Descrição de chapéu O que a Folha Pensa

Às raias da loucura

Crédito: Justin Sullivan/AFP CORTE MADERA, CA - JANUARY 05: Copies of the book "Fire and Fury" by author Michael Wolff are displayed on a shelf at Book Passage on January 5, 2018 in Corte Madera, California. A controversial new book about the inner workings of the Trump administration hit bookstore shelves nearly a week earlier than anticipated after lawyers for Donald Trump issued a cease and desist letter to publisher Henry Holt & Co. Justin Sullivan/Getty Images/AFP == FOR NEWSPAPERS, INTERNET, TELCOS & TELEVISION USE ONLY ==
Cópias do livro "Fire and Fury" (Fogo e Fúria: Por Dentro da Casa Branca), de Michael Wolff

Tentar entender o que vai pela cabeça de Donald Trump tornou-se obsessão entre os americanos, dadas as muitas mostras de comportamento errático do republicano.

Daí decorre boa parte do sucesso instantâneo de "Fire and Fury: Inside the Trump White House" (Fogo e Fúria: Por Dentro da Casa Branca de Trump), lançado na última sexta (5). De modo temerário, o livro sugere, a partir de entrevistas e relatos protegidos pelo anonimato, que Trump não tem aptidão mental para comandar o país.

O frisson em torno da obra reavivou uma discussão sobre a possibilidade de afastar o mandatário por alegada insanidade. Um projeto de lei, que pode ser votado em breve, estabelece a criação de uma comissão permanente de psiquiatras para avaliar o chefe do Executivo, se houver solicitação formal do Congresso.

Adentra-se, aí, em terreno pantanoso, a começar pela diminuta chance de que tal iniciativa prospere. A Constituição prevê a destituição presidencial em caso de "incapacidade de desempenhar suas funções". Para tanto, porém, seria necessário o aval de dois terços da Câmara e do Senado, controlados pelos republicanos.

Decerto, há abundantes ressalvas a fazer ao desempenho do presidente. Tomem-se como exemplos o zigue-zague de suas declarações, que atordoa os subalternos, ou mesmo as provocações pueris contra desafetos em redes sociais.

Nada disso, entretanto, traz suficiente fundamentação para vaticinar que sua permanência no poder seja uma ameaça aos EUA, como querem fazer crer setores do Partido Democrata.

Em vez de um debate estéril sobre o que ele pode vir a fazer em decorrência de uma suposta insanidade, a oposição fará melhor em cobrar o andamento das investigações sobre o que já existe de questionável em sua conduta —em especial a suspeita de conluio com a Rússia para favorecê-lo na campanha de 2016.

Trata-se de episódio ainda sob apuração do FBI, cujo potencial de dano político é vasto. Não por acaso, o republicano tem agido nos bastidores para dificultar o quanto for possível o esclarecimento desse caso. Eis aí uma situação que pode levar a um processo de impeachment, se comprovada uma ação ilegal do mandatário.

Fora do campo da concretude, pôr em dúvida a sanidade de Trump só tende a municiar suas alegações de que é perseguido pela mídia. Nessa seara escapista, para empregar suas próprias palavras ao comentar sobre o livro, ele não é inteligente, mas um gênio.

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