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A Revista promoveu o reencontro de 11 dos 32 bailarinos que fizeram parte da primeira formação do Balé da Cidade há 40 anos
Da esq. para a dir., Elenice, Elisabeth, Waldivia, Suely, Mariangela, Vera, Raquel, Esmeralda, Cleusa, Yara e Sidney
a dança do tempo
por Gustavo Fioratti
O programa da primeira apresentação do Balé da Cidade de São Paulo -na época chamado Corpo de Baile Municipal- lista o nome de um grupo de bailarinas e bailarinos. Foi impresso em 1968 para apresentar, com uma encenação de "La Traviata", de Verdi, o que pode ser chamado de a primeira companhia estável de dança da cidade.
Esse mesmo programa atravessou quase meio século dentro de um museu, no Teatro Municipal, até ser resgatado pela Revista para uma experiência inédita: a tentativa de reunir a mesma turma que, há 40 anos, vivenciou uma das histórias mais singulares e belas do cenário artístico da capital paulista.
O resultado dessa busca foi o reencontro emocionado de 11 deles, no sábado 7. Antes de subirem ao palco para fazer a foto principal que ilustra a reportagem, a turma de ex-colegas fez um mergulho sentimental no passado. "Foi emocionante lembrar de nossa época no teatro, nosso trajeto ali dentro, passar por trás do palco, refazendo o caminho que percorríamos todos os dias para pegar o elevador e ir até a cúpula, onde ensaiávamos", diz Mariangela D'Andrea, 58, que foi solista em grande parte das estréias apresentadas até meados dos anos 70 e hoje dá aulas na Escola Municipal de Bailado.
A procura pelos integrantes dessa velha guarda começou há cerca de dois meses. A partir da lista dos aprovados na audição pública, a reportagem rastreou 27 daqueles jovens, que tinham de 16 a 22 anos na época. Entre eles, Ivonice Satie, 57, uma das mais importantes bailarinas do Corpo de Baile, que anos mais tarde se tornou diretora do próprio Balé da Cidade. Gravemente doente, ela não pôde comparecer ao encontro. O evento também ficou desfalcado de seis que moram fora de São Paulo e de outros seis bailarinos que já morreram.
O paradeiro de dois deles só foi conhecido após o encontro. Uma das ex-bailarinas estava viajando. Cinco integrantes da turma não foram encontrados, nem com a ajuda dos colegas. Assim como Lia Marques, uma das fundadoras, que mora em Jundiaí, e o primeiro diretor Johnny Franklin, que morreu em 1991.
Para os 11 que deram as caras na reunião, com direito a um bolo de parabéns da confeiteira Nininha Sigrist, a viagem no tempo foi permeada de histórias contadas entre abraços e risadas.
No salão nobre do teatro, muitas delas sacaram da bolsa suas máquinas fotográficas para retratar uma mesma cena: de um grupo de ex-bailarinos que envelheceram mas que, de alguma forma, ainda trazem uma elegância na postura, nos passos e nos movimentos sutis. Só os cabelos bem vermelhos de Cleusa Dias, que não revela a idade, é que destoaram de um perfil tão comportado.
Aos poucos, durante o encontro, beijos e abraços foram dando lugar a brincadeiras sobre envelhecimento. "Agora, não levanto mais", alguém falou ao agachar para a foto. Exagero. A pedido da reportagem, Mariangela, por exemplo, levou a sapatilha e fez as poses que ilustram a capa da Revista. Mostrou elasticidade e graça, em um corpo ainda esguio. Seus quase 60 anos só ficaram evidentes pelas marcas do tempo nas mãos.
A passagem dos anos naturalmente foi distanciando os antigos colegas. "Algumas das meninas eu não encontrava fazia mais de 30 anos. Foi estranho. E acho que muitas estranharam ao me encontrar também. Éramos muito novas quando entramos para o balé", diz Elenice Ferreira, 55, outra bailarina de destaque no grupo, que hoje comanda sua própria escola de dança.
Dança como profissão
O balé continuou presente na vida de sete deles. Quatro ex-bailarinas ainda continuam na ativa agora como professoras e duas migraram para funções secundárias da área. Único representante do sexo masculino, Sidney Astolfo, 60, se aposentou como bailarino há quatro anos. Um pouco deslocado entre as dez mulheres, ele fez um veredicto logo na chegada: "Aposto que, dos homens, só eu venho!" Acertou. O ex-bailarino referia-se à forte baixa na ala masculina, com as seis mortes daquela turma, metade delas causadas por complicações em decorrência da Aids.
Outro fator para ausência dos hoje senhores do grupo é que muitos deixaram a cidade. Eros Velloso, 64, que mora no Rio, deu por telefone seu depoimento sobre os colegas. "Éramos quase todos cariocas. Ir para São Paulo foi uma experiência muito diferente", conta. "Foi difícil deixarmos nossas casas, mesmo sabendo que era tudo divertido."
Nos primeiros seis meses, todos os rapazes que vieram do Rio ficaram hospedados em uma sala do estádio do Pacaembu. "Lavávamos e estendíamos nossas roupas dentro do alojamento, no lugar onde dormíamos", relata. "Quando íamos para o teatro, as meninas nos levavam sanduíches. Aos poucos, cada um encontrou seu canto."
Dessa lembrança de Eros salta um dos indícios de que o cenário da dança, em São Paulo, estava muito longe de ser visto como uma possibilidade de carreira e profissão em 1968, principalmente para os meninos. Não havia, por aqui, homens aptos a concorrer à audiência realizada pela prefeitura. Por isso, a maioria dos bailarinos teve de ser "importada" do Ballet Municipal do Rio de Janeiro.
Segundo o crítico de dança Acácio R. Vallim Jr., além de não existir um cenário profissional na cidade, havia um ambiente hostil aos homens que optavam pelo balé. "A criação do Corpo de Baile ajudou a desfazer esse preconceito. Mas até hoje, poucos homens optam por ser bailarino. Não existe ainda uma tradição, como na Europa e nos EUA", analisa.
A fundação do Corpo de Baile -sob iniciativa da bailarina Lia Marques junto à administração do prefeito Faria Lima- permitiu um salto em direção à criação de uma categoria. Pela primeira vez, bailarinos de São Paulo recebiam pagamentos mensais. "Eu ganhava mais do que meu marido, que era médico", diz Raquel Strada. "Eu tinha 17 anos e recebia mais do que meus próprios pais, que eram funcionários públicos", emenda Márcia Baccala, 58, que parou de dançar em 1978 e hoje é dona-de-casa.
Com as sucessivas mudanças de moeda nas últimas quatro décadas, não dá para precisar quanto eles ganhavam em valores de hoje. O fato é que o balé representou estabilidade financeira para o grupo. A profissionalização também significou passar manhãs e tardes inteiras ensaiando e fazer viagens ao exterior a partir de 1970.
O convívio continuado foi costurando relações bastante íntimas e uma infinidade de histórias. "Passávamos muito tempo juntos, e essa convivência fez com que nos tornássemos todos muito próximos", lembra Mariangela, que começou a conviver com boa parte das meninas ainda na Escola Municipal de Bailado, de onde saiu grande parte daquela primeira formação do Balé da Cidade.
Mas nem todas as lembranças são doces. Um dos episódios mais tristes, exemplo de sacrifícios típicos da profissão, foi a queda sofrida por Suely Brillinger, aos 19 anos, em um dos ensaios, três anos após a inauguração da companhia. "Um dos bailarinos tinha de me pegar no ar, mas ele não me viu, e eu caí", conta ela, que foi forçada a abandonar o balé por causa da queda e virou artesã.
Suely teve esmagamento em duas vértebras e passou cerca de 20 anos com problemas na coluna, mas não conseguiu se aposentar por invalidez. Lembra-se com pesar do médico dizendo que ela não poderia mais dançar. "Fiquei muito tempo sem ir a espetáculos do balé porque sentia muita vontade de chorar", diz ela, hoje com 56 anos. Ela fez questão de vir de Sorocaba a São paulo para rever o grupo. "Nesse encontro não senti tristeza nenhuma."
Para Raquel Strada, uma boa recordação é a de suas fugas, no intervalo entre os ensaios, para visitar, na cadeia, o marido, que era militante político de esquerda. O diretor Johnny Franklin não se conformava com suas saídas repentinas. "Ele dizia: 'Raquelzinha. Uma bailarina tão boa... Na fila da cadeia!' Ninguém entendia meus motivos. Era uma turma dos anos dourados vivendo os anos 60", recorda-se a ex-bailarina, hoje psicanalista.
O grande problema de Raquel, pensa ela, foi ter tido filhos muito cedo. "Passei a ser vista com outros olhos, como alguém que não se dedicava ao trabalho, que tinha outras prioridades", analisa. Raquel deixou o grupo em 78, quando nasceu sua quarta filha. "Lá dentro, eles também eram militantes." Ou seja, era exigida dedicação máxima.
Johnny Franklin (1931-1991) era o responsável por essa disciplina quase militar, um bailarino com formação clássica pelo Ballet Municipal do Rio de Janeiro. Estava sempre atento aos horários e não admitia atrasos aos ensaios, que transcorriam das 9h às 15h, com um intervalo para almoço.
Era também um homem belo e charmoso, motivo de suspiros entre as meninas do corpo de baile. Segundo Raquel, muitas das alunas eram "apaixonadas" por ele. Mariangela confirma a teoria da amiga: "As meninas falavam muito da beleza dele, o que nos incentivava a ir sempre arrumadinhas, maquiadas e bem vestidas e a fazer tudo sempre direitinho".
Maluf, AI-5 e Vietnã
O primeiro espetáculo do grupo, que estreou no dia 6 de abril de 69 com três coreografias (entre elas, "Coppélia"), não ganhou muito destaque nos jornais. A imprensa se debruçava sobre assuntos distantes daquele palco: o AI-5 havia sido instituído, Paulo Maluf tomaria posse na prefeitura em dois dias e o Vietnã entrava em guerra.
No mesmo ano, o grupo encenaria também o espetáculo "O Lago do Cisnes". E, nos anos seguintes, peças de um repertório clássico que estava com data marcada para encerrar. Em 74, com a substituição de Johnny Franklin por Antônio Carlos Cardoso na direção do balé, a linguagem predominante passa a ser contemporânea.
"Foi naquele momento que muitas de nós deixamos o grupo. A gente não concordava com aquelas transformações. Lembro que o novo diretor queria que jogássemos nossas sapatilhas no lixo. Nos chamava de quadradas", diz Elenice Ferreira, 56, que deixou o grupo dois anos depois da troca, em 76.
Também rondou a turma uma certa crise sobre papéis na companhia. Várias das bailarinas afirmam terem sido "preferidas" no grupo. Muitos confirmam um ambiente competitivo que, às vezes, acabava jogando uns contra os outros. "No balé, há muito narcisismo, o ego do bailarino tem sempre que ser massageado. Eu não dava trela para brigas", diz Mariangela. "No nosso meio, não acredito que haja amizades. É todo mundo individualista, um querendo passar por cima do outro", arremata Sidney.
Quarenta anos depois do início dessa história, a disputa travada por um ou outro papel dentro da companhia pode até ser algo a marcar a memória e o corpo. Mas a saudade de um teto pioneiro e acolhedor parece superar rivalidades. Tanto que alguns deles, ao se despedirem no sábado, pretendiam organizar um novo encontro. Uma prova de que, entre saltos e quedas, guardam os resquícios da história de jovens que doaram o melhor de si para fazer do balé uma profissão.
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