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05/10/2011 - 18h18

Como foi recuperada a boa reputação de Amanda Knox

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MICHAEL COOPER e ISOLDE RAFTERY
DO "NEW YORK TIMES"

Quando Amanda Knox e sua família aterrissaram em sua cidade, Seattle, na terça-feira, foi o momento culminante de um exaustivo esforço legal, de lobby e de relações públicas que durou quatro anos e acabou tendo frutos quando uma corte italiana revogou sua condenação por homicídio e a libertou da prisão.

A família Knox contratou uma empresa de relações públicas especializada em gerenciamento de crises pouco depois de Knox ser presa, em 2007, durante seu ano de estudos universitários em Perugia, acusada, juntamente com dois homens, de ter matado Meredith Kercher, com quem dividia um apartamento, em um ataque sexual. Voluntários --entre os quais pais de antigos colegas de classe de Knox na escola Seattle Prep-- criaram um site na internet que postava fotos familiares simpáticas de Knox. Tudo isso fez parte de um esforço para
combater o retrato pintado por promotores e a imprensa europeia de uma "diaba".

Em um momento, um juiz de Seattle foi admoestado por ter usado papel timbrado do tribunal para escrever a autoridades italianas em defesa de Knox. E a senadora democrata Maria Cantwell, de Washington, defendeu a causa dela, fazendo gestões junto a autoridades americanas e italianas.

Na noite de terça-feira, em uma rápida entrevista coletiva à imprensa no aeroporto Sea-Tac, Amanda Knox agradeceu, chorando, as pessoas que lhe deram apoio. "Estou realmente sobrecarregada neste momento. Eu estava olhando do avião para a terra, e parecia que as coisas não eram reais", ela disse, depois que seus pais a lembraram que deveria falar em inglês. "O que é importante para mim é só agradecer a todo o mundo que acreditou em mim, que me defendeu, que deu apoio a minha família."

O trabalho das pessoas que a apoiaram não foi nada fácil, sob alguns aspectos. O crime do qual Knox foi acusada e condenada foi espetacular, as declarações dela à polícia foram inconsistentes, e evidências de DNA apresentadas no julgamento pareciam vinculá-la ao crime brutal. Com seus elementos de pesadelo de uma jovem americana na Itália envolvida em um assassinato de natureza sexual, o caso dela fez Knox ganhar notoriedade internacional. Os tablóides britânicos passaram a chamá-la "Foxy Knoxy" (Knoxy Malandra), adotando um apelido que ela mesma usara em suas páginas no Facebook e MySpace (sua família disse mais tarde que o apelido dizia respeito a suas habilidades futebolísticas, não a sua vida amorosa).

Mas quando ela foi libertada de uma prisão italiana, na segunda-feira, o retrato público de Amanda Knox já era muito diferente: muitos relatos de mídia, pelo menos nos Estados Unidos, a retratavam como uma moça simpática, estudante de linguística na Universidade de Washington que se tornou vítima do sistema de Justiça italiano enquanto passava um ano estudando no exterior.

Ninguém pode afirmar ao certo se o trabalho cuidadoso e calculado de reabilitação de sua imagem ajudou a levar o tribunal italiano a mudar de opinião. Em última análise, o que a fez ser inocentada foi um relatório oficial que pôs em dúvida as evidências de DNA colhidas no caso. Mas o frenesi de mídia foi mencionado pela acusação e a defesa no tribunal, em setembro.
Um dos promotores, Giuliano Mignini, reclamou no tribunal sobre "a exaltação mórbida feita pela mídia" de Knox e seu ex-namorado, Raffaele Sollecito, que também tinha sido condenado pelo assassinato, ao lado de um segundo homem, Rudy Guede.

"Este lobby, este circo de mídia e político, esta interferência pesada, esqueçam tudo isso!", ele recomendou ao tribunal, segundo a Associated Press.

Os advogados de Amanda Knox alegaram que sua cliente tinha sido "crucificada" pela mídia.

A corte de apelações que revogou as condenações de Knox e Sollecito confirmou a condenação de Knox por difamação, pelo fato de ter acusado o dono do bar para quem trabalhara, Diya
Lumumba, de cometer o assassinato --o que o levou a ser preso e depois solto (mais tarde Knox disse que a polícia a pressionara a acusá-lo).

A condenação por assassinato do terceiro réu, Guede, em um julgamento separado, foi confirmada na apelação.

Pelo menos uma faixa de boas-vindas a Knox foi vista na terça-feira no bairro dela, apesar de seus pais terem pedido que isso não fosse feito, por respeito à vítima, Kercher, cuja família estava em estado de choque com a reviravolta descrita pelo caso.

O esforço para moldar a imagem de Amanda Knox começou pouco após a prisão dela, em 2007. O pai dela, Curt Knox, foi posto em contato com a firma de relações públicas de Seattle
Gogerty Marriott por um colega dele na Macy's, onde ele era vice-presidente na época. A família queria ajuda para lidar com a enxurrada de ligações da mídia, mas, num primeiro momento, tinha restrições ao que podia falar.

"Basicamente, era porque os advogados de Amanda na Itália não queriam que a família desse entrevistas na fase inicial", disse David Marriott, relações-públicas veterano que cuidou do caso.

Num primeiro momento, ele pediu a alguns dos amigos de faculdade de Knox que dessem entrevistas com depoimentos sobre o caráter dela.

Mas alguns familiares, amigos e vizinhos estavam ficando preocupados, achando que a imagem dela estava sendo moldada por tablóides britânicos e promotores italianos. Foi formado um grupo de voluntários chamado Amigos de Amanda, e alguns meses depois o grupo criou um site na internet. No site, o retrato desvairado de Knox era combatido com fotos dela usando chapéu em seu aniversário de 7 anos, e, mais recentemente, brincando com seu cachorro, Ralphy.

"Desde o início percebemos o que estava acontecendo: havia uma enxurrada tremenda de coisas negativas sendo ditas sobre ela, coisas que sabíamos ser completamente erradas", falou Tom Wright, 58 anos, que ajudou a formar o grupo porque sua filha, Sara, foi colega de escola de Knox.

Michael Heavey, um vizinho de Knox que é juiz da corte superior em Seattle, disse que falou sobre o caso com a senadora Cantwell, que é sua amiga. Quando Knox foi condenada, em 2009, Cantwell divulgou um comunicado dizendo em parte: "Tenho questionamentos sérios sobre o sistema de justiça italiano e a possibilidade de este julgamento ter sido afetado por antiamericanismo".

Heavey foi admoestado no ano passado por ter usado funcionários do tribunal para digitar três cartas a autoridades italianas sobre o caso de Knox, impressas em papel timbrado do tribunal. Um acordo com o Estado disse que ele reconheceu que se deixou levar por sua "compulsão em corrigir o que via como um erro cometido".

O elemento de apoio de base foi importante, disse Wright, porque a família de Amanda Knox não era rica; ele disse que os parentes dela refinanciaram suas casas para pagar as custas legais. Enquanto seu grupo e um fundo de defesa legal levantaram mais de US$100 mil para a família, ele estima que as despesas desta chegarão a mais de US$1 milhão.

Com o tempo, porém, disse Marriott, os advogados de Knox autorizaram os familiares dela a conceder entrevistas, coisa que fizeram assiduamente. Em entrevista ao "New York Times" dada neste verão na Itália, enquanto aguardava a decisão sobre a apelação, a mãe de Knox, Edda Mellas, explicou seu ponto de vista.

"A mídia vem sendo uma maldição, mas isso faz com que Amanda não tenha sido esquecida", disse Mellas. "Não vejo a hora de não precisar mais falar com nenhum repórter nem dar outra entrevista. Mas, se isso significa ajudar Amanda, vou continuar a fazer tudo isso."
Gerald L. Shargel, um advogado não envolvido com o caso mas que já representou outros clientes de alto perfil, disse que, embora a opinião pública possa influenciar casos judiciais, é difícil medir essa influência. Mas, para ele, a imagem de Amanda Knox mudou consideravelmente desde o começo do caso.

"Isso não aconteceu da noite para o dia, mas a imagem dela vem passando por uma faxina nos últimos anos. Agora ela é vista como a garota americana simpática que estava no lugar errado, na hora errada em outro país", disse ele.

O interesse da mídia pelo caso foi enorme. Uma âncora da rede ABC, Elizabeth Vargas, foi enviada à Itália sete vezes. A NBC despachou seu âncora principal de fim de semana, Lester Holt, à Itália por vários dias a cada vez, e na semana passada chegou a enviar o âncora principal do programa "Today", Matt Lauer.

Agora as redes de TV buscam entrevistas. De acordo com dois executivos de televisão, representantes de vários programas de TV estavam no mesmo vôo que Knox na terça-feira. E alguns analistas de mídia prevêem que o próximo passo possa ser vender um livro, o que ajudaria a custear as despesas legais.

"A história dela tem todos os ingredientes que darão um livro de grandes vendas e um filme feito para a TV", disse Lee Kamlet, reitor da escola de comunicações da Universidade Quinnipiac e ex-executivo da ABC News.

Tradução de Clara Allain

 

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