Afeganistão vinha oferecendo infrutiferamente para a BBC e a CNN foi pego pelo Pentágono e usado amplamente. O tratamento brutal dado pelo Taleban às mulheres, o fechamento das escolas para meninas: tudo isso foi usado para justificar a invasão militar e calar o debate.
Laura Bush, a então primeira-dama, assumiu o bate-papo semanal do presidente na rádio, desde a Casa Branca, na semana antes do Dia de Ação de Graças de 2001, e apresentou os argumentos em favor da guerra. Ela colocou a luta pelos direitos das mulheres lado a lado com a guerra contra o terror: "A opressão brutal das mulheres é a meta central dos terroristas", afirmou. Disse que as "pessoas civilizadas" têm "a obrigação de se manifestarem" em todo o mundo contra o que estava acontecendo com as mulheres afegãs e "o mundo que os terroristas gostariam de impor ao resto de nós". Concluiu com "a luta contra o terrorismo diz respeito à luta pelos direitos e a dignidade das mulheres". Cherie Booth ecoou suas posições.
Não se trata apenas de história: a equiparação de agressão ocidental com defesa dos direitos das mulheres está à base dos últimos dez anos de conflito. Laura Bush já repisou e ampliou seus temas de 2001 em intervalos regulares várias vezes desde então. Em 2010 a "Time" publicou em sua capa uma foto de uma garota, Bibi Aisha, cujo nariz foi cortado, com a manchete "O que acontece conosco se deixamos o Afeganistão". Como observa meu colega Jonathan Steele em seu novo e fascinante livro "Ghosts of Afghanistan" (Fantasmas do Afeganistão), a história de Bibi não se encaixa perfeitamente no quadro do Taleban brutal.
Mas não tinha importância. A situação das mulheres afegãs era um grito de guerra que não dava lugar para discussões ou nuances. Havia verdade suficiente nela --como, por exemplo, o pior índice de mortalidade materna do mundo-- para silenciar qualquer dúvida. Essa história moral simplista de como os soldados americanos iriam promover os direitos das mulheres afegãs se encaixa muito bem com a tese proposta por Susan Faludi em seu livro "The Terror Dream". Nele ela analisou como, após o 11 de setembro, os americanos usaram mitos históricos, por exemplo sobre caubóis resgatando e protegendo mulheres fracas, numa tentativa de infundir um sentido maior ao ataque.
Nos últimos dez anos, poucos esforços foram feitos para entender o Afeganistão e sua história. O país já tinha passado por várias tentativas no século 20 de levar progresso para suas mulheres. As tentativas acabaram em fracasso, tendo motivado resistência profunda por terem sido vistas como esforços de modernização estrangeira, importada, que corroíam a identidade tradicional afegã. A questão dos direitos das mulheres abria divisões entre as populações rural e urbana e entre grupos étnicos diferentes, em um país já fragmentado. A posição das mulheres foi profundamente politizada neste país dilacerado por guerras. Em áreas rurais conservadoras, figuras poderosas reforçaram sua legitimidade com apelos aos valores tradicionais. A educação de meninas era um tema especialmente delicado, provocando ansiedades quanto à transmissão dos valores conservadores e o funcionamento dos grupos de parentesco. Sistemas sociais tão entrincheirados não podem ser refeitos por pessoas de fora, por mais que a intenção seja positiva.
O que se esqueceu, também, é que durante a longa guerra civil da década de 1990, a violência sexual contra mulheres se tornara endêmica; de fato, muitos dos senhores de guerra apoiados pelos EUA tinham históricos terríveis a esse respeito. O Taleban conseguiu reduzir essa violência, embora tenha empregado alguns métodos brutais. As mulheres não gostavam muito do Taleban, mas admitiam que ele trouxera algum nível de segurança.
O que também se ignorou foi qualquer compreensão de como o longo histórico de conflito no Afeganistão afetou os papéis de gênero. Há muitas pesquisas sobre o impacto do conflito sobre as mulheres, que, cada vez mais, estão entre suas vítimas primárias. Elas são vítimas de violência por parte de inimigos e amigos. O padrão comum é que o conflito polariza os papéis de gênero: a masculinidade se torna mais agressiva, e as mulheres são idealizadas como as "portadoras de uma identidade cultural", nas palavras da Organização Mundial de Saúde. Seus corpos se tornam parte de um campo de batalha. Isso se aplica tanto à República Democrática do Congo quanto ao Afeganistão. Este último, a intervenção estrangeira, em última análise, vem apenas exacerbar essas tendências profundamente destrutivas.
São argumentos incômodos para quem se preocupa com os direitos das mulheres. Qual é a melhor maneira de fomentar esses direitos em culturas profundamente hostis? Como apoiar as pessoas no país que estão trabalhando por transformações? Foi correto usar uma história sobre guerra em prol dos direitos das mulheres? A defesa desses direitos pode ser acompanhada de agressão milita? São perguntas difíceis que podem ser respondidas de muitas maneiras, mas, em relação à última, continuo a pensar, como eu pensava em 2001, que a resposta é "não".
Na segunda-feira a Oxfam vai divulgar um relatório exortando a comunidade internacional a não abrir mão dos direitos das mulheres em um acordo de paz com o Taleban. O texto pede um engajamento de longo prazo em apoio às mulheres. Admiro e compreendo a sinceridade das intenções da organização, mas questiono se os direitos das mulheres devem ser um obstáculo no processo de um acordo. E sou cética quanto a se potências estrangeiras estão em posição de impor termos de negociação. Um grau de segurança no Afeganistão --o que se procura mal merece o nome de "paz"-- pode ter como custo os direitos das mulheres, como aconteceu nos anos 1990, e é possível que muitas mulheres afegãs vejam isso como trágico, porém necessário.
Nos últimos dez anos as organizações de defesa dos direitos humanos e as agências humanitárias têm estado em um dilema doloroso no Afeganistão. Muitas se opuseram à invasão, mas, desde então, acabaram sendo arrastadas a contragosto a aplaudir a coalizão liderada pelos EUA, virando cúmplices incômodas em um projeto de construção de nação que foi feito sob medida para os públicos ocidentais, tanto quanto para as mulheres afegãs.
Tradução de Clara Allain
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