Descrição de chapéu O que a Folha Pensa

Campanha de embuste

Crédito: AP Photo/Evan Vucci

Há boas razões para crer que a disputa eleitoral deste ano, além de acirrada como poucas vezes se testemunhou na história recente do país, será decisiva para o debate global em torno da disseminação de notícias falsas pela internet.

Afinal, no Brasil se combinam vasta população, graves deficiências em educação e leitura, um mercado jornalístico frágil em diversas regiões e, não por acaso, amplo emprego das redes sociais como fonte de informação.

Estima-se que abriguemos o terceiro maior contingente de usuários do Facebook, atrás apenas de Índia e Estados Unidos -onde o pleito vencido por Donald Trump em 2016 se tornou marco a evidenciar o potencial maléfico das assim chamadas "fake news".

O republicano se beneficiou da propagação de mentiras como a de que teria o apoio do papa Francisco, entre muitas outras, mais verossímeis ou menos, criadas por entidades e interesses nebulosos. Lá como aqui, o combate a esse tipo de campanha embusteira não raro se assemelha à proverbial tarefa de enxugar gelo.

Para as eleições brasileiras, criou-se um grupo de trabalho formado por representantes da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nesta edição da Folha, relatam-se alguns dos casos detectados; muito mais difícil, entretanto, é desmenti-los e apontar os responsáveis.

Registrado em vídeo, um protesto violento de moradores da zona rural da Bahia é atribuído ao MST; no Paraná, um carregamento de maconha apreendido pela polícia alimenta o boato de que o líder tucano na Assembleia Legislativa atua no narcotráfico.

Com a ação de robôs, militantes fanatizados e meros incautos, falsidades como essas são compartilhadas aos milhares em segundos. A difusão da verdade -ou, mais precisamente, de informação colhida e apresentada com critérios profissionais de checagem e respeito ao contraditório- não conta com tamanha estrutura.

Compreende-se, assim, o recente movimento do Facebook no sentido de restringir a circulação de conteúdo noticioso entre seus dois bilhões de usuários em todo o planeta -incorrendo, de caso pensado, no risco de ver reduzido o tempo despendido na rede social por seus frequentadores.

O gigante tecnológico se tornou, afinal, também um gigante de mídia. A segunda condição, entretanto, implica responsabilidades éticas e legais estranhas às estratégias de negócios da primeira.
Quem veicula informações deve estar pronto a prestar contas a respeito de suas origens, sejam elas veículos de imprensa ou anunciantes obscuros na Rússia, e a responder por suas consequências.

Tal entendimento é crucial para que o desmonte das notícias falsas, sempre um trabalho de Sísifo, ganhe ao menos racionalidade.

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