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Na Síria, milícias sequestram e executam pacientes de hospitais, diz ONG
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JEFFERSON PUFF
DE SÃO PAULO
Milícias controladas pelo regime do ditador da Síria, Bashar al Assad --que enfrenta uma revolta popular desde março-- passaram a sequestrar pacientes em hospitais usando ambulâncias do Crescente Vermelho, além de prender e executar médicos, paramédicos e enfermeiros, informou a ONG internacional de direitos humanos Avaaz, com sede em Nova York, em entrevista à Folha.
De acordo com a organização, os mortos pela repressão já podem estar em quase 6.000.
Vídeos enviados por militantes mostram que as Shabiha --como são conhecidas as milícias que atuam para o governo-- têm diversificado suas técnicas de repressão nas últimas semanas e passaram agora a rastrear os hospitais, sobretudo na capital Damasco e na cidade de Homs, em busca de manifestantes feridos, que acabam sendo presos ou executados.
Nas imagens abaixo, um paramédico é executado supostamente durante um confronto com forças de segurança sírias, de acordo com as informações da ONG. Confira:
A Avaaz, organização internacional de direitos humanos criada em 2007 que conta com mais de 10 milhões de membros em diversos países é atualmente a única ONG ocidental que mantém ativistas na Síria.
Dados obtidos pela entidade indicam que, nos últimos dias, ao menos 57 pacientes foram sequestrados de hospitais nas cidades de Homs e Lattakia, e nove médicos foram presos por prestarem atendimento a manifestantes.
Os vídeos enviados à ONG mostram membros das Shabihas no controle de ambulâncias do Crescente Vermelho (o braço islâmico do Comitê Internacional da Cruz Vermelha), de onde chegam a atirar em civis, e em outro momento um paramédico seria assassinado dentro de outra ambulância. Neste abaixo, imagens mostram como membros das milícias tomam posse de uma ambulância.
As revelações, que não puderam ser comprovadas de forma independente, chegam em um momento em que as principais potências ainda não coneguiram chegar a um acordo sobre medidas que possam pressionar o regime do ditador sírio.
No dia 4 deste mês, Rússia e China vetaram uma resolução no Conselho de Segurança da ONU, que poderia pressionar figuras importantes, além do próprio ditador, congelar seus bens e isolar o país. China, Rússia, EUA, Reino Unido e França detêm poder de veto no órgão.
Nenhum dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que criticam a ação ocidental na Líbia por ter "extrapolado" o mandato de proteção de civis, apoiou a resolução.
NECROTÉRIOS DO EXÉRCITO
Segundo a direção da ONG, o número de mortos pelo regime já chega a 3.300 desde março, e mais 2.500 corpos estariam sendo mantidos em necrotérios e hospitais do Exército, o que pode elevar o saldo de vítimas da repressão a quase 6.000 em sete meses. A Avaaz diz que há também indícios de que o regime já tenha detido 12 mil pessoas. Não foi possível verificar tais dados de forma independente.
| Editoria de Arte/Editoria de Arte/Folhapress |
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Um grupo de 60 militantes da entidade trabalha em campo coletando evidências para montar um caso contra Assad no Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia. "Já tivemos reuniões com a ONU e o TPI e nossa equipe, ao lado das organizações de direitos humanos sírias, trabalha para montar um caso consistente contra o regime", disse à Folha Will Davis, coordenador de mídia da Avaaz baseado em Londres.
Promotores do TPI veem indícios de que Assad tenha cometido crimes contra a humanidade.
Davis argumentou que, até o momento, grupos como a Anistia Internacional (AI) e equipes de investigação de direitos humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) não conseguiram entrar no país, que vive sob intensa repressão do governo.
A missão de investigação das Nações Unidas que seria enviada em setembro à Síria, sob a chefia do diplomata brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, ainda não recebeu autorização de Assad, e até o momento não há outro grande grupo internacional atuando no país.
Davis disse que o número de mortos atualmente divulgado pela ONU é obtido com ajuda da Avaaz, que por estar em solo sírio mantém uma cooperação mais próxima com redes de observadores de direitos humanos, médicos e fontes entre os ativistas.
O coordenador de mídia da organização disse à Folha que os 2.500 corpos mantidos em necrotérios do Exército são em grande parte de manifestantes mortos nas ruas que são rapidamente recolhidos pelo governo antes de que os familiares tenham acesso, entrando assim nas estatísticas como "desaparecidos".
"A diferença é que além de perseguir manifestantes porta-a-porta, torturar, prender e atirar em civis nas ruas, o regime agora passou a sequestrar ambulâncias, invadir hospitais para prender e executar pacientes e médicos", conclui Davis.
BLOQUEIO À IMPRENSA INTERNACIONAL
O coordenador da entidade disse ainda à Folha que os ativistas da Avaaz montam agora uma estratégia para burlar o controle do regime à mídia internacional, estimulando as técnicas de "jornalismo cidadão" entre os militantes.
"Já que os jornalistas estrangeiros estão proibidos de entrar no país, estamos distribuindo laptops, câmeras e telefones de satélite para alguns dos militantes para que produzam cobertura e testemunhos das atrocidades do regime e encaminhem para o resto do mundo. Alguns dos registros são vazados através do Líbano, de onde podem seguir para outros países", explica.
Os vídeos divulgados nesta segunda-feira seriam parte dos primeiros resultados dessa iniciativa, que tem entre os objetivos aumentar a "pressão sobre a comunidade internacional" frente à "inércia" com relação à crise na Síria, diz Davis. Nas próximas imagens um paramédico ferido pelas milícias do regime é atendido por colegas.
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