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O sentido das palavras de Evo Morales
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DO "FINANCIAL TIMES"
Evo Morales, o presidente da Bolívia, frequentemente é representado como defensor do meio ambiente e dos direitos indígenas. No entanto, houve violência em seu país na semana passada quando três grupos indígenas protestaram contra planos do governo para a construção de uma estrada de 300 quilômetros passando pelo parque nacional em que eles vivem.
A reação contrária vinda dos mesmos povos ameríndios que o primeiro presidente indígena da Bolívia afirma representar destituiu Morales de sua mística e dividiu seu governo. Na América do Sul, região em franco crescimento, ela também levanta perguntas mais amplas sobre a tensão entre o desenvolvimento econômico e os direitos de propriedade de povos que sentem não ter interesses investidos nesse desenvolvimento.
Morales diz que a rodovia, orçada em US$420 milhões, financiada pelo banco estatal brasileiro BNDES e construído pela construtora brasileira OAS, é necessária para promover o desenvolvimento. Os manifestantes dizem que ela vai levar ao desmatamento descontrolado e à colonização da área por plantadores de folha de coca. O sentimento de revolta popular cresceu depois de o governo de Evo Morales, segundo o qual "governar é obedecer o povo", enviou a tropa de choque. Dois ministros do governo renunciaram a seus cargos. Morales recuou e prometeu um referendo.
Conflitos como esses são cada vez mais comuns na região. No Brasil vêm acontecendo protestos contra a construção da barragem da hidrelétrica Belo Monte, que provocará o deslocamento de até 50 mil pessoas indígenas. Há mais de 200 conflitos em curso no Peru, segundo maior fornecedor mundial de cobre. Já houve incidentes na Colômbia, grande fornecedora de carvão mineral, e no Equador. Mas os protestos possuem uma dimensão extra na Bolívia. Com 60% da população reivindicando ascendência índia, seus movimentos sociais são mais fortes e intransigentes que os de outros países.
A minicrise levanta duas questões. A estrada é uma entre várias planejadas para várias partes da Amazônia e que vão interligar os campos de soja e as minas de ferro do Brasil com portos no Pacífico e, portanto, mercados asiáticos. Mais protestos são inevitáveis. A questão é que tratamento dar a eles.
A segunda questão é que o protesto expôs os furos no discurso político grandiloquente de Evo Morales. Uma parte de seu governo propõe uma perspectiva comunitária contida em uma nova Constituição que proporciona aos povos indígenas o direito de consulta sobre qualquer obra ou desenvolvimento em suas terras. Outra vê um Estado central forte assumindo a liderança no desenvolvimento econômico. Esta segunda visão está ascendendo agora, entrando em choque com os direitos encarnados na primeira. No passado, Evo Morales tinha prazer em seu papel de "Herói Mundial da Mãe-Terra". Agora, tendo escavado para si mesmo um buraco retórico, ele está tendo que deitar-se nele.
Tradução de Clara Allain
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