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Editorial: 'Big brother' mundial

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Inconformidade e indignação. Estes os sentimentos manifestados pelo governo brasileiro assim que veio a público a notícia de que a presidente Dilma Rousseff foi diretamente espionada pela Agência de Segurança Nacional (NSA) na administração de Barack Obama.

As informações, apresentadas neste domingo pela TV Globo, culminam a sequência de escândalo e desconforto iniciada em junho, quando o jornal "The Guardian" teve acesso a documentos vazados por Edward Snowden, ex-prestador de serviços para a NSA. No mês seguinte, soube-se que e-mails e telefonemas de brasileiros foram interceptados por agentes de Tio Sam.

Que se admita, por um momento, a denominação, que parece obsoleta. É que, com o surpreendente feito de espionagem contra Dilma Rousseff, um clima de suspeita se instala entre os dois países. Também o hoje presidente do México, Enrique Peña Nieto, recebeu atenções indevidas do "big brother".

Todavia, se a parceria entre Brasil e EUA pressupõe "confiança mútua", não é razoável crer que a relação entre países tome como régua a ética dos laços pessoais.

Interesses divergem, negociações se fazem com outros parceiros, o que se declara oficialmente não é o que se planeja em reuniões fechadas. Um sistema mundial sem espionagem seria ainda mais difícil de imaginar do que um mundo sem guerras ou sem exércitos.

Expressar indignação é a resposta correta tomada pelo governo brasileiro --mas não se há de supor que ela resolva o problema em si. Imaginá-lo implicaria a visão ingênua de que nenhuma espionagem aconteceu, acontece ou acontecerá entre países aliados.

Caberia, de qualquer modo, tomar a cascata de escândalos que atinge a diplomacia americana como oportunidade para fortalecer os interesses brasileiros. Se comprovada a espionagem em favor de empresas privadas dos EUA, iniciativas de retaliação e compensação nos foros internacionais podem ser tomadas.

A crítica a procedimentos monopolistas na área de comunicações internacionais pode se fortalecer, numa situação em que os limites entre o público e o privado nos negócios americanos se mostram mais tênues do que nunca.

O fato de que gigantes da internet consentiram em colaborar com as áreas de segurança do governo Obama é incentivo para maior pulverização e transparência no setor.

A indignação, neste sentido, funciona como instrumento num jogo mais complexo; fora isso, seria apenas o equivalente de introduzir-se a paixão nacional e ideológica num campo onde tal gênero de sentimentos nunca produz resultados estimáveis.

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