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21/03/2011 - 03h37

Não há espaço para uma 3ª força nas disputas eleitorais, diz Limongi

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UIRÁ MACHADO
DE SÃO PAULO

A criação de um novo partido pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e a provável incorporação do nascituro PSD pelo PSB não quebrará a polarização PT-PSDB, afirma o cientista político Fernando Limongi, professor titular da USP.

Conforme reportagem da Folha, o Planalto teme que o PSB ganhe muita musculatura e se torne um problema em 2014.

Alessandro Shinoda/Folhapress
Professor Fernando Limongi diz que a criação de um novo partido por Kassab não quebrará a polarização PT-PSDB
Professor Fernando Limongi diz que a criação de um novo partido por Kassab não quebrará a polarização PT-PSDB

Para Limongi, porém, as disputas para o Executivo no Brasil são bipartidárias e não há espaço para uma terceira opção. De acordo com ele, as estratégias de PT e PSDB definem --e limitam-- as opções do eleitor nas disputas para presidente e governador e, agora, começam a chegar ao Legislativo.

A seguir, trechos da entrevista concedida à Folha na quinta-feira.

Folha - A criação de um novo partido pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e sua eventual incorporação pelo PSB poderia fortalecer esta legenda a ponto de romper a polarização PT-PSDB?

Fernando Limongi - A despeito de o PSB ter crescido nas últimas eleições, o partido fez uma bancada relativamente pequena de deputados federais. É menor e tem menos força que o PMDB.
Acho que o PSB está procurando se fortalecer para ter uma relação melhor com o governo. Eventualmente pode estar pensando em agir sozinho, em se lançar num voo solo. Mas acho que o que está em jogo é ver quem é melhor aliado do PT.
Pessoalmente, acho muito difícil que consiga viabilizar uma alternativa nacional. O PSB está praticamente restrito ao Nordeste.
Agora, se o PSB pretende crescer buscando lideranças nos Estados para puxar o partido e se nacionalizar, bem, essa foi a estratégia que [Leonel] Brizola [1922-2004] adotou. E não deu resultado.
Pode ser uma característica do Brizola, e não da estratégia, mas tendo a achar que não funciona.
O PSB tem que encontrar o seu espaço. Eu não acredito que ele consiga conquistar o eleitorado se apresentando como melhor opção nem à direita nem à esquerda do PT.
É um problema de difícil solução, e não é montando uma coalizão tão heterogênea... Quem vai votar no PSB por causa do Kassab?

Mas o Kassab não vai ter força em São Paulo para concorrer ao governo do Estado?

Para ele lançar uma candidatura a governador, precisa de uma plataforma, de um discurso. Ele tem que aparecer como opção, tem que viabilizar isso. Acho difícil em São Paulo. Quando ele foi candidato a prefeito, só conseguiu ser eleito porque teve apoio de facções do PSDB e contou com uma campanha desastrada de [Geraldo] Alckmin [PSDB], que perdeu uma eleição ganha.
Sem parte do PSDB, ele não vai conseguir. E, para ter o partido de novo, tem que ter gente graúda por trás.

Em seu artigo na revista "Novos Estudos" 88 (novembro), do Cebrap, o senhor afirma que há dois blocos nacionais: PT-PSB e PSDB-DEM. Nessa eventual nova configuração, não daria para o PSB deixar de ser satélite?

"Satélite" não é a palavra mais correta. Esses partidos são aliados históricos e têm um acordo de complementaridade. É uma mão lavando a outra, não há sujeição.
Nos Estados, por exemplo, o PT não compete com o PSB onde este é forte. E boa parte da ascensão do PSB só se explica porque ele contou com esse suporte do PT. Mas o PSB precisa definir a relação.
Em termos de ministérios, o PMDB tem uma participação muito maior que a do PSB. É essa relação que está um pouco implicada, o PSB quer se reforçar nesse debate. Mas vai querer lançar candidato contra o PT em 2014?

O sr. também afirma em seu artigo que, com seis eleições presidenciais pós-redemocratização, já é possível analisar tendências de longo prazo. Uma delas seria o bipartidarismo da disputa presidencial. Não tem espaço para um novo partido, que apareça como terceira força?

Eu acho que não tem.
Mas há um paradoxo que ainda precisa ser entendido. Temos um bipartidarismo. São cinco eleições seguidas em que só dá PSDB e PT, e tudo leva a crer que na próxima será a mesma coisa.
Mas de onde vem essa força? Por que esses dois partidos controlam esse eleitorado? Há muitos eleitores flutuando, então não é possível dizer que o eleitorado vota partidariamente. Claro que tem petista e peessedebista de carteirinha, mas, no geral, não é um eleitorado fiel no sentido de que jamais vai abandonar o partido.
O que não sei é o quanto o eleitorado que está flutuando entre os polos é grande para constituir uma terceira via. De todo modo, esse deve ser um eleitor difícil de conquistar, por isso é mais fácil que fique flutuando.
Desse ponto de vista, tem possibilidade de alguém furar o esquema? Tem. Mas, se for para apostar, eu não apostaria muito nisso... Vai ficar no "se".
No frigir dos ovos, a candidatura não vai se viabilizar. Já vimos isso. O custo de entrada é muito alto.

É um bipartidarismo inercial, e não "ideológico"?

Não sei. Ainda é preciso entender: há duas opções porque os eleitores só querem essas duas ou porque os líderes partidários fecham as portas para as demais?
Acho que não precisamos ir com muita força em nenhuma das duas explicações, mas o que precisa ser enfatizado é que não existe um enraizamento em termos de preferência partidária.
Seja como for, o que assusta é que ninguém está falando o óbvio, que são cinco eleições seguidas com PT e PSDB. É a partir disso que temos que começar a pensar.
Por que sempre esses partidos? E por que não repete o terceiro colocado? É sempre alguém muito pequeno, sem representação na Câmara, sem governador...

Por que o Congresso é tão fragmentado?

Isso é outra coisa. A gente precisa olhar para as eleições que são as mais importantes, que são para o Executivo: onde está o controle do Orçamento e que são as privilegiadas por partidos e eleitores.
O que acontece é que os partidos grandes estão cedendo cadeiras nas eleições proporcionais e não estão ligando para isso.
Uma possibilidade é que o processo ainda está em andamento. Começou pelos Executivos e agora vai descendo para o Legislativo.
O que é importante notar é que está tendo uma nacionalização da disputa. Ao contrário do que em geral se diz, que só tem poderes locais e muita fragmentação, o conflito PT-PSDB está organizando toda a competição, inclusive nos Estados, como eu mostro no artigo.
E agora, em 2010, teve a novidade de essa estratégia chegar ao Senado.

Mas esse movimento não pode tomar outro rumo?

O fato é que várias vezes poderia ter sido de outro jeito, mas nunca foi.
As estratégias dos partidos que têm sido bem-sucedidas são cada vez mais abrangentes. A lógica está se impondo.
O exemplo forte é 2010. Ciro Gomes queria ser candidato, e seu partido [PSB] tinha condições de lançar a candidatura e pelo menos bagunçar o coreto, ter chance de chegar ao segundo turno.
Havia alguns fatores conjunturais que favoreciam essa aposta. Dilma Rousseff não era conhecida. Seria o momento para alguém tentar. Por que não tentou?

Uma eventual consolidação do bipartidarismo é positiva ou negativa?

Pouco partido é perigoso... Não sei se é uma boa coisa para a democracia ter poucos partidos. A maior parte das análises diz que, quanto menos partido, melhor. Acho que não necessariamente, porque está fechando a competição. Talvez seja melhor um sistema mais aberto.
Com pouca competição, esses caras viram oligopolistas, podem desrespeitar a opinião do povo.

Muitas propostas de reforma política buscam diminuir o número de partidos. Elas têm um objetivo disfarçado de reduzir a competição?

Sempre tem essa motivação de reduzir a competição.
Aliás, um tema constante há mais de 200 anos nas reformas eleitorais é a preocupação com o custo de campanha e com a corrupção eleitoral. Desde o século 17, 18, na Inglaterra. Sempre há essa preocupação, saber como controlar a entrada de dinheiro que vem com gente nova, de fora da elite política.

É melhor não fazer reforma?

O problema é que, na verdade, cada um tem a sua proposta de reforma. Nosso sistema tem muitas interações, é muito complexo. Não dá para achar que um problema vai ser resolvido com determinada solução. Não dá para saber o resultado.
Olha no que deu a proibição da migração partidária. O Kassab está dando um jeito que é mais ridículo do que se ele fosse direito para o PSB...
Então não é legalmente que vai resolver o problema.

Nem para impedir a consolidação do bipartidarismo?

Isso não tem jeito. A grande lógica que está por trás é a lei de Duverger [sistemas majoritários conduzem ao bipartidarismo], é custoso entrar na disputa, o número de partidos tende a diminuir.
Não é que não precise mexer no sistema, que ele não tenha erros. Mas estão olhando para os lugares errados. As intervenções do Supremo Tribunal Federal, por exemplo, têm sido desastrosas.

Uma crítica comum aos partidos políticos brasileiros é que lhes falta aderência ideológica. O sr. concorda?

O termo "ideológico" tem uma conotação muito forte e está sempre associado a alguma coisa substantiva. Mas, do ponto de vista da competição eleitoral, é relacional. Os partidos têm que se relacionar, têm que criar um metro único e se relacionar nesse espaço.
O PSDB pode não gostar, mas ele está do lado oposto ao do PT, e no meu modelito está à direita. E foi empurrado mais para a direita na medida em que o PT veio para o centro, porque não tem como governar da esquerda.
Ainda assim, o PSDB não adotou o discurso liberal, ainda que tenha adotado temas clássicos da direita durante as eleições, como religião, e foi um pouco o que salvou o partido.

Por que a "direita explícita" sumiu do quadro partidário?

Enquanto alguns partidos competem pelo Executivo, os outros disputam migalhas. Eles não têm para onde correr a não ser para o governo.
Eles têm que ser pragmáticos. A única chance de conseguirem cadeiras nas eleições seguintes é tendo algum ministério para fazer política pública, que é o que chega na população e nos interesses. Sem acesso a isso, não elege ninguém e desaparece.
Esses partidos se seguram nisso. Por isso que eu digo: é barato montar coalizão. Os nanicos não têm poder de barganha nenhum.
Fazer oposição é luxo, precisa ser rico para isso. O PSDB tem gordura, mas o DEM minguou quando virou oposição e perdeu acesso a políticas e recursos.
Para os partidos pequenos, é melhor ser anódino. Se o PSDB estivesse no governo, eles estariam juntos.

 

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